Segundo o pai de Alice Braga, ela está na profissão certa. “Ele sempre fala que não poderia ter um trabalho melhor para mim: dar entrevistas das dez da manhã às seis da tarde. Eu adoro falar!”, confessou a atriz ao Cineweb. O pai, o jornalista Ninho Moraes, não poderia estar mais certo. A garota, dona de uma carreira em ascensão no Brasil e em Hollywood, é articulada e inteligente.
Estreando com Cidade de Deus, em 2002, Alice não se assusta mais com a rotina de lançamento de um filme de grande porte, que inclui entrevistas no Brasil e exterior. “É uma oportunidade muito interessante, porque você tem a chance de divulgar o seu trabalho e conhecer pessoas, novas culturas.” Essa experiência, aliás, lhe serviu de base para construir seu personagem do filme O ritual, que estreia no Brasil no próximo dia 11. Ela interpreta uma jornalista chamada Angelina Vargas, que investiga exorcismo na Itália.
“É uma personagem diferente de tudo que já fiz. O filme também. Não é um terror apenas para dar medo. É um suspense que discute uma questão muito polêmica”. Segundo a atriz, o tema é tão controverso quanto assustador. “O diretor [o sueco Mikael Håfström] quis fazer algo na linha de O bebê de Rosemary e O iluminado. Claro que tem cenas de possessão e exorcismo. Afinal, o público adora sentir medo no cinema”. Prova disso é que o filme estreou em primeiro lugar nos EUA na semana passada.
Quando o assunto é medo, Alice confessa que gosta de filmes do gênero, mesmo que lhe causem pesadelos: “Eu adoro O exorcista mas, depois de ver, a dificuldade foi conseguir dormir”. Ela participa de alguma das cenas mais pesadas de O ritual, inclusive numa de exorcismo, na qual contracena com Anthony Hopkins. “Mas quando a gente participa do filme é completamente diferente. Sabemos de tudo que está por trás, de como foi feito, os efeitos. Então não me causa pesadelos”.
A cena levou quatro dias para ser rodada na cidade de Budapeste. “Estava um calor insuportável e tínhamos de usar um monte de roupa, porque se passa num dia frio. A cena pedia esforços não apenas físicos, mas psicológicos também. É um momento do filme cheio de detalhes, de cuidados. Exigia muita concentração, fora o tema, que já é pesado por natureza”.
Contracenar com Hopkins, para ela não foi desafio, foi um presente. “Ele é um ícone, um ator completo, apaixonado pelo que faz”. Já seu outro parceiro de cena é o irlandês Colin O'Donoghue, que tem seu primeiro papel de destaque no cinema em “O ritual”. “Ele é de uma entrega impressionante. Ver os dois contracenarem era especial”.
Hopkins entra para a lista de astros internacionais com quem Alice já trabalhou. Além dele, figuram Will Smith (Eu sou a lenda), Julianne Moore e Mark Ruffalo (Ensaio sobre a cegueira) e Jude Law (Os coletores). “Saber que vou fazer um filme com eles dá um frio na barriga, num primeiro momento. Mas tive a sorte de sempre trabalhar com pessoas muito generosas, que me ajudaram e deram muita segurança em cena”.
Fora os atores, aos poucos Alice também coleciona diretores de renome. Além de Fernando Meirelles – a quem ela chama de padrinho - há pouco, rodou uma participação no novo filme de Walter Salles, On the road, baseado no romance homônimo e icônico de Jack Kerouac. “Era um sonho estar em um filme dele. Eu faço uma catadora de algodão que se apaixona pelo protagonista [interpretado por Sam Riley].”
Atualmente em São Paulo, onde mora sua família, Alice diz que não tem residência fixa (“vou onde está o trabalho; cada dia estou num lugar”). No momento, analisa roteiros de Hollywood enquanto aguarda começar dois projetos que tem programados para filmar no Brasil. Um deles é a primeira ficção do roteirista e diretor Felipe Braga, que assinou o documentário B1- Tenório em Pequim e o roteiro de Cabeça a prêmio, que foi dirigido por Marco Ricca, e no qual a atriz fez o principal papel feminino. O outro é um filme de José Eduardo Belmonte, que deve ser rodado depois de Billy Pig, que o diretor está fazendo com Grazi Massafera e Selton Mello.
Alice conta que o que a atrai nos filmes, sejam brasileiros ou estrangeiros, é a possibilidade de viver novos personagens e desafios. Ela diz que adoraria “ser desafiada” pelos irmãos Coen, Wes Anderson ou Alejandro Gonzáles Iñarrítu, ou os brasileiros Marcelo Gomes, Karim Aïnouz ou Mauro Lima. “A lista é tão grande! Eu quero mesmo é trabalhar, e não necessariamente no cinema”. Alice está também à procura de uma peça para estrear no teatro. “Estou lendo diversos textos, vendo o que me interessa mais, o que eu mais gosto. Acredito que será uma peça contemporânea”. E ela também não descarta a televisão. “Sempre quis muito fazer, mas não deu certo. Quando me convidam para alguma novela, estou envolvida com cinema e não posso aceitar. A televisão tem muito alcance, é uma linguagem que me interessa muito”.
