08/08/2026

“Amor?” transforma o prazer e a dor dos outros em histórias pessoais

Amor?, de João Jardim, é um filme que desafia classificações. Parte documentário, parte encenação, fala mais sobre as dores do que as delícias de amar. O diretor, que tem em seu currículo Janela da Alma e Pro dia nascer feliz, colocou atores renomados diante da câmera para reviver depoimentos sobre romances conturbados, que foram captados apenas em áudio para preservar a identidade das pessoas que os viveram.
 
“Foi um grande desafio fazer esse filme”, diz Eduardo Moscovis ao Cineweb. “Ao contrário de um filme puramente de ficção, aqui falávamos olhando diretamente a câmera, não tinhámos com quem contracenar. Foi algo bem diferente, estimulante”.  
 
Jardim disse que a ideia para o filme veio da própria realidade. “Lendo matérias de jornal, me perguntava como algo que começa como amor pode acabar se transformando em violência. Mas seria inviável fazer um documentário. As pessoas não ficariam confortáveis diante da câmera para contar as coisas que me contaram em depoimentos, como casos de agressão. Por isso chamei atores para encenar essas entrevistas”.
 
Os depoimentos originais foram gravados em áudio e, depois de transcritos, os roteiros foram encaminhados para os atores. “Não tinha como não ser um filme em primeira pessoa. E como as verdadeiras não podiam falar na frente das câmeras, a saída foi recriar”.
 
Fabiula Nascimento, recentemente vista em Bruna Surfistinha, é uma das “entrevistadas” do filme. Ela conta que, ao contrário de Moscovis, seus desafios foram outros. “Eu tentava não julgar a minha personagem. Queria me colocar no lugar dela, vivenciar suas experiências. Acredito que nunca passaria por coisas parecidas”.
 
Para a preparação de elenco, Jardim explica que os ensaios foram fundamentais. “Eu queria que eles se apropriassem dessas pessoas que iriam interpretar. Mas também deixei cada um livre para trabalhar ao seu modo, é claro”. No elenco também estão Lilia Cabral, Ângelo Antonio e Julia Lemmertz, entre outros.
 
Para Moscovis, essa apropriação do personagem era também a questão de encontrar limites. “Eu tinha que me apoderar da história dele, mas eu não podia ficar maior do que ele. Fiz um trabalho de aproximação, para chegar ao texto e deixar que o texto chegasse até mim”. Fabiula também confessa ter feito algo parecido. “Eu falava o texto da entrevista de outra pessoa, mas, ao mesmo, tempo colocava um olhar meu, um gesto, a forma como uso as mãos”.
 
Essa dicotomia dos atores vai ao encontro da proposta de Jardim para o filme que ele mesmo é incapaz de definir. “Eu não sei se é bem um documentário, mas também não é exatamente ficção. Não sei bem precisar quais serão os reflexos de Amor? à minha forma de fazer cinema. Acho que só com o tempo vou saber dizer o quanto esse filme mexeu comigo, tanto como pessoa, quanto como cineasta”.

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