15/06/2026

Eu precisava ser aceito no Capão Redondo para fazer “Bróder”, diz Caio Blat

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Caio Blat, ator conhecido pelo empenho que dedica a seus papeis, não pensou duas vezes. Quando soube que ia interpretar um morador do Capão Redondo no longa Bróder mudou-se para o bairro da zona sul paulistana. “Era uma responsabilidade muito grande para mim. Eu tinha que estar naquele local, conhecer bem. Enfim, precisava do aval daquelas pessoas para fazer o filme”, explicou em entrevista ao Cineweb.
 
Em Bróder, que estreia em São Paulo, Rio e Campinas nesta quinta (21), ele interpreta Macu, um rapaz que se envolve no crime para saldar uma dívida. O roteiro é assinado pelo diretor, Jeferson De, Newton Cannito e tem colaboração nos diálogos do escritor Ferréz (autor do livro “Capão Pecado”). “Quando recebi o roteiro, percebi que aquilo só podia ter sido escrito por alguém que conhece aquela realidade”, observa o ator.
 
Blat comenta que os moradores do bairro “criticam as pessoas que são de fora e tentam imitá-los, especialmente usando o mesmo linguajar, que já virou um dialeto. No filme, não queríamos parecer papagaios que repetem o jeito deles falarem. Eu tive que aprender tudo vivendo lá”.
 
Jonathan Haagensen, que interpreta um jogador de futebol em ascensão que mora na Espanha, explica que o maior preconceito sofrido pelos moradores da periferia é por causa do isolamento, por viverem longe do centro da cidade. “Há um estigma grande da origem humilde, do lugar pobre. Isso para mim não é nenhuma novidade”, conta o ator que tem em seu currículo Cidade de Deus.
 
Haagensen vai além ao dizer que “as pessoas estão cada vez mais assumindo sua identidade, se isolando, e o mundo global aumentou o problema, pois todos querem se impor, sem o diálogo”. Para Blat, o problema no Brasil é que vivemos num país que não se conhece e não quer olhar para si mesmo: “O Brasil é a maior comunidade negra fora da África. Tudo o que temos de mais importante foi conquistado pelo negro. É um absurdo precisarmos de atitudes afirmativas, como cota em universidades, lei antirracismo. Espero que no futuro não precisemos disso, que vivamos em igualdade”.
 
Reencontro com o Capão Redondo
 
Praticamente três anos depois de filmar no Capão Redondo, Blat e Haagensen voltaram ao bairro para a pré-estreia do filme. Para eles, foi como reencontrar os amigos.
 
“Muitas pessoas vieram nos dizer que esse é um filme real sobre favela”, explica Blat, que na pré posou para inúmeras fotos. “Todo mundo sempre me dizia que tinha um Macu na família. Toda casa tem um como ele, um rapaz que se perdeu”. O ator conta que até pouco tempo, a expectativa média de vida na região era de 23 anos. “É uma região que passou por uma ‘guerra civil’.”
 
Ele também se lembra de que a experiência de morar no bairro ensinou-lhe a postura e a cultura locais. “Só assim pudemos entender os valores que são importantes para eles, como a relação com a mãe e os amigos, que estão no filme. Isso a gente só aprende vivendo lá”. 

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