Em seu terceiro longa, Mauro Lima confessa que encontra uma certa graça em deixar a história real como plano de fundo para suas tramas fictícias. Se ele ensaiou algo parecido em Meu nome não é Johnny (baseado num caso real), em seu novo trabalho, Reis e Ratos, ele eleva a prática a um outro patamar, lidando com um assunto delicado: o golpe militar de 1964 no Brasil. “A história do filme se passa no backstage da história oficial”, disse em entrevista ao Cineweb.
A princípio, o diretor – que também assina o roteiro – queria investigar a Guerra Fria no Brasil, mas o filme, que começou a ser escrito em 2002, foi tomando outros contornos. “Acho que muita coisa que eu inventei pode ter acontecido mesmo, ou, pelo menos de forma bem parecida”, especula.
Lima rodou o filme colorido, mas chegou a cogitar lançá-lo inteiro em preto e branco. Exibições-teste deram conta de que algumas pessoas não conseguiam distinguir o longo flashback no meio da história, por isso, o diretor resolveu deixar essa sequência em preto e branco. “Além disso, ressalta um clima noir da trama”, acredita.
As idas e vindas do gêneros – transitando entre comédia e thriller político -, segundo o diretor, introduzem um certo cinismo no longa. “O humor veio depois, com o tempo. E é do tipo de humor que tem a ver comigo. Em Meu Nome não é Johnny já era assim”.
O filme foi feito no ritmo de produção B, em pouco mais de duas semanas, com as sobras de cenários e figurinos de O Bem-Amado, da mesma produtora Paula Lavigne. “Foi um esquema divertido e arriscado, mas acabou dando certo porque tanto o elenco quanto eu temos experiência de televisão”.
No elenco estão atores como Selton Mello (que também é produtor do filme), Otávio Muller, Cauã Raymond e um Rodrigo Santoro enfeiado. “Eu tinha uma aquarela de personagens muito grande. Todos são muito marcantes, o sujeito que fala como dublador, o radialista que fala estranho, o almofadinha... Montar o elenco não foi nada difícil. Todo mundo foi topando. As coisas aconteceram ao acaso”.
A canção de Caetano Veloso e a participação de Bebel Gilberto também vieram da mesma forma. O compositor é ex-marido da produtora do filme. Quando Lima procurava alguém para fazer uma música, surgiu a chance de trabalhar com Caetano, que apenas leu o roteiro – pois o filme ainda não estava nem sendo rodado. Já Bebel Gilberto praticamente se autoconvidou. “Ela me ligou e disse que queria fazer alguma ponta em O Bem-Amado. Mas como o filme já estava com o elenco fechado, perguntei se ela não queria participar do meu. Ela topou na hora. E criamos a cena para ela”.
