09/06/2026

Amigos recordam o talento de Walter Hugo Khouri

Várias personalidades do cinema brasileiro relembraram a importância do cineasta paulistano Walter Hugo Khouri, morto na madrugada desta sexta-feira, de infarto, aos 73 anos, em São Paulo.

Dono de um estilo peculiar, que combinava imagens de alto teor erótico com enredos complexos e acabamento técnico refinado, Khouri manteve sua independência de movimentos e escolas dominantes nos anos 60 e 70, como o Cinema Novo e a pornochanchada, o que lhe valeu polêmicas e inimizades, mas também muitos admiradores, dentro e fora do Brasil.

A atriz e diretora Norma Bengell, protagonista de três filmes do cineasta - Noite Vazia (1964), O Palácio dos Anjos (1970) e Eu (1986) - lembra que foi convidada a filmar com o consagrado diretor francês Jacques Rivette (de Quem Sabe) por causa de uma única cena, filmada num elevador, em Noite Vazia.

Para ela, Noite Vazia, que concorreu no Festival de Cannes, "é um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, uma obra de vanguarda, com aquela nostalgia dos personagens".

Norma recorda que ele foi um sucesso extraordinário na Europa, rendendo muito dinheiro e não menos polêmicas. "Na Europa, aquele filme era um escândalo. Tanto que mandaram retirar das ruas uma foto minha ao lado da Odete Lara (co-protagonista do filme), alegando que era lesbianismo", acentua.

"Perdemos um cineasta e eu perdi um grande amigo, uma pessoa adorável, super-zen, super-seguro, que nunca maltratava ninguém num set de filmagem nem levantava a voz". E anunciou, também, sua intenção de produzir um documentário sobre ele, em 2004.

Outra atriz que lamentou a morte do cineasta foi Selma Egrei, participante em quatro de seus filmes - O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), As Filhas do Fogo (1978) e Eros, o Deus do Amor (1981).

Selma recordou que foi por influência dele que ela iniciou carreira no cinema. "Na época em que eu o conheci, tinha saído da Escola de Arte Dramática e só pensava em teatro, só fazia Brecht. Mas ele tanto insistiu que eu tinha que fazer cinema que me cativou", lembra.

A atriz destaca que Khouri não trabalhava com roteiro. "Ele partia apenas de fragmentos, idéias. Funcionava movido a paixão. Ele próprio rodava a câmera e passava todas as orientações. O filme acontecia todo ali, na hora, no set", explica.

Para ela, ficou a lembrança de um diretor que lhe deu grande liberdade de trabalhar os personagens, que foi muito inovador, especialmente no começo da carreira, embora ela discorde dos rumos que tomou mais tarde, com excesso de sadismo e erotismo.

Assistente de direção em dois filmes de Khouri - A Ilha (1962) e Noite Vazia (1964) -, o cineasta Alfredo Sternheim acentua que o diretor "dominava muito bem a linguagem cinematográfica, com um grande requinte de acabamento, numa época em que se desprezava isso, por conta do surgimento do Cinema Novo".

Sternheim destaca que Khouri nunca abriu mão do cinema que queria fazer, embora observe que depois levou esse estilo a um extremo. "O trabalho dele no final ficou pessoal demais", afirma.

Sternheim lembrou ainda que Khouri não se intimidou nunca com a cobrança dos críticos, muito forte nas décadas de 60 e 70, de que se buscasse um cinema nacionalista e politizado, coisa que ele nunca aceitou. "Uma vez ele chamou o Jean-Claude Bernardet de fascista por causa dessa cobrança. Khouri dizia que nunca ia fazer um filme de favela porque nunca tinha entrado numa. Por isso, o chamavam de alienado. Até me perguntavam se eu não tinha vergonha de trabalhar com ele e fazer aquele tipo de filmes", recorda.

Ainda assim, Sternheim acredita que isso em nada diminui a importância do diretor paulistano, responsável pelo lançamento no cinema das atrizes Dina Sfat, Lilian Lemmertz (ambas em Corpo Ardente) e Elizabeth Hartmann, além do compositor Rogério Duprat, primo de Khouri, e que estreou como autor de trilhas justamente no filme A Ilha.

Amigo do diretor há quase 40 anos, o produtor Luiz Carlos Barreto destacou sua grande contribuição ao cinema brasileiro tanto do ponto de vista artístico, criativo quanto artesanal. Para Barreto, Khouri "foi uma pessoa que teve a preocupação de unir o artístico ao comercial, extremamente autoral na escolha de seus temas, com ritmo muito próprio e excepcional diretor de atores".

Na opinião do produtor, Khouri era um autor que tinha seu espaço e estilo próprios. "Era uma grife", resumiu. Barreto lamentou que os dois nunca tenham tido a oportunidade de realizar um projeto juntos, apesar de constantemente planejarem isto.

Outro que concorda que Khouri conseguia unir as vertentes artística e comercial como poucos é o atual diretor da Columbia e ex-diretor da Embrafilme, Rodrigo Saturnino Braga. Atuando na distribuidora da Embrafilme, Saturnino lançou três filmes do diretor: Eros (1981), Amor, Estranho Amor (1982) e Eu (1986). Considera que Khouri "atravessou o auge da pornochanchada mas com a sua marca. Seus filmes, a gente reconhecia de longe. Alguns até os achavam complicados mas iam vê-los".

A atriz Denise Dummont, que trabalhou com ele em Eros, O Deus do Amor comentou, por e-mail, de Nova York, onde vive: "Puxa, que perda. Eu adorava o Walter Hugo. Fiz meu segundo filme com ele e aprendi um bocado. Ele era um grande diretor. Autoral e sem compromissos com moda ou sucesso. Fiel ao seu próprio estilo e visão, como um Bergman, um Woody Allen. Maravilhoso diretor de atrizes, ele sabia como conseguir uma grande performance com a maior delicadeza. Ele entendia profundamente as mulheres. Era um príncipe. Um verdadeiro gentleman. Foi um prazer e um privilégio ter trabalhado com ele. O cinema brasileiro ficou mais pobre".

Aníbal Massaini Neto, que produziu quatro dos filmes do diretor e distribuiu vários outros, além de co-patrocinar o lendário Noite Vazia, destacou a "perda irreparável para o cinema brasileiro" com a morte de Khouri. "Era uma pessoa muito singular em tudo e de grande independência. Certamente, ele foi o cineasta brasileiro de maior coerência com o conjunto de sua obra, que permanecerá, com certeza", afirmou o produtor.

Cineweb-27/6/2003-19.09

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