Riccardo Scamarcio, o ator italiano de 34 anos, chega à coletiva de imprensa, no MIS, São Paulo, menos interessado em falar dos seus cerca de 30 filmes, entre os quais se incluem Meu irmão é filho único (07), de Daniele Lucheti, Éden a oeste (09), de Costa-Gavras, e até uma divertida ponta em Para Roma com Amor (2012), de Woody Allen.
Articulado, politizado, simpático, o ator, que adora música brasileira (Gil, Caetano, Gal, Seu Jorge e Astrud Gilberto), visita o Brasil pela primeira vez. E está mais disposto a falar de Miele, o filme dirigido por sua mulher, a também atriz Valeria Golino - que ainda não tem distribuidor no Brasil e será exibido no 9o Festival de Cinema Italiano. Tanto ele quanto Valeria estrearam novas funções aqui, ela como diretora, ele como produtor de uma história polêmica, que retrata a inusitada profissão de uma jovem, Irene (Jasmine Trinca), que usa o pseudônimo de “Mel” para atuar como uma espécie de anjo da morte, assistindo doentes terminais determinados a anteciparem sua morte.
Scamarcio conta que, desde que leram o livro A nome tuo, de Mauro Covacich, no qual se inspira livremente o roteiro de Miele, tanto ele quanto Valeria quiseram transformá-lo em filme. Apesar de serem conhecidos, não foi fácil, porque o filme “não teria apelo comercial”. “Pedimos a várias pessoas, inclusive amigas. Todos nos desaconselharam de filmar esta história. A um certo ponto, decidimos que o faríamos nós mesmos, para podermos falar deste assunto”.
O tema da eutanásia, que também percorre outro filme italiano recente, A Bela que Dorme, de Marco Bellocchio, não tem, a seu ver, o mesmo foco de Miele. “O filme de Bellocchio despertou uma discussão acirrada na Itália porque se referia a um caso real, de Eluana Englaro. Nós, no entanto, não quisemos analisar só a questão legislativa, uma tomada de posição do Estado quanto a isto. O que nos interessava era colocar em cena a compaixão, uma compreensão de que se vive uma situação difícil e que se quer acompanhar esse destino inevitável sem sofrer”.
Para Scamarcio, “a sociedade contemporânea é muito materialista, faz de tudo para não encarar a morte. Não há um diálogo espiritual. A sociedade recusa-se a falar disso”.
Falando da escolha do elenco de Miele, ele destacou que ele e Valeria conheciam muito o trabalho de Carlo Cecchi, um grande ator de teatro que fez pouco cinema na Itália e, no filme, interpreta um dos “clientes” de “Mel”, mas se torna uma espécie de antagonista, já que ela descobre que ele não tem nenhuma doença terminal. “Ele é nosso amigo e muito semelhante ao personagem, um pouco cínico”, observou. Scamarcio havia atuado antes com Jasmine Trinca, em filmes como Ligações Criminosas e Il Grande Sogno, de Michele Placido.
Necessidade de realismo
Falando das dificuldades de produzir filmes como este na Itália, o ator destacou que “o cinema artístico, de aprofundamento, é um pouco como uma anomalia. Que o primeiro filme de uma atriz conhecida como Valeria seja produzido por um ator diz muito sobre o estado de coisas que temos”.
Scamarcio viu com otimismo a vitória de um documentário, Sacro GRA, no último Festival de Veneza, entendendo que “o documentário tem um apelo mais urgente, é um instrumento para colocar em crise o cinema de ficção, a necessidade de realismo que há na sociedade. A atenção do público mundial mudou nos últimos 20 anos, com o Youtube e todas essas coisas”.
Para ele, esse foi o entendimento de Bernardo Bertolucci, o grande cineasta que presidiu o júri em Veneza. Scamarcio lembrou que o mais recente filme de Bertolucci, ainda inédito no Brasil, Eu e Você, é “quase um filme de garoto, comparado aos que ele fez antes”. O ator vê nisso uma “necessidade de renascimento” que, em última análise, deveria contaminar todo o cinema italiano. E frisou que, apesar de tudo, não é pessimista: “O cinema sobreviveu à crise midiática. A TV é que está em crise diante da internet”.
Scamarcio lembrou que, quando era garoto, assistiu na TV Uma História Real, de David Lynch, que o levou às lágrimas. Disse acreditar na importância dessa “formação da emotividade” para a própria formação do ser humano. “Por isso, o cinema é muito importante para a sociedade”.
O peso da tradição
Falando da escolha de papeis, o ator destacou que tem sorte de lhe serem oferecidos muitos que o interessam e desafiam. Na Itália, o gênero dominante é a comédia, em que ele enxerga uma padronização que o incomoda. “No cinema italiano fizemos comédias memoráveis, tivemos Ettore Scola, Mario Monicelli e tantos outros. Mas ocorreu uma padronização, não só na Itália, mas também na França, na Espanha e creio que aqui também. Não desdenho a comédia, claro, se tem uma ideia. Mas quero experimentar outras coisas, aprender outras linguagens”.
Para ele, um exemplo de comédia inteligente que fez foi O Primeiro que Disse, de Ferzan Ozpetek, em que interpreta um gay que teme assumir-se diante da família. “O filme afronta um tema polêmico de modo irônico, lança um olhar leve sobre esses homofóbicos difusos que existem especialmente no sul da Itália”.
Indagado se a tradição do grande cinema italiano dos anos 1950 a 1970 representa um peso para os realizadores de hoje, disse: “Não é um peso, é um patrimônio que deve ser revisto sempre, para vermos a liberdade e a coragem que tiveram aqueles diretores para contarem suas histórias”.
Scamarcio contou ter se formado no Centro Esperimentale di Cinematografia de Roma, que existe desde 1935, vendo todos aqueles filmes da tradição italiana. Para ele, o talento daquelas gerações “está na audácia e na liberdade daquela época, em que havia um debate constante, os diretores eram críticos”. Também lamentou ter havido na Itália uma privatização da cultura desde então, gerando esse “mainstream do espetáculo”.
Novos projetos
Embora tenha gostado da experiência de produtor até mais do que imaginava, Scamarcio não vai abandonar a atuação. Na verdade, em seu próximo projeto ele acumulará as duas funções. Trata-se da adaptação de Pericle Il Nero, história policial de Giuseppe Ferrandino, que filmará na França em 2014, em que será o protagonista. As roteiristas serão as mesmas de Miele, ou seja, Valeria Golino, Francesca Marciano e Valia Santella. “Estamos formando uma pequena empresa familiar, mas de alta qualidade”, brincou. O diretor será Stefano Mordini e não Abel Ferrara, como chegou a ser cogitado (Scamarcio filmou com Ferrara Go Go Tales).
Um outro projeto, que se encontra em estágio mais incerto, é a cinebiografia do produtor Dino di Laurentiis, baseada no livro do crítico Tullio Kezich e com direção de Marco Tullio Giordana (com quem Scamarcio fez minisséria A Melhor Juventude, em 2003).
Foto:Roberto Silva/Divulgação
