04/06/2026

Livro investiga a obra da cineasta argentina Lucrécia Martel

O cinema da argentina Lucrécia Martel é, no mínimo, intrigante. Com sua gramática da câmera próxima e das histórias com final aberto, no qual o filme acaba antes da narrativa, ela criou seu estilo e estética próprios. Em A Experiência do cinema de Lucrécia Martel, Natalia Christofoletti Barrenha investiga “os procedimentos de construção dos valores estéticos e dos respectivos processos criativos da diretora e roteirista”, conforme explica o professor da Unicamp Fernando Passos, no prefácio do livro.
 
Nascido da dissertação de mestrado de Natalia, o livro, publicado pela Alameda, parte do geral da obra de Lucrécia, analisando elementos comuns ao seus três longas – O Pântano (2001), A Menina Santa (2004) e A Mulher Sem Cabeça (2008), inédito em circuito comercial no Brasil – para depois partir para estudos de casos, trabalhando filme a filme.
 
Um dos elementos que chama a atenção nos filmes da cineasta e tema de estudo profundo da pesquisadora aqui é o som, que segundo a diretora, “suas produções, se ouvidas com atenção, podem resultar em autênticos filmes de horror”. É por esse prisma que Natália vai adentrar aos filmes da diretora, e aprofundar sua leitura, como quando fala da construção do som em A Menina Santa: “há uma extensão sonora vasta, uma massa desconforme de conversas e risadas quase onipresentes no segundo plano que, além de nos dar acesso a uma especialidade ampla e a um mundo além das ações em foco, nos avisa da promiscuidade e movimentação que regem o hotel”.
 
Qualquer obra de arte não apenas é fruto do seu tempo, como também um reflexo e uma reflexão deste. O cinema de Lucrécia está na primeira década do século XXI, numa Argentina mergulhada em crise, numa classe média agonizante sem saber pra onde ir. São exatamente essas pessoas fechadas em sua decadência que povoam seus filmes. Em sua análise, Natalia também investiga essas personagens que, não por acaso, às vezes, lembram zumbis – especialmente os protagonistas de O Pântano, sobre esse filme, a autora escreve: “Momi é a única personagem que tenta modificar alguma coisa em O pântano, enquanto a inércia domina as outras pessoas”.
 
Com uma linguagem acessível, clareza e profundidade em sua pesquisa, a autora traz uma valiosa contribuição para os estudos do cinema latino americano por um viés inédito Brasil: Lucrécia Martel.

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