Independente a qualquer sucesso interno que o cinema brasileiro pode fazer, sua projeção no exterior fica comprometida por uma inabilidade da classe cinematográfica em pensar sobre diversidade cultural. Embora seja um tema difícil de ser abordado, por suas implicações no mercado internacional, os participantes do V Congresso Brasileiro de Cinema dissecaram os pontos cruciais do assunto. No entanto, as conclusões não foram nada otimista no seminário realizado segunda feira, em Fortaleza-CE. "A discussão de diversidade cultural ainda é muito incipiente no Brasil. Não há pesquisas e o país não conta com profissionais capacitados para desenvolver políticas internacionais do audiovisual", criticou Débora Peters, da Comissão Internacional do V CBC. Apesar de ser a mais reservada durante as exposições da mesa debatedora do Seminário Diversidade Cultural e Inserção Internacional do Cinema Brasileiro, ela conseguiu resumir as principais críticas colocadas pelos participantes. "A única organização que discute isso é o CBC, que começou no ano passado". Um atraso, na visão de Débora, lamentável. O fato toma proporções ainda maiores se colocados frente à realidade brasileira nos acordos econômicos mundiais. Explica-se: como o item audiovisual compõe uma das áreas de exportação, a preocupação baseia-se no fato de as produções serem, neste contexto, mais um compromisso internacional de comércio, ao lado de agricultura, finanças, transporte e comunicação. O embaixador Edgard Telles Ribeiro, representante do Ministério das Relações Exteriores no evento, foi mais além. Ao fazer também duras críticas à despreocupação brasileira com o tema, ele acrescentou ainda que os poucos que discutem, erram. "Existe uma distorção conceitual do assunto. Quando se defende a diversidade cultural nacional, não se fala em parcerias em co-produção com outros países ou mesmo uma abertura do mercado brasileiro a filmes de países até hoje negligenciados. Fala-se única e exclusivamente na inserção exterior do produto nacional", explicou Ribeiro. O assunto já rendeu protestos por todo o mundo, exceto no Brasil. Em 1998, artistas franceses, com cineastas e atores à frente, se mobilizaram com intelectuais e ambientalistas europeus e de outros países contra o que consideravam "um dos expedientes mais sinistros da globalização", o Acordo Multilateral sobre Investimento (MAI). O movimento em prol do que se chamou "Exceção Cultural" visava impedir que os países ficassem impossibilitados de políticas culturais próprias por meio de subsídios. A teoria tinha como base a hegemonia dos Estados Unidos na área, impondo cada vez mais o poder massacrante de sua indústria de entretenimento. "O perigo para uma cultura, caso ela seja produto comerciável, é gigantesco", afirmou o embaixador. Cineweb-2/12/2003
Incompreensão à diversidade cultural empobrece cinema brasileiro
- Por Rodrigo Zavala
- Publicado em 03/12/2003 às 18:35
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