O diretor Mel Gibson escolheu uma data bem peculiar para a estréia mundial de seu A Paixão de Cristo: a quarta-feira de cinzas. O filme pretende contar as últimas 12 horas na vida de Jesus Cristo, vivido por Jim Caviezel. Estreando com mais de quatro mil cópias, e em muitas salas à meia-noite, o longa tem a bilheteria estimada entre 15 e 20 milhões de dólares, colocando-o lado a lado com blockbusters, como Independence Day e O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel. Nada mau para um filme considerado independente, pois não foi pago por nenhum grande estúdio, mas pelo próprio Gibson que bancou praticamente todos os 25 milhões com a sua produtora Icon. De acordo com a distribuidora, Newmarket, espera-se que até o final da semana atinja os 60 milhões de dólares. A Paixão de Cristo, que tem estréia prevista no Brasil para 26 de março, cresceu - e se vendeu - em torno da polêmica. Quando Gibson anunciou seu projeto, a idéia inicial era fazer um filme fiel à época, portanto os diálogos seriam em hebraico, aramaico e latim. Além disso, não haveria legendas. A idéia do diretor era deixar que a linguagem corporal dos atores falassem por si. O que era uma idéia apenas excêntrica de um diretor que poderia se bancar, acabou tomando dimensões maiores. Quando o filme ficou pronto em 2003, surgiu a hipótese dele ressucitar a tese do deicídio. Essa idéia, banida pelo Vaticano em 1965, apontava os judeus como culpados pelo assassinato de Cristo. O fato de Gibson pertencer a uma facção ultraconservadora da Igreja Católica, e se negar a mostrar o filme para intelectuais judeus, só corroborou com a tese do anti-semitismo. Diversos setores da Igreja assistiram ao filme, inclusive o Papa, que, no entanto, não fez nenhum comentário sobre o assunto. Após muita pressão, o diretor acabou cedendo e mostrando o seu longa a alguns líderes judaicos, todos pré-selecionados por ele, evitando assim que os intelectuais judeus mais respeitados tivessem acesso. Com o tempo, as sessões passaram a ser mais abertas. Abraham Foxman, presidente da organização judaica Liga Anti-Difamação, assistiu ao filme. No site oficial da liga, Foxman declara que o filme "repete todos os estereótipos e imagens que cercaram a morte de Jesus há 2000 anos". O presidente ainda acusa Gibson de ter se negado a ouvir os pedidos de judeus e cristãos para mudar o filme. Ele cita também que Cecil B. DeMille acrecentou um letreiro ao final de O Rei dos Reis, de 1928, explicando que os judeus não deveriam ser culpados pela morte de Cristo. Além disso, Foxman lembra que diversos setores e líderes das igrejas católica, evangélica e protestante norte-americanas estão do lado dos judeus. Ele termina sua declaração dizendo estar preocupado com como A Paixão de Cristo será recebido na América do Sul, Europa e Oriente Médio, onde não haverá tal discussão sobre o filme.Embora muitos esperassem que Gibson fosse crucificado pela crítica cinematográfica norte-americana,a verdade foi que os jornalistas ficaram divididos. Diversos críticos disseram que, 'deixando de lado a controvérsia anti-semita da obra, A Paixão de Cristo é o trabalho de um cineasta talentoso', atesta Paul Clinton, da CNN. Já Jami Bernardi, do New York Daily News, alegou que este é o filme mais anti-semita desde as produções de propaganda nazista. No que todos são unânimes é o fato do filme ser extremamente violento, o que acabou classificando-o como inadequado para menores de 17 anos sem a companhia dos pais.
Com muita polêmica e marketing, filme de Mel Gibson estréia e fatura alto
- Por Alysson Oliveira
- Publicado em 26/02/2004 às 15:29
- Tempo de leitura 3 minutos
