04/06/2026

Em “Alemão 2”, José Eduardo Belmonte expande situações e personagens do filme de 2014

 
     José Eduardo Belmonte (de branco) dirige Leandra Leal e Gabriel Leone, em Alemão 2

Em Alemão 2, o cineasta José Eduardo Belmonte retoma seu maior sucesso, mas também começa do zero. Ele conta que a ideia para os dois filmes partiu do produtor Rodrigo Teixeira, com quem já havia trabalhado em O Gorila, e que o convidou para dirigir o policial, lançado em 2014. Segundo o diretor, era um filme rápido e barato, mas que permitiu também uma sequência mais elaborada, cuja ideia surgiu no último dia de filmagem do primeiro longa.
 
“Interessou-me a possibilidade de aprofundamento do tema, com maior tempo de maturação. À época da produção do primeiro Alemão, o debate sobre a eficácia das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) ainda estava sendo travado, com as primeiras vozes dissonantes ao que consideravam o modelo recém-implantado como uma panaceia para o problema crônico da violência no Rio de Janeiro. Tentei trazer esse tema, de forma mais articulada e aprofundada, sem perder as características do gênero cinematográfico ao qual Alemão 2 consegue se filiar mais do que o primeiro: é um filme policial, é um filme de ação”, conta.
 
O segundo longa, que chega aos cinemas nessa quinta (31/3), traz novos personagens, e como elo com seu antecessor, a personagem Mariana (Mariana Nunes) no mesmo cenário da comunidade do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. O ponto de partida da trama é um trio de policiais civis, Machado (Vladimir Brichta) e seus comandados, Ciro (Gabriel Leone) e Freitas (Leandra Leal), executando uma missão secreta: prender um líder do tráfico local, Soldado (Digão Ribeiro). Era para tudo acontecer rápido e sem tiros, mas a situação sai do controle.
 
O processo do roteiro levou cerca de 7 anos e o texto passou pelas mãos de diversos profissionais. A versão final é assinada por Marton Olympio e Thiago Brito. “O roteiro foi feito de diversas formas, retomando personagens do filme original, mas, chegou uma hora que vimos que devíamos começar do zero. E a realidade da questão das UPPs e da corrupção no Rio de Janeiro muda muito rápido, a história que criávamos envelhecia rapidamente. Trouxemos pessoas que conheciam bem o tema, como o Marton.”
 
Um dos elementos mais fortes em Alemão 2 é a presença das personagens femininas. Da delegada que comanda a ação, Amanda (Aline Borges), à policial civil e as moradoras da comunidade – tanto Mariana, quanto a personagem de uma enfermeira interpretada por Zezé Motta. O ator Digão Ribeiro, que cresceu numa comunidade, ressalta a importância disso para o filme e a sociedade. “O filme dá visibilidade a questões que sempre ficam marginalizadas, dá voz a quem precisa de segurança. Coloca em protagonismo as mulheres pretas, que são a força da comunidade”, explica o intérprete de “Soldado”.
 
Belmonte aponta esses elementos como resultado da polifonia do filme, que tem por objetivo não dar voz apenas aos policiais, mas mostrar moradores e moradoras vítimas da disputas do tráfico e da corrupção policial e política. “Esse é o objetivo político do filme, e creio que houve uma evolução do primeiro para essa continuação. Os dois filmes também me fizeram tentar compreender questões do país que, no Rio de Janeiro, são bastante emblemáticas: o abismo social, a violência entranhada no cotidiano, a nossa eterna crise de futuro.”
 
O diretor explica também que, um dos pontos centrais, para ele, ao fazer Alemão 2 era contextualizar o que se via na tela. “Foi um desafio e tanto fazer, em um estado cada vez mais militarizado, um filme em que policiais atiram em uma comunidade. Minha preocupação como diretor em um filme de gênero foi ser diligente no que se conclui do que se mostra. Fui guiado por uma frase que o personagem do Antônio Fagundes dizia em Alemão: ‘Não tem heroísmo na polícia’”.
 
O filme estreia em cerca de 300 salas, e o produtor, Rodrigo Teixeira, embora animado, confessa ter consciência de que a continuação não deva fazer um público tão grande quanto o do primeiro filme, que chegou próximo à casa de um milhão de ingressos vendidos. “Os tempos são outros. As pessoas ainda têm receio de ir ao cinema, e também há uma crise econômica. Se fosse num outro momento, tenho certeza de que faria mais bilheteria. Mas, ainda assim, precisamos que as pessoas voltem ao cinema para ver os filmes que fazemos.”
 

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