
Cena de Segredos do Putumayo, documentário sobre o irlandês Roger Casement na Amazônia (Créditos: Divulgação)
Pouco conhecido no Brasil, na Irlanda, Roger Casement é uma figura, no mínimo ambígua. Cônsul do Império Britânico em diversos países, entre eles o Congo, no começo do século XX, depois de passar por Santos e Rio de Janeiro, ele se estabeleceu na região do Putumayo, na Amazônia profunda, onde era explorada a borracha. Em seus diários, ele denunciou os maus-tratos contra os povos indígenas na região.
O documentário Segredos do Putumayo, que chega hoje aos cinemas, parte da obra e da pesquisa do historiador Angus Mitchell, e joga luz sobre esse homem que executado em 1916, condenado pela coroa britânica por alta traição, ao se envolver com os movimentos revolucionários de seu país.
A direção do longa é do cineasta manauara Aurélio Michiles, que conheceu Casement por meio dos livros de Mitchell, quando no final dos anos de 1990, fazia um documentário a saga da borracha na Amazônia. “Fiz muita pesquisa sobre o assunto, e li mais de 100 livros. Vários deles falavam de Casement de sua denúncia contra os maus-tratos contra os indígenas e sua importância nos direitos humano”, explica o cineasta em entrevista.
Poucos anos depois, quando fez o documentário O cineasta das selvas, sobre Silvino dos Santos, um fotógrafo contratado pelos empresários exploradores da borracha na região, para refutar as denúncias de Casement, novamente, Michiles se viu diante da figura do irlandês. “Naquela época, o Angus [Mitchell], que morava no Brasil, viu o filme, e entrou em contato comigo. Ele já tinha uma vasta pesquisa, e editou os diários do Casement.”
Segredos do Putumayo combina imagens de arquivo, entrevistas – especialmente com Mitchell – e uma narração a partir dos diários de Casement, feita pelo ator irlandês Stephen Rea. O historiador conta que o cônsul é uma figura controversa em seu país, pois participou do movimento republicano na Irlanda, foi preso por alta traição, e durante seu julgamento apareceram aqueles que ficaram conhecidos como “Black Diaries” – diários possivelmente forjados pelo governo britânico, nos quais Casement descrevia relações sexuais com índios, em especial meninos. O escândalo foi fundamental na condenação do irlandês, que foi enforcado em Londres.
“Até hoje ele é uma figura complexa na história da Irlanda. Ele foi um revolucionário, mas essa narrativa da pedofilia, em especial, suja a imagem dele ainda, mesmo se sabendo da grande probabilidade dos diários não terem ser escrito por ele. Além disso, mesmo sendo um revolucionário, ele pertenceu ao governo do Império britânico, mas ele tinha uma narrativa anti-imperialista. Enfim, ele é uma figura muito complexa e, ainda muito obscura”, explica Mitchell.
Para Michiles, a estadia de Casement na Amazônia foi fundamental para que o irladês compreendesse a si mesmo como um revolucionário. Filho de um inglês e uma católica irlandesa, ele foi batizado em segredo. O cineasta explica que não queria abordar Casement como um todo, e, questões como sua controversa sexualidade, ficaram de fora de seu documentário, que se baseia naqueles que ficaram conhecidos como “White Diaries”, realmente escritos por Casement enquanto estava na Amazônia.
“É complicado fazer um documentário sobre a vida alheia. Eu estava mais interessado na figura de Casement como um defensor dos direitos indígenas e também no republicano. Eu visiteis eu túmulo na Irlanda, e é muito modesto. É preciso dar mais espaço a esse personagem importante na transformação da Irlanda, e também defensor dos indígenas”, explica o documentarista.
O longa fez sua estreia nacional no É Tudo Verdade de 2020, e desde então foi exibido em alguns festivais, e teve três exibições especiais na Irlanda, onde, segundo, Rea foi muito bem recebido. “As sessões foram emocionantes, as pessoas gostaram muito, mas eu gostaria de que o filme fosse também para as salas de cinema de todo o país. Ainda não foi mostrado em cidades como Belfast e Dublin. Hoje (01/09), é o aniversário do Casement, perdemos a chance de lançar o filme na Irlanda nesse dia, mas quem sabe no ano que vem”, diz o ator.
Rea define o documentáriocomo uma grande obra de arte cinematográfica, mas também político e filosófico. “É um tributo a como ele era um homem à frente do seu tempo lutando pelos direitos humanos, quando isso quase não era falado. Ele uniu dois mundos, o dos indígenas e o dos não-indígenas. E o filme também faz isso muito bem. Apesar da polêmica sobre a sexualidade dele, isso pouco me importa. O que sempre me interessou em Casement foi seu lado político, seu engajamento.”
Michiles ressalta, por sua vez, a importância do documentário nesse momento, pois mesmo ao falar do passado, explica, reflete sobre o presente. “A tragédia do assassinado de indígenas está implícita no filme. Mostramos como, o longo dos anos, o número deles foi diminuindo até chegar no que acontece hoje. É uma violência que começou no passado, e continua. Só isso já daria um outro documentário”.
