
Grace Passô em cena no seu curta Repúbliva (Crédito: Divulgação)
A partir desta sexta-feira (02), a plataforma gratuita Itaú Cultural Play aumenta seu catálogo com a inclusão de produções inéditas no streaming. Uma delas é o conjunto de seis curtas-metragens exclusivos, exibidos no forumdoc.bh entre os anos de 2018 e 2020, selecionados pelo festival, sob a curadoria dos diretores de cinema André Novais Oliveira e Daniel Ribeiro Duarte.
Com o tema No Futuro Há Espaço para Coisas que a Gente Nem Imaginou, esta nova mostra da plataforma foi criada a partir obras que reivindicam o desejo de um novo futuro para a sociedade. A proposta dos filmes, todos dirigidos por diretores negros, é imaginar, investigar e inventar novos gestos para aquilo que está por vir não seja o passado ou o presente repetidos indefinidamente.
A outra novidade fica por conta de Depois da Primavera. Assinado pelos diretores Isabel Joffily e Pedro Rossi, o filme mostra a agonia de dois irmãos sírios fogem da guerra civil que se agrava em seu país. Chegando no Rio de janeiro, eles passam por uma difícil adaptação cultural e convivem com um dos maiores conflitos políticos da história do Brasil.
Representatividade
Considerado um dos mais importantes festivais de cinema de Minas Gerais, o forumdoc.br traz em sua programação obras de ficção que dialogam com as práticas do documentário, reforçando sempre a diversidade, pautas atuais e dando espaço para as novas vozes do audiovisual brasileiro.
Neste recorte do festival, intitulado No Futuro há Espaço para Coisas que a Gente nem Imaginou, André Novais Oliveira e Daniel Ribeiro Duarte deram luz às representatividade e selecionaram apenas filmes dirigidos por realizadores negros e realizadoras negras.
Os curadores destacam que entendem que a temática histórica não deixou de estar presente, mas que houve um deslocamento da forma como é mostrada. Para eles, ao invés de o corpo negro aparecer repetindo o seu próprio sofrimento, ele passou também a encenar e reivindicar um novo futuro através de narrativas diversificadas, inesperadas e com liberdade de fabulação.
O primeiro filme da lista, Entre Nós e o Mundo é um documentário de São Paulo dirigido pelo diretor Fábio Rodrigo. O curta, lançado na Mostra de Cinema de Tiradentes, traz um retrato sensível e profundamente pessoal do drama enfrentado por famílias negras, vítimas da violência do Estado. Na história, diferentes personagens narram o trágico assassinato de um adolescente após uma abordagem policial.
Na produção carioca Fartura, a diretora Yasmin Thayná utiliza de seu acervo pessoal com fotos, filmagens e depoimentos de seus familiares, para construir uma narrativa sobre memória, culinária, coletividade e negritude. O filme faz uma reflexão sobre as diferentes formas de imaginar o tempo, levando em conta o modo de vida comunitária e os hábitos que a comida estabelece entre famílias negras da periferia carioca. Mais do que um espaço ou gesto trivial, a cozinha e o cozinhar são atos religiosos e de luta.
Com direção da cineasta baiana Everlane Moraes, Pattaki é um drama que foi indicado ao prêmio de Melhor Curta no Festival de Sundance, nos Estados Unidos. Realizado na Escuela Internacional de Cine y TV, em Cuba, a diretora criou sua obra a partir de sons desconcertantes e ângulos de câmera inusitados para criar um ambiente fantástico iniciados a partir da agonia de peixes à beira-mar.
Considerada uma das principais diretoras do cinema independente, Grace Passô é a realizadora de República. Produzido em São Paulo, o drama mergulha sobre os tempos de pandemia no Brasil logo no seu início. Nele, uma mulher acorda com uma ligação em seu celular, com uma notícia impactante, grita, se desespera e liga para sua mãe. A mensagem, ao fim, é inusitada: autoridades científicas afirmam que o Brasil é um sonho.
Também rodado em São Paulo, o filme Quantos Eram para tá? mistura documentário e ficção para acompanhar o cotidiano de três jovens que integram a primeira geração de estudantes aprovados na Universidade de São Paulo pelo sistema de cotas. Vencedor do festival 15º Panorama Internacional Coisa de Cinema na Bahia, a produção do diretor Vinícius Silva levanta dramas, questões familiares e opiniões críticas sobre o mundo e a condição do negro no país surgem do encontro entre eles.
Por fim, em Noir Blue – Deslocamentos de uma Dança, a diretora Ana Pi assina um filme-performance que une documentário e ficção para mostrar diferentes paisagens e cenários, entrelaçando suas memórias e reflexões.
A diretora mineira, que também é bailarina e coreógrafa, viajou à África Subsaariana e, a partir de um encontro com suas raízes, compôs um interessante experimento cênico rico de sentidos simbólicos. Nele, o tradicional se mistura ao contemporâneo e evoca temas como ancestralidade, pertencimento e negritude.
Da guerra ao caos político
Outra produção que passa a incrementar a Coleção Itaú Cultural da plataforma, Depois da Primavera é um sensível documentário de Isabel Joffily e Pedro Rossi que acompanha a realidade da família Bakkour, que tem os jovens Adel e Hadi morando no Rio de Janeiro enquanto refugiados sírios.
Exibido no festival de Toulouse, na França, o filme mergulha no cotidiano desses dois jovens refugiados, que deixam para trás sua família para sair da guerra civil que destrói seu país. O conturbado período brasileiro no qual a história se desenrola e o contexto externo de guerra no país árabe são captados a partir de um olhar com paralelos entre as duas realidades, aparentemente distintas, mas que guardam pontos em comum.
O longa, por sua vez, vai além da proposta de mostrar o processo de adaptação a uma cultura radicalmente diferente e a agonia com o risco de vida de sua família na Síria. Conta também como estes jovens vão se envolver com a turbulência política brasileira dos últimos anos.
SERVIÇO:
Itaú Cultural Play
02 de setembro 2022 (sexta-feira)
MOSTRA FORUMDOC.BH
No Futuro há Espaço para Coisas que a Gente nem Imaginou
Entre nós e o mundo (2019)
De Fábio Rodrigo.
Duração: 17 minutos
Classificação indicativa: 10 anos (drogas lícitas)
Fartura (2020)
De Yasmin Thayná
Duração: 17 minutos
Classificação indicativa: Livre
Pattaki (2019)
De Everlane Moraes
Duração: 21 minutos
Classificação indicativa: 10 anos (medo e tensão)
República (2020)
De Grace Passô
Duração: 16 minutos
Classificação indicativa: 10 anos (drogas lícitas e linguagem imprópria)
Quantos eram pra tá? (2018)
De Vinicius Silva
Duração: 30 minutos
Classificação indicativa: 12 anos (descrição de violência)
Noir Blue – Deslocamentos de uma dança (2018)
De Ana Pi
Duração: 27 minutos
Classificação indicativa: Livre
COLEÇÃO ITAÚ CULTURAL
Depois da primavera (2021)
De Isabel Joffily e Pedro Rossi
Duração: 85 minutos
Classificação indicativa: 14 anos (drogas ilícitas, violência e linguagem imprópria)
