
Bruno Goularte Barreto e produtora Jessica Luz (Crédito Edison Vara-Agência Pressphoto/Divulgação)
O pessoal se torna político e coletivo no premiado documentário 5 Casas, do gaúcho Bruno Gularte Barreto, que chega aos cinemas na próxima quinta (08). Premiado no Festival de Gramado e no Cine Ceará, o filme parte das memórias e vivencias do diretor, que também é artista visual, para resgatar sua história e também de uma pequena cidade no extremo sul do Rio Grande do Sul.
Quando Gularte Barreto voltou à cidade, depois de adulto, a ideia era apenas registrar alguns lugares, lembranças e conversas com pessoas de quem foi próximo, e guardar para si. “Eu fui para ver umas caixas com coisas de nossa família que estavam guardadas num galpão na casa do meu avô, e comecei a filmar isso, sem muito propósito”, conta o cineasta em entrevista ao Cineweb.
Foi a partir das conversas de pessoas do seu passado, que o documentarista percebeu que havia ali um filme. A primeira delas é Dona Maria, sua professora de francês e também protetora contra os garotos que faziam bullying com ele. “Eu estava editando a conversa quando meu namorado na época e um amigo viram, e se interessaram. Ali tinha mais do que umas gravações para recordação pessoal”.
Por meio de visitas a cinco casas diferentes, a começar com a da sua infância, Gularte Barreto reconstrói sua jornada e de sua família – cujos pais morreram quando ele ainda era criança, e ele tem dois irmãos. Ao resgatar não apenas sua trajetória, mas também as das pessoas que marcaram sua infância, o documentarista constrói uma espécie de narrativa coletiva de uma pequena cidade marcada pelo conservadorismo.
“As histórias que as pessoas me contavam eram bem pesadas. E me percebi numa posição de privilégio, de ter uma voz enquanto artista, e, com isso, levar essas histórias para mais lugares”, explica o cineasta que é graduado em cinema, e tem mestrado em poéticas visuais.
Se a ideia inicial era fazer cinco curtas, em cada uma das casas, com a evolução do projeto, o filme se tornou num longa extremamente pessoal que parte de uma linguagem poética, marcada pelo fio da memória. Além do documentário, o projeto também rendeu um livro e uma exposição. “É o trabalho de um artista. Não tem como o documentário ser algo imparcial, jornalístico. Há coisas que não podem ser mostradas de forma realista.”

Resgatar sua história por meio da arte, é para Gularte Barreto a sua maneira de lidar com as feridas do passado, em especial, a perda da mãe e do pai, quando ele ainda era pequeno. “Trabalhar foi a maneira que encontrei de lidar com as experiências do passado.” O diretor saiu de Dom Pedrito pela primeira vez no começo da adolescência, para fazer o 2o Grau em Porto Alegre, mas voltou para sua cidade 8 meses depois, quando o pai adoeceu. “Tive de estudar em Bagé, que é a cidade vizinha. E meu pai ia me buscar todos os finais de semana. Foi um convívio que passei a ter com ele.”
Em 5 Casas estão além da professora Maria, um homem que vive há 40 anos numa fazenda isolada e supostamente mal-assombrada, um rapaz homossexual que sofre bullying na cidade, e um grupo de freiras, que dirige uma escola – em especial, uma delas que será transferida para outra cidade, mobilizando os moradores e moradoras por sua permanência. São pessoas, como aponta o documentarista, precisam ser ouvidas. “As memo?rias deles são parte da minha historia, e registrar as nossas conversas e? uma forma de lhes dar voz. Na?o e? apenas uma forma de contar a minha histo?ria, mas sim de contar a nossa histo?ria por meio da voz deles.”
5 Casas teve sua première mundial no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA), um dos mais importantes no gênero, e passou por vários festivais outros, como o Biografilm (Itália), o Queer Lisboa (Portugal), o Cinélatino (França) e o Festival de Viña del Mar (Chile), onde recebeu o prêmio de melhor longa documental. No Brasil, o longa estreou no Cine Ceará de 2021, e levou o grande prêmio de melhor filme, além de roteiro e som. Na Mostra Gaúcha do Festival de Gramado deste ano, o documentário recebeu o principal prêmio, além de direção, prêmio do júri popular e montagem.
O diretor confessa que não esperava uma acolhida tão positiva e, completa, carinhosa de seu filme pelo mundo. “É uma história muito pessoal para mim, não sabia como ia se comunicar com as outras pessoas, e as reações são muito viscerais, o público fica muito tocado.” Para construir essa narrativa, ao mesmo tempo pessoal e coletiva, o documentarista trabalhou com o montador Vicente Moreno, que também assina o roteiro. “Precisava de um olhar de fora, para trazer frescor ao filme, alguém quem não estivesse emocionalmente apegado ao material, à história. Foi fundamental a parceria com ele. Ele não foi apenas um amigo, foi também um terapeuta”.
Ao longo dos 4 anos de montagem do documentário, o diretor confessa teve de descobrir um método de trabalho diferente daquele que usou em suas ficções, nas quais sempre foi muito preciso – ele tem alguns curtas, como Linda, uma história horrível e Enciclopédia. “No documentário foi diferente. O processo é o trabalho, o filme vai sendo descoberto à medida em que ele vai acontecendo. Montar é tornar a história compreensível.”
