
Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, disponível para streaming gratuito no Itaú Cultural Play
Realizados nos últimos anos por jovens diretores das regiões Norte, Sul e Sudeste, a seleção da mostra Janelas Extraordinárias, disponível no serviço de streaming Itaú Cultural Play, a partir de amanhã (09), aponta um dos caminhos que o audiovisual brasileiro tem trilhado para romper as fronteiras entre as histórias realistas e fantasiosas.
No filme de terror Chacal (2020), a diretora paraense Marja Calafange trata o processo de envelhecimentos de seus personagens de forma poética e original, em um roteiro sem diálogos. Nele, uma senhora idosa, sufocada por uma inexplicável pulsão de morte, abandona seus bens, sua casa e sua família. Ela decide viver na floresta, até se integrar completamente à natureza.
Coprodução de Brasil e Portugal, Chuva é cantoria na aldeia dos mortos (2018) resulta de uma relação dos cineastas João Salaviza e Renée Nader Messora com o povo Krahô, que vive em uma aldeia indígena de Pedra Branca, no estado do Tocantins. Premiado na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes, o longa-metragem faz uma experimentação híbrida entre o documental e o ficcional.
O filme mostra a história de um jovem Krahô que é convocado pelo seu pai a se tornar um xamã. Após negar o pedido, ele foge para a cidade grande, mas, distante da sua cultura e da sua ancestralidade, sentirá as consequências da sua decisão.
Em Egum (2020), o diretor Yuri Costa trata da violência e do genocídio da população negra. Ao mesmo tempo, resgata a ancestralidade e a cultura de origem africana. A obra, composta por uma equipe formada majoritamente por negros, é inspirada na história do psicanalista e filósofo político Frantz Fanon, natural das Antilhas da colônia francesa da Martinica e cujas obras tornaram-se influentes no campo dos estudos pós-coloniais e da teoria crítica.
O filme acompanha os desafios de um renomado jornalista, perturbado pela morte de forma violenta do irmão. Ele volta para casa para ajudar a cuidar da mãe, que tem uma doença desconhecida. Uma série de acontecimentos e encontros estranhos envolvendo seu pai o levam a suspeitar e temer que uma tragédia se abata novamente sobre a sua família.
Com direção de Beatriz Seigner, Los Silêncios (2019) mostra a ressignificação das fronteiras da Amazônia e aborda temas ligados aos refugiados, luto e alteridade. Após fugirem de um conflito armado, um pai e seus dois filham chegam a uma ilha na fronteira entre o Brasil, Peru e Colômbia. Enquanto tentam uma nova vida, a família descobre que a ilha é conhecida por ser povoada por fantasmas.
Contemplado pelo Rumos Itaú Cultural, Mãtãnãg, A Encantada (2019),de Shawara Maxakali e Charles Bicalho, é uma história de amor com toques de espiritualidade que faz o espectador conhecer a cultura do povo da Aldeia Verde, no município de Ladainha, em Minas Gerais, que dá nome ao filme.
O longa-metragem de animação conta a mitologia Maxakali ,segundo a qual Mãtãnãg seguiu o espírito do marido, fulminado por uma picada de cobra, até a aldeia dos mortos. Apesar de ultrapassarem juntos os obstáculos entre esses dois mundos, a alma de Mãtãnãg precisa voltar para o plano terreno. Essa não será a última vez em que vivos e mortos se reencontram.
Com direção de Marina Meliande, Mormaço (2019) mescla realismo e fantasia para abordar a especulação imobiliária brasileira, durante a preparação do maior evento esportivo do mundo no Rio Janeiro. O filme mostra a história de uma defensora pública, que trabalha na defesa de uma comunidade carioca, às vésperas das Olimpíadas de 2016, no Rio. Ameaçada de ser expulsa de seu posto, para que não impeça a realização das obras no Parque Olímpico, ela começa a apresentar sintomas de uma doença misteriosa, enquanto o mormaço toma conta da cidade
Esta seleção de filmes é completada com o curta Sem Asas (2018), de Renata Martins. A produção mostra os perigos que a população negra da periferia enfrenta em seu cotidiano. Ele retrata os desafios constantes para serem ultrapassados nas famílias, a transição da infância para uma maturidade forçada, o racismo e a truculência policial.
A narrativa inicia com um jovem estudando para uma prova, enquanto o seu pai começa a trabalhar em um novo emprego e a mãe faz coxinhas para vender fora. Um dia, ela pede para o filho ir comprar farinha de trigo, mas o simples ato de sair para buscar o ingrediente no mercado ocasiona um grande conflito impactando a realidade de todos.
Já a mostra Filmoteca Indígena reúne dois filmes que mostram a cultura, os costumes e os desafios de dois povos originários. Dirigido por Patrícia Ferreira Mbya e Ariel Duarte Ortega, Bicicletas de Nhanderú (2011) traz o cotidiano e a espiritualidade do povo da aldeia Koenju, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. Realizado pelo Coletivo Mbyá-Guarani de Cinema e produzido pelo Vídeo nas Aldeias, o documentário coloca em debate, a partir de dois meninos, os efeitos do contato com a cultura dos não indígenas.
O filme mostra que, de acordo com a crença dos Mbya-Guarani, que a queda de um raio significa que Tupã enviou uma mensagem de Nhanderú, descontente com as atitudes dos habitantes da aldeia. Todos precisam rever seus conceitos.
N?h? Yãgmu Yõg Hãm – Essa terra é nossa! (2020) reuniu quatro diretores: Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero. Eles mostram nesse filme a ação devastadora do homem branco sobre os indígenas, desde a chegada dos portugueses até os dias de hoje. Tikmu?’u?n narram a história da colonização e da violência dos não indígenas contra eles e a floresta, segundo a sua visão. A morte dos rios e das matas, a invasão de terras e o extermínio de aldeias inteiras são descritos a partir de uma indignada e iluminadora perspectiva.
SERVIÇO:
Itaú Cultural Play
MOSTRAS
9 de setembro (sexta-feira) – programação fixa no catálogo
JANELAS EXTRAORDINÁRIAS:
Chacal (2020, Paraná)
De Marja Calafange
Duração: 15 minutos
Classificação indicativa: 14 anos (nudez e medo)
Chuva é cantoria na aldeia dos mortos (2018, Tocantins)
De João Salaviza e Renée Nader Messora
Duração 114 minutos
Classificação indicativa: Livre
Egum (2020, Rio de Janeiro)
De Yuri Costa
Duração: 23 minutos
Classificação indicativa: 12 anos (drogas lícitas, medo e linguagem imprópria
Los silencios (2019, São Paulo)
De Beatriz Seigner
Duração: 89 minutos
Classificação indicativa: 12 anos (violência e temas sensíveis)
Mãtãnãg, A Encantada (2019, Minas Gerais)
De Shawara Maxakali e Charles Bicalho
Duração: 14 minutos
Classificação indicativa: 10 anos (Drogas lícitas, violência e nudez)
Mormaço (2019, Rio de Janeiro)
De Marina Meliande
Duração: 97 minutos
Classificação indicativa: 14 anos (violência, conteúdo sexual e drogas lícitas)
Sem Asas (2018, São Paulo)
De Renata Martins
Duração: 20 minutos
Classificação indicativa 12 anos (Medo e violência)
FILMOTECA INDÍGENA
Bicicletas de Nhanderú (2011)
De Patrícia Ferreira Mbya e Ariel Duarte Ortega
Elenco: PPovo Mbya-Guarani
Duração: 45 minutos
N?h? Yãgmu Yõg Hãm - Essa terra é nossa! (2020)
De Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 10 anos (angústia e violência)
