
Documentário Fé e Fúria aborda intolerância religiosa, e chega aos cinemas nessa quinta (13)
Talvez poucos filmes sejam tão fundamentais para compreender o Brasil deste momento – entre os dois turnos da eleição presidencial – quanto o documentário Fé e Fúria, do mineiro Marcos Pimentel. Partindo de episódios de violência promovidos por evangélicos contra praticantes de religiões de matrizes africanas, o longa investiga a intolerância religiosa no país, fazendo ao fim um diagnóstico sobre o estado das coisas por aqui.
Pimentel, que vem de uma tradição de documentários pautados pela experimentação de linguagem, explica que, nesse caso, foi necessário abrir mão dos dispositivos que usava, pois era um filme de urgência e “precisava dar voz a quem é silenciado. “Meus filmes anteriores eram marcados pela construção imagética, a observação, mas aqui precisava fazer algo diferente disso. Inicialmente, a ideia era seguir o mesmo caminho, mas na etapa da pesquisa ficou claro que isso não seria possível, pois era necessário deixar que as pessoas gritassem ao mundo a violência que sofrem”, diz em entrevista ao Cineweb.
O cineasta, que tem no currículo filmes como Os ossos da saudade, conta que sempre morou perto de comunidades em Belo Horizonte e as frequentava. Ali fez amigos mas, com o passar dos anos, foi percebendo uma transformação. A coexistência pacífica entre templos e estabelecimentos de diversas religiões, na mesma área, foi deixando de ser amigável. Fé e Fúria foi rodado entre setembro de 2016 e julho de 2018 e, mesmo sem ter planejado, o diretor capta em seu filme a ascensão do bolsonarismo, que culminaria na eleição presidencial.
“O filme traz um país marcado por uma enorme onda conservadora, opressora e violenta. O Brasil é um país intolerante e racista, não respeita a minoria. Durante o processo de filmagem, isso foi se acentuando e captamos isso. Mesmo tendo sido feito antes do período eleitoral [de 2018], Fé e Fúria registrou momentos de intolerância, massacre de minorias, relações obscuras entre religião e poder, racismo, fascismo, Bíblia e Deus... Tudo já estava ali, pairando sobre a sociedade brasileira. O Bolsonaro soube utilizar estes elementos no discurso de sua campanha e no seu governo.”

Marcos Pimentel, diretor de Fé e Fúria (Crédito: Divulgação)
Pimentel partiu de casos noticiados de agressões – como uma jovem que levou uma pedrada na cabeça no meio da rua, no Rio de Janeiro, em 2015, por estar usando vestimentas típicas do candomblé – e outros que passaram silenciosos para investigar a dinâmica da intolerância, partindo de um universo micro para mostrar como isso representa o Brasil daquele momento, e chega assim até hoje. “Era preciso ganhar a confiança das pessoas. Certamente, as vítimas têm mais vontade de contar sua história, de se abrir, mesmo se protegendo. Mostramos, antes de tudo, que estávamos do lado delas, do lado do oprimido. O opressor é covarde. Ele não se deixa ser filmado fazendo a agressão, pois sabe que faz algo errado. Queremos mostrar que essa é uma guerra desigual.”
O filme foi ganhando mais foco e força no processo de montagem, assinada por Ivan Morales Jr. O processo de edição aconteceu concomitantemente às filmagens, que foi em três etapas e, a partir de certo momento, direcionada para o ângulo que Pimentel entendeu que deveria tomar. “Fomos mostrando que o problema não é apenas individual, não é um caso de briga de vizinhos, como alguns querem que se acredite. A questão é bem mais complexa, envolvendo intolerância e racismo. Para se chegar a isso no filme, cada personagem foi importante.”
Embora, claramente ao lado dos praticantes de religiões de matrizes africanas, Pimentel entende que a complexidade da situação pede vários pontos de vista e coloca em cena, por exemplo, um evangélico totalmente tolerante à diversidade e muito crítico de sua religião. “Ele é a figura mais complexa do filme, uma voz muito lúcida, e nos ajuda a mostrar a profundidade da situação, não dá para colocarmos as pessoas em caixinhas ou rótulos.”
Diante dos resultados do 1o turno da eleição presidencial deste ano, Pimentel vê que a importância de seu filme só cresce e ajuda a jogar luz na dinâmica política da atualidade, em como a religião se tornou uma discussão primordial para os candidatos e o que pode decidir o 2o turno. “Há um caldeirão muito rico na diversidade entre os evangélicos também, ou seguidores de qualquer religião. A esquerda precisa retomar esse diálogo. Como retomar o trabalho de base e o diálogo com a juventude? Isso é básico para qualquer movimento que queira ser duradouro. No passado, a esquerda era barulhenta, e a direita, silenciosa. Hoje, é o contrário, e precisamos mudar isso com urgência, se quisermos transformar esse país.”
