04/06/2026

Documentário "Kevin" parte da amizade entre uma brasileira e uma ugandense

     Joana Oliveira e Kevin Adweko, em cena no documentário Kevin (Crédito: Divulgação)

 
“Acho que Kevin é um filme muito simples sobre o amor e o diálogo. Amar e dialogar são exercícios de resistência em um mundo que está virando do avesso”. Assim define a cineasta brasileira Joana Oliveira seu documentário, que tem ao centro sua amizade com a ugandense Kevin Adweko. As duas se conheceram 20 anos atrás, quando estudavam na Alemanha. Nesse período, alguns encontros, mas só com o documentário as duas têm a chance de estarem juntas por um bom tempo falando sobre suas vidas. O filme estreia nos cinemas nesta quinta (03/11).
 
Quando convidada para ser o tema de um documentário, Kevin aceitou imediatamente, mas Joana crê que, naquele momento, a ugandense ainda não tinha noção do que seria estar num filme. “Em fevereiro de 2014, eu fui até a Alemanha com uma câmera emprestada para fazer testes com a Kevin e perceber se ela toparia mesmo fazer o filme. Acho que no início ela achou que tudo era uma brincadeira, ou que o filme seria mostrado somente para minhas amigas e amigos na minha cidade. Mas, com o tempo, ela foi entendendo. E com o trabalho também. Quando chegamos a Uganda alguns anos depois com a equipe, com contratos, com equipamentos, ela começou a entender que o filme era maior do que uma reportagem.”
 
Como fica claro, este é um filme altamente pessoal, que ganha uma dimensão universal ao falar dos afetos e da posição da mulher contemporânea. Joana teve de se dividir em várias – além de dirigir, ela também está o tempo todo em cena. “À medida que filmamos, eu percebi que quanto mais eu me concentrava nela, melhor a cena ficava. Então, eu comecei a usar técnicas de atuação comigo mesma e com a Kevin. E eu confiei totalmente na equipe, nós combinávamos como a cena seria filmada e então eu entrava na minha personagem. A equipe improvisava soluções quando as coisas estavam acontecendo fora do combinado. Foi uma sintonia muito boa, tanto com a equipe de fotografia, quanto com a de som, quanto com a de produção.”
 
Esta foi a primeira vez que a cineasta foi a Uganda e também viu pela primeira vez a família da amiga. “Eu tinha que me dividir entre a Joana que estava se reencontrando com a amiga e a diretora que tinha que filmar coisas com a equipe. Então, tínhamos o momento de filmar e o momento de eu me afastar com a Kevin da equipe e, então, estarmos uma com a outra, com sua família, afazeres e nossas histórias, segredos e fofocas, que vão muito além do que está no filme.”
 
Para construir Kevin, foi fundamental também trazer para o roteiro pessoas que não conheciam a ugandense, olhares com frescor e sem relação emocional com o material. “O maior desafio do filme era que conseguíssemos nos distanciar da Joana diretora e da Kevin amiga da Joana, para entender se a amizade estava retratada. Era preciso encontrar a Joana e Kevin personagens.” Em 2017, depois da primeira ida de Joana a Uganda, Clarissa Campolina começou a editar uma versão.
 
“Quando recebemos um financiamento da Ancine para filmar mais, adicionamos na equipe de roteiro a Laura Barile, que escreveu comigo, e a Tatiana Carvalho Costa, que deu colaborações na estrutura. Além disso, tivemos algumas assessorias com profissionais e participações em laboratórios de roteiro e encontros de produção sobre o filme.”
 
Em 2019,  depois de uma segunda etapa em Uganda, Joana encontrou Angela Wamai, uma realizadora e montadora do Quênia. “Foram muitas as pessoas envolvidas na tarefa de distanciar a minha ligação pessoal com a Kevin para que o filme trate a nós duas como personagens da história de um longa-metragem. O filme nunca daria conta da nossa história e nossa ligação, então a vontade é de mostrar a intimidade, não de explicar tudo. Quando entendemos isso, o filme ganhou muito.”
 
Ao fim, Kevin é também uma tentativa de compreender esse “mundo que está virando do avesso.” “Depois de tudo o que a humanidade passou, acho que teríamos que estar em um outro momento; o de preocupação com a crise climática. Mas nós não conseguimos o básico, que é uma sociedade igualitária que prega o respeito e condições básicas de sobrevivência a todo ser humano. Há uma onda horrível de preconceito, racismo, misoginia, xenofobia... não gosto nem de ficar listando porque já sinto uma coisa ruim”, conclui a diretora.
 

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