
Eduardo Kobra e Lina Chamie, nas filmagens do documentário (Crédito: Divulgação)
Durante a entrevista por vídeo-chamada com o Cineweb, a cineasta Lina Chamie se levanta, vai até ao lado da mesa onde está e pega um caderno de capa vermelha – como faz questão de frisar –, e diz: “Esse caderno me acompanhou o tempo todo durante o filme”. Ela o aproxima da câmera, vira as folhas, explicando as diversas anotações do processo do documentário Kobra – Auto Retrato. Mas o que quer mostrar mesmo é a última página, na qual se lê: “Amamos o filme, Kobra”.
Ela respira aliviada: “Eu fiz o filme, em primeiro lugar, para ele. Se ele não gostasse, seria um problema.” Lina é assim, uma diretora preocupada em ser gentil e generosa – além de sempre muito divertida. O documentário, que tanto agradou ao documentado, é sobre Eduardo Kobra, artista de rua e muralista paulistano que tem obras em diversas cidades, como São Paulo e Nova York, que estão no filme.
Lina explica que um dos desejos e desafios era captar a obra de Kobra em sua complexidade e grandiosidade. O cinema tem vantagens em relação ao olho humano nesse sentido. “A gente usou drone para poder chegar lá em cima, no topo do mural, e filmar detalhes que, quando se olha da rua, de baixo, a gente não consegue ver.” Ela também ressalta que foi fundamental a parceria com o diretor de fotografia Lauro Escorel: “Ele deu muitas ideias sobre como e o que filmar, o trabalho dele foi importantíssimo.”
Em 2018, Lina foi convidada a documentar Kobra em atividade, fazendo um trabalho de 18 murais em Nova York. O convite foi em cima da hora; era impossível montar uma equipe e ir lá filmar. Ainda assim, ela conseguiu registrar esse momento, e daí surgiu a ideia de algo maior: um documentário sobre o artista, no qual ele resgata sua trajetória de vida e carreira.
Kobra – Auto Retrato é um documentário de baixo orçamento que, para a diretora, só pôde ser produzido graças ao nome do artista. Lina explica que tinha de ser um filme em primeira pessoa e, para isso, fez duas longas sessões de entrevistas com o biografado, que fala sem pudor de sua vida e obra, e, usando isso como fio condutor, trazer os murais dele para a tela.
No caderno vermelho, Lina, como faz questão de mostrar, transcreveu à mão toda a entrevista, já imaginando o que poderia usar na montagem do longa, assinada por ela mesma. “Estudei todo esse material, era fundamental organizar a narrativa. Para cada mural, fiz um roteiro de filmagem, observando detalhadamente como era e o que queria trazer para o filme.”
Ela explica que, no documentário, ela usa o mesmo modus operandi da sua ficção, que inclui filmes como A Via Láctea e Os Amigos. “Não sou documentarista de formação. Acabei entrando nessa área, e gosto muito, mas meu DNA é o da ficção.” Agora, ela trabalha num documentário sobre Tarsila do Amaral.
Lina conta também que a arte de rua, como bem mostra o filme, é efêmera, mas também a mais democrática, e isso a encanta. “Ela nos possibilita falar com mais pessoas, e sua mensagem ser mais difundida. O Kobra é um artista muito conhecido pelo uso das cores, mas seu trabalho também é extremamente político. O que ele diz tem a ver com a paz, o meio ambiente, ele fala contra as armas e a guerra.”
Nascido na periferia de São Paulo, em 1975, Kobra é, para a diretora, um retrato da resiliência. “A história dele é a mesma de tantos artistas num país onde a arte e os pobres são tão atacados. A arte dele se torna resistência, sua produção vai muito além das questões estéticas.”
