
Manoela Aliperti, como a adolescente Liz, que sofre de aneorexia, em Diário de Viagem (Crédito: Divulgação)
Para seu primeiro longa-metragem, a diretora Paula Kim (na foto abaixo) partiu de sua própria experiência com anorexia nervosa que enfrentou na adolescência. O resultado é Diário de viagem, um filme bastante honesto e que também tem um caráter instrutivo e também mostrar para jovens, pais e mães que “tem gente que se recupera 100%”.
Nessa entrevista ao Cineweb, a cineasta fala da experiência de resgata sua adolescência, o conturbado período político da época, na segunda metade dos anos de 1990, e também do impressionante trabalho de Manoela Aliperti, que interpreta a protagonista. Leia abaixo.
Qual a importância de abordar um assunto tão sério como a anorexia num filme bastante acessível – especialmente a um público jovem?
Em 2022 a OMS divulgou a maior revisão mundial sobre saúde mental desde a virada do século. Em 2019 quase um bilhão de pessoas – 14% dos adolescentes do mundo – tinham um transtorno mental. O suicídio foi responsável por mais de uma em cada 100 mortes. E 58% dos suicídios ocorreram antes dos 50 anos de idade. Os transtornos mentais são a principal causa de incapacidade, causando um em cada seis anos vividos com incapacidade. Pessoas com condições graves de saúde mental morrem em média 10 a 20 anos mais cedo do que a população em geral. E a anorexia nervosa é o transtorno mental com maior taxa de mortalidade, e acomete um público mais jovem, a maioria são moças entre 12 e 17 anos. Eu acho estes dados o suficiente para justificar uma obra que trate os transtornos mentais voltada ao público jovem, com protagonista feminina, com um fim motivacional, oferecendo alguma luz no fim do túnel.
A minha motivação pessoal foi a minha necessidade, como uma pessoa que teve anorexia entre 10 e 14, de dizer para o mundo que tem gente que se recupera 100% e está andando por aí, trabalhando com você, namorando você, casando e sendo sua mãe. Só que por medo de ser estereotipad@, esconde o passado. Ou seja, você não conhece essa pessoa, não sabe quais são os desejos desta pessoa, o que ela de fato pensa. Teve aquele caso polêmico da Terri Schiavo, que morreu sem ser alimentada [em 2005], porque ela respirava, digeria e segundo seus pais tinha reflexos que permitiam que se comunicasse com as pessoas? Ninguém fala como ela chegou neste estado. Ela tinha bulimia e sofreu uma parada cardíaca. E antes de sofrer esta parada, estava supostamente se separando do marido, que foi o grande defensor de não alimentarem nem hidratarem mais ela até a morte. Enfim, essa é uma história de um transtorno alimentar com um fim trágico. A história da Amy Winehouse é uma história de transtorno alimentar com um fim trágico.
O cinema também traz uma versão um tanto distorcida dessa realidade, e, nesse sentido, seu filme é muito honesto.
Porque todos os transtornos alimentares que assistimos em filmes, que são transtornos mentais, não são tratados como transtornos alimentares e têm fim trágico? No que implica a recuperação, socialmente falando? O que há por trás do medo de se falar deste assunto? E porque é tão natural pressionar as mulheres a se identificarem com a necessidade de aceitação social por meio do tal do "comportamento feminino", do "gosto feminino", do "corpo aceitável"... Bota qualquer homem sob essa pressão que ele tem um transtorno mental. As meninas aguentam muita pressão. Eu queria falar um pouco disso. As mulheres não são todas iguais. Mas todas são seres humanos, com necessidades semelhantes a todos os outros seres humanos homens. Eu acho que queria mostrar que existem pessoas por trás de transtornos mentais. Brinco que, no geral, por pressões sociais, as mulheres se autoflagelam, os homens agridem as mulheres e a eles mesmos.
Como trabalhar a narrativa de forma que seja, ao mesmo tempo séria, sem ser profundamente pesada – o que poderia afastar seu público?
Eu queria sim fazer isso, que legal que você notou. Eu acho que a gente como espectador tem que ter alguma empatia e de alguma maneira, humanizar e se identificar, em algum momento, com a protagonista. Por isso alguns elementos da narrativa têm que fazer essa conexão, então eu acho que para entender a Liz, de vez em quando foi preciso umas vozes overs e a gente ficar o tempo inteiro com ela, ver a narrativa sob a perspectiva dela.
E eu como roteirista/diretora criei relações com outros personagens que na vida de muita gente com transtorno psicológico são relações que não existem ou que ficam muito mais no plano das ideias ou da percepção da pessoa transtornada, são difíceis de captar e acontecem com menos intimidade do que está no filme. Conversas que não existiram etc Porque de fato se alguém já esteve perto de alguém, no caso, com anorexia nervosa, vai saber que a energia é muito, muito pesada. A gente não tem nem coragem de falar a real com a pessoa.

Que tipo de pesquisa você fez para o filme?
Eu conversei com jovens que tinham tido transtorno alimentar um pouco depois de terminar a primeira versão do roteiro, para o projeto Sobre Nossa Visão Distorcida, uma plataforma de conscientização que publiquei em 2015, porque queria entender a necessidade de uma atriz ou de uma pessoa que entendesse a lógica da Liz para então "preparar" esta pessoa para atuar.
No fim, me pareceu que era preciso de uma atriz, e eu orientá-la como diretora a criar a lógica de uma menina atormentada. Eu queria inicialmente que a protagonista fosse menor de idade, tivesse 13 anos mesmo, como a Liz, mas não tinha atentado, talvez pela minha própria vivência, que uma pessoa saudável nesta faixa etária não tinha condições de interpretar a Liz, porque ela é uma personagem muito difícil. Honestamente, eu não sabia que ela era uma personagem difícil de interpretar até chegar na pesquisa de elenco.
Uma pessoa na época me disse que a minha referência de (pré)adolescência estava muito fora do "padrão". Para escrever o roteiro e orientar a Manuela, eu acessei a minha pré adolescência, só isso. Fiz uma coisa que eu nunca tinha feito até eu sentir necessidade para o filme, que foi assistir aos meus vídeos de quando eu estava com anorexia, e li o que sobrou dos meus diários, porque (isso estava até no roteiro), por vergonha do que tinha acontecido comigo, eu rasguei meus diários de quando estava doente, deixei sobrar pouca coisa, joguei fora. E indiquei para a Virginia [Cavendish, que interpreta a mãe da protagonista], por estes contatos do Sobre Nossa Visão Distorcida, mães de moças que tinham tido transtornos alimentares.
Como foi o trabalho com a atriz Manoela Aliperti? A personagem passa por diversas transformações físicas e emocionais.
A Manu é maravilhosa. Focada, se entregou. Deve ter sido muito difícil para ela, mas ela foi super criativa, super artista, e com a sua criatividade, fez uma Liz que é só (d)ela, mas que é também muito fiel ao roteiro e suas motivações. Teve uns momentos que ela sugeriu coisas brilhantes que eu acho que enriqueceram muito a narrativa. Ao mesmo tempo, foi muito atenciosa ao que eu explicava sobre a lógica do transtorno.
Houve também um trabalho da equipe artística do filme para ajudar nessa transformação?
A Amanda Mirage, maquiadora, a Gabriela Marra, figurinista, a Juliana Lobo, diretora de arte, e a incrível Katia Coelho [diretora que assina a fotografia com Naji Sidki] foram as responsáveis pelas metamorfoses da Liz. Foi muito bacana ter na arte, figurino e maquiagem pessoas da minha faixa etária, porque eu explicava isso de a gente fazer algo diferente quando viaja com os amigos (no caso da Liz, cortar o cabelo e pintar de vermelho, e o cabelo desbotar com os anos) para um intercâmbio, e todo mundo visualizava a mesma coisa. Isso foi importante para criar a atmosfera. Eu falei do moletom do Fantasma da Opera, e elas entenderam o universo que isso abrangia. Tudo neste sentido correu muito bem.
E como foi o trabalho dos diretores de fotografia?
E a Katia foi brilhante, a Manu não perdeu um grama para fazer a Liz, filmamos direto. A Katia foi uma pessoa muito chave neste filme, a fotografia deste filme tem uma cara que só ela poderia dar, junto com o Naji, e eu gosto muito da visão que eles deram para este filme. Sou muito grata também à atriz que fez a dublê de corpo da Manu nos momentos de muita magreza, a Leila Pacheco. Foi muito parceira, e eram cenas muito delicadas.
O Brasil de meados dos anos 90 está bastante presente no filme, como você compara aquele momento com hoje?
Foi um momento fácil para mim porque foi a minha pré adolescência. Os anos tratados, 95 a 97, foram mais ou menos os anos em que eu desenvolvi anorexia nervosa, então eu automaticamente lembrava de fatos que coloquei no filme. Mas pensei muito no filme Carol, de Todd Haynes, que tive o privilégio de assistir no Festival de Cannes em 2015, e pensei que era um filme que estava tratando uma relação de amor entre duas mulheres muito antes desse tipo de relação ser aceita (não que hoje seja em todos os lugares, mas há universos em que é), e isso faz a gente entender a força que essa relação tinha para estas duas personagens.
Pensei que as pessoas que estão hoje com um transtorno alimentar podem chegar no filme pensando: é um filme de algo antigo, dos anos 90... E se depararem com uma lógica que talvez estas pessoas estejam vivenciando hoje. Esta identificação com a personagem é importantíssima e poderosa. Isso é o que a gente pode achar de comum, a humanidade e o conflito. O que tem de diferente é que as relações, os instrumentos, a questão do telefone, do jeito que se vive a solidão (no caso do Diário de Viagem, com o diário)... Isso é diferente. Mas a sensação, a dor é a mesma.
E há também a reverberação, no filme, daquele momento político do Brasil.
Tem outra coisa que eu lembro que eu queria passar no filme, que foi essa sensação específica de 1994, 95, de quando o real se equiparou ao dólar. Eu, como filha de imigrantes, que já tinha outras pressões que não são a história deste filme, de me "adaptar" e ser "bem sucedida" nesta terra estranha para meus avós e pais, vivenciei um otimismo, de que não só eu tinha sido bem sucedida nesta adaptação, mas que o Brasil era uma grande potência, e a globalização iria acontecer de uma forma muito boa para o Brasil, que seria acessível viajar para o exterior, que o mundo ficaria menor para gente. Hoje eu acho que a situação é diferente, mas a gente acredita que tende a melhorar agora com os últimos acontecimentos. A gente espera.
