21/07/2026

Caroline Fioratti lança filme sobre ricos brasileiros em festival nos EUA

     Maria Luisa Mendonça e Bella Piero, como mãe e filha em Meu Casulo de Drywall (Crédito: Stella Carvarlho/Divulgação)

 
Dez anos atrás, quando filmava, em São Paulo, seu curta Algum lugar do recreio, a cineasta Caroline Fioratti teve um insight, ou uma premonição. Ao lado da escola que servia de locação, estava sendo erguido um prédio, e ela brincou profeticamente com a equipe: “Um dia ainda vou filmar nesse lugar”. Corta para 2020: aquele condomínio de luxo, agora pronto e habitado, serve de locação para seu terceiro longa, Meu Casulo de Drywall, e o primeiro que ela mesma classifica como autoral. Nesse sábado (11), o filme faz sua première mundial no badalado festival americano SXSW – South by Southwest, que acontece em Austin, no Texas.
 
“O filme falava de adolescentes, seus problemas e questões típicas dessa fase no século XXI. Eu fiz muita pesquisa para esse trabalho, e muita coisa acabou ficando de fora, não caberia tudo num curta. Um dia eu ainda queria voltar ao tema, e acabou calhando que o longa foi rodado ao lado da escola onde tudo começou”, conta em entrevista ao Cineweb, pouco antes de viajar para os EUA, onde apresentará o filme.
 
Meu Casulo de Drywall passa-se num prédio de luxo, de gente muito rica e fechada no seu próprio mundo. O roteiro, assinado também por Caroline, abre a narrativa em dois tempos: a festa de 17 anos de Virgínia (Bella Piero), uma jovem sufocada pela mãe superprotetora (Maria Luisa Mendonça) e, horas depois desse evento que culmina numa tragédia, como os personagens envolvidos lidam com isso.
 
Caroline explica que se interessava por esse microcosmo, esse “casulo”, como o título deixa claro, onde essas pessoas vivem bem distantes da realidade do país, do lado de fora. São figuras fechadas num mundo de segurança e conforto que seguem as mesmas normas de conduta. “Imagino como isso pode ser prejudicial para uma mente em formação. A ideia com o filme era romper com essa bolha, olhar o que acontece diante do inesperado, quando a tragédia se abate por dentro.”
 
 
      Caroline Fioratti, roteirista e diretora do longa que faz sua estreia amanhã (11), no SXSW (Crédito: Ariela Bueno/Divulgação)

Entre os moradores desse condomínio, está, por exemplo, um general interpretado por Marat Descartes. Quando ele sai com o carro, é possível perceber o veículo todo adesivado e, embora a imagem esteja desfocada, é muito fácil saber de qual político são esses adesivos. “São pessoas que foram para a porta de quarteis, no fim do ano passado, pedir intervenção militar, anulação das eleições.”
 
Caroline lembra que o projeto começou em 2013 e só ficou pronto agora, em 2022  - ou seja, atravessou todos os governos no Brasil dos últimos anos. “De certa forma, o filme foi mudando, não tinha como não trazer a realidade, mesmo que de forma sutil, para a história.”
 
Em seu currículo, além de vários curtas, a cineasta também tem Meus 15 anos, comédia juvenil protagonizada por Larissa Manoela, e Amarração do amor, além de diversas séries, como Unidade Básica e Temporada de Verão. Ela explica que, ao longo desses anos, fez parcerias, especialmente com profissionais, o que lhe permitiu fazer Meu Casulo de Drywall – aliás, drywalls são estruturas pré-fabricadas feitas com aço e gesso, usadas em construções. No título, a referência dá uma ideia, também, da estruturas sociais e culturas pré-fabricadas em que as personagens são inseridas.
 
Caroline também conta que fazer um filme autoral foi libertário. Seus dois longas anteriores estavam ligados a produtoras e distribuidoras estabelecidas, que tinham expectativas artísticas. Aqui, mesmo com o baixo orçamento, ela pode fazer o filme exatamente como queria, e contando com a colaboração de profissionais com quem estabeleceu ligações ao longo da carreira. “Tecnicamente, isso te liberta do erro. Você pode fazer como imagina e se dar a oportunidade de errar.”
 
As filmagens aconteceram em fevereiro de 2020 e foram concluídas dias antes do primeiro lockdown, no mês seguinte. “Tudo foi feito no condomínio, nos apartamentos. Eles foram muito parceiros, compraram a ideia desde o início. Não tinha como fazer em estúdio, são apartamentos de luxo, seria muito caro reproduzir os cenários.”
 
Depois de sua estreia no SXSW, Meu Casulo de Drywall deverá ser exibido em festivais no Brasil, no segundo semestre, e chegará aos cinemas nacionais em seguida.

Notícias relacionadas