
Okado do Canal e Amanda Gabriel, em cena de Rio Doce (Crédito: Divulgação)
Falando sobre seu primeiro longa, Rio Doce, o diretor e roteirista Fellipe Fernandes é muito cuidadoso em explicar, para quem não conhece, o que é este bairro que dá nome ao filme. “Fica na periferia de Olinda e é o bairro mais populoso da cidade. Na mídia, como toda periferia, é visto como um lugar perigoso, um lugar de violência. Mas quem mora lá, sabe que é diferente, é o lar.” Ele diz isso com propriedade, pois cresceu ali até os 10 anos, depois se mudou, com a família, para o bairro vizinho, mas continuou a conviver em Rio Doce com parentes e amigos.
O longa realmente traz uma imagem diferente do bairro, mais positiva, de um lugar mais acolhedor. Espaços são de interesse de Fernandes, que tem no currículo dois curtas, entre eles, O Delírio é a Redenção dos Aflitos. O mestrado do cineasta foi exatamente sobre a representação dos espaços no cinema pernambucano.
Ele conta que só foi perceber Rio Doce como periferia quando se mudou para o Recife, onde mora até hoje, para cursar a faculdade. “Foi aí que tive a percepção, quando comecei a frequentar a casa de amigos. Para quem mora numa periferia, a gente não percebe o lugar assim, é nosso lar, nosso mundo.”
Ao colocar Rio Doce no centro da narrativa do seu filme, Fernandes lhe atribui um novo sentido. Ele acentua que era preciso trazer a experiência de viver na periferia em outros níveis, não apenas no cenário, assim, o elenco principal viveu em diversas periferias.
O rapper Okado do Canal, protagonista do longa, tem essa experiência que era tão importante para o diretor quando montava o elenco do filme. Ele interpreta Thiago, funcionário de umaa casa de jogos eletrônicos, que, depois de adulto, é procurado por uma mulher que diz ser irmã dele, filha do pai que ele nunca conheceu. A partir daí, o enredo explora abismos sociais e culturais que permeiam a vida do protagonista e das irmãs, de classe média, que acaba de descobrir ter.

Fellipe Fernandes: a investigação de um novo modelo de maculinididade e paternidade em seu filme (Crédito: Divulgação)
“O filme traz marcadores de classe que são sutis, não é todo mundo que percebe, só quem é da periferia mesmo vai sentir. Foi fundamental, o trabalho de direção de arte do Thales Junqueira, que é meu amigo desde a adolescência. A gente cresceu pensando no que colocaria em cena num filme como esse”, diverte-se.
Outro elemento que levou Fernandes a fazer esse filme foi a possibilidade de contar histórias que ele mesmo ouvia ou presenciava, mas nunca via na televisão ou cinema. Ele conta que desde pequeno queria contar histórias, ser ator ou escritor – “vai morrer de fome, minha mãe dizia”, conta, rindo. Agora, como cineasta, ele explica poder trazer ao cinema narrativas sob o ponto de vista de pessoas da periferia, e contada por elas.
Mas, mais do que isso, ele queria fugir das obviedades dos filmes sobre esse espaço, como câmera na mão ou um fotografia crua. “O diretor de fotografia é o Pedro Sotero, e a ideia era mesmo dar um tratamento cinematográfico a lugares que nem sempre têm isso no cinema e na televisão. São histórias de pessoas comuns, mas com cara de cinema. E qualquer história comum é digna de cinema.”
Outro elemento forte na construção de Rio Doce, que começou a ser planejado em 2014, foi o nascimento da filha do diretor no meio do processo. Ele conta que um tema importante no longa sempre foi a paternidade. Porém, ao se tornar pai, o próprio Fernandes percebeu que era preciso abordar também outra via.
“O filme lida, então, com questões estruturais, como machismo, racismo e o patriarcado. Thiago está tentando ser um bom pai, em busca de um novo modelo de paternidade. E vai encontrar exatamente em sua mãe, que o criou.”
De certa forma, Rio Doce, que foi filmado em 2019 e só agora chega aos cinemas depois de passar por festivais, é como a trajetória do Brasil nesses últimos anos. Fernandes vê seu personagem numa encruzilhada de experiências de um passado que precisa ser superado para construir um presente mais promissor. “O filme conversa tanto com aquele momento, quando foi rodado, como com agora. É uma busca de como lidar com questões estruturais.”
