Na coletiva de imprensa, ontem em São Paulo, quem comentou o assunto foi João Moreira Salles - em cujo filme, aliás, é o próprio Lula quem conta que tomava "uns gorós" todo dia, no horário de almoço, antes de almoçar, jogar futebol e voltar para o trabalho no torno mecânico na Villares. "O que Lula descreve ali é seu dia de trabalho. Penso que se um político de outra extração social, que tivesse trabalhado, digamos, numa corretora de valores, e dissesse que todo dia tomava dois dry martinis e depois jogava golfe, duvido que alguém tivesse identificado algum problema. Trata-se de um claro preconceito de classe", afirmou.
João reiterou que seu filme "não foi montado em função do noticiário" e que considera toda essa discussão "mesquinha, menor e desimportante". E lembra que o longo processo de montagem, que durou cerca de um ano e meio (as filmagens ocorreram entre agosto e outubro de 2002), foi feito em parte na Europa e lá o diretor nem acessava a internet, para não ser influenciado por nenhum fator externo ao próprio filme. Além disso, na abertura de "Entreatos", Salles afirma textualmente que em nenhum momento Lula ou qualquer membro de sua equipe tentaram interferir no filme. O presidente, segundo o cineasta, ainda nem assistiu ao filme. Coutinho, por sua vez, deixou claro que o corte da fala foi uma decisão apenas sua e teve por objetivo apenas "proteger" sua entrevistada de cobranças do próprio meio sindical.
Os dois documentários serão lançados dentro de uma estratégia excepcional no mercado brasileiro, ou seja, conjuntamente, e exibidos em horários alternados nos mesmos cinemas. A previsão é de que sejam lançadas três cópias em São Paulo e três outras no Rio de Janeiro. O motivo é que os dois cineastas desde o começo das filmagens entenderam que os dois filmes "dialogavam" em seus temas e querem que esse diálogo seja acompanhado pelo público nas telas.
Peões, de Coutinho, tem 1h25 minutos, e descreve a trajetória de 21 pessoas - que restaram ao final de 50 entrevistadas - que viveram de algum modos as históricas greves do ABC, de 1979 e 1980, lideradas por Lula, e não ascenderam nem na burocracia sindical, nem na vida política. Fiel ao seu estilo, cunhado em documentários premiados como Santo Forte, Babilônia 2000 e Edifício Master, Coutinho debruça-se sobre os anônimos e extrai depoimentos de alta emoção e verdade humana.
Entreatos, de Salles, tem 115 minutos, e acompanha os bastidores da campanha presidencial de 2002, flagrando momentos de descontração do então candidato Lula, seus assessores e sua família. A opção do diretor foi sacrificar o que ele classifica como "lado glorioso" da campanha, ou seja, Lula em comícios públicos. O que resta no filme são as conversas de Lula a bordo de jatinhos e dentro de hotéis, sobre a formação do PT, Lech Walesa (a quem chama de "pelego"), reminiscências da dureza de sua vida como operário - da qual ele confessa não ter a "menor saudade", apenas dos amigos.
Tanto Salles como Coutinho assumem que uma certa "melancolia" percorre os dois filmes. Salles entende que este sentimento vem do fato de que "hoje em dia aquelas greves não ocorreriam. O Lula que venceu a eleição também não é mais o mesmo, é alguém que aceitou as regras do jogo democrático. Como todos aceitam". Coutinho acha essa transformação no tempo perfeitamente natural e mesmo inevitável: "Ninguém é igual a si mesmo 20 anos depois, nem o Lula, nem o partido. Acho que a história não se repete, nem como farsa".
Cineweb 18-11-04 12h30
