Ouro Preto –Quatro curtas e um longa do acervo da Cineteca Nacional do Chile formaram uma sessão nobre na programação da sexta (21) da CineOP, incluindo duas criativas obras de Tomás Welss, um dos expoentes da animação chilena.
A sessão foi apresentada por Macarena Bello, coordenadora de mediação e audiências da Cineteca e que ministra hoje uma masterclass sobre a história e os desafios desta instituição, criada em 2006 e que é hoje uma das mais ativas da América Latina.
Os filmes escolhidos, animações (no todo ou em parte), foram um exemplo não só da variedade como dos esforços permanentes de restauração de seu acervo pela Cineteca. O primeiro curta, A Transmissão de Cargo 1920-1925 (foto ao lado), de Alfredo Serey (1921), esteve perdido por mais de 100 anos e sua redescoberta permitiu recuar em 20 anos a data do início da animação chilena, antes estimada em 1941. O curta, de 6 minutos, refere-se de maneira jocosa a uma posse presidencial e ao contexto político da época.
15 Mil Desenhos, de Jaime Escudero e Carlos Trupp (1941), reúne fragmentos da obra de 7 minutos, traduzindo um espírito experimental que não foi bem assimilado pelo público chileno da época, o que, segundo a diretora da Cineteca, desanimou seus diretores de prosseguir na profissão.
Do criativo Tomás Welss, foram exibidos dois curtas de épocas bem distintas, o primeiro sendo Tango Mortal, de 1988, realizado na Alemanha, mostrando um casal na evolução erótica desta dança. Igualmente sensual e bastante anárquico, o segundo curta do realizador, Massa, de 2010, retrata outro casal envolvido numa troca erótica e também numa orgia gastronômica, com um ritmo e habilidade admiráveis.
O longa que encerrou o programa, O Hussardo da Morte (foto ao lado), de Pedro Sienna (1925), é a mais recente versão restaurada deste relato sobre as aventuras de um popular patriota do século XIX, Manuel Rodríguez (interpretado pelo próprio Sienna), e que teve um papel importante na independência do Chile. Nesta cópia, restaurada em 2020, o filme teve incluída uma trilha sonora composta pela banda La Patogallina, que havia realizado também um espetáculo teatral em torno deste mesmo personagem.
Animadores em debate
No seu primeiro dia de atividades, a 19° Cine OP dedicou espaço a debates, como uma roda de conversa sobre o estado da arte da animação brasileira, que é o foco desta edição e que supre, de certa maneira, a grande lacuna deixada pela não realização do consagrado Anima Mundi desde 2019.
Num debate realizado no Centro de Artes e Convenções com cinco animadores experimentados - Arnaldo Galvão, Tânia Anaya, Fábio Yamaji, Adriana Pinto (atual presidenta da Associação Brasileira do Cinema de Animação) e Marco Arruda -, a ausência do Anima Mundi foi um dos temas, mas não o único. Todos eles pontuaram os inequívocos progressos nos últimos anos, com a multiplicação de escolas especializadas – cerca de 50 em todo o País, segundo levantamento de Yamaji -, e a eficácia de legislações como a lei 12.485, que instituiu cota obrigatória de produções nacionais na TV paga e pavimentou o aumento vertiginoso das séries de animação. Como destacou Galvão, isto tem um impacto significativo no mercado audiovisual, já que cada série de animação emprega em média 100 pessoas por aproximadamente 2 anos.
O curador Cléber Eduardo, que mediava o debate, da mesma forma forneceu dados sobre o crescimento da animação no País. Se em 2006 foram produzidos 3 longas nacionais do gênero, em 2023 eles passaram a 8. Em 2023, apenas até junho, 3 já foram realizados.
O êxito dessas medidas não tranquiliza os animadores. Eles mesmo pontuaram que “sucesso não garante continuidade”, como destacou Adriana Pinto, falando do próprio Anima Mundi, que durou de 1993 a 2019 e cuja ausência como polo catalisador da área e ponto de encontro e troca entre profissionais é muito sentida. Para os debatedores, há necessidade de novas medidas de estímulo. Segundo eles, o foco da legislação e de editais estimulando séries e longas tem deixado de lado os curta-metragens, que é o setor de onde emergem os novos talentos. Portanto, novos editais específicos são necessários, especialmente tendo em vista que o tempo de produção de uma animação é particularmente mais longo do que um live action ou documentário.
Ministra do STF
Nascida em Espinosa (MG), a ministra do STF e atual presidenta do TSE Carmen Lúcia foi a presença mais badalada de outro debate, este sobre Políticas Públicas para o Patrimônio e a Preservação Audiovisual. Muito à vontade, a ministra relembrou trechos da própria biografia, como a infância numa cidade que não dispunha de um cinema, e fez uma defesa veemente da atuação do Estado para promover a cultura e seu acesso por todos, como determina a Constituição.
