25/06/2026

Ruy Guerra finaliza "Veneno da Madrugada", que pode ir a Cannes

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Aos 74 anos, o cineasta Ruy Guerra está cada vez mais longe da aposentadoria. Neste momento, finaliza seu 15º filme, Veneno da Madrugada, sua quarta adaptação de uma história do amigo de longa data, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, que tem distribuição pela empresa internacional UIP e estréia prevista para abril.

O cineasta moçambicano, nascido em Maputo em 1931, radicado no Rio de Janeiro, está em São Paulo para a abertura, nesta quinta (20) de um ciclo de seis filmes no CineSesc, que se estende até dia 25. Entre eles, clássicos de sua filmografia como Os Fuzis (1963) e A Queda (1978), ambos vencedores do Urso de Prata no Festival de Berlim, Os Cafajestes (1962), obra pioneira do Cinema Novo, e Erêndira (1983) e Estorvo (1999), ambos trabalhos que concorreram à Palma de Ouro no Festival de Cannes.

O comitê organizador de Cannes, aliás, já pediu a Guerra para ver Veneno da Madrugada - um claro sinal de que o filme pode vir a ser selecionado para o festival que é hoje a maior vitrine do cinema internacional no mundo. Mas o prestígio do festival não abala Ruy, muito pelo contrário: "Hoje, Cannes deixa muito a desejar. É como o Oscar, um jogo de cartas marcadas, em que vence o filme que mais corresponde ao perfil do seu júri", afirma. Mesmo com esta restrição, ele diz que gostaria de obter um prêmio em Cannes, desde que o júri fosse presidido por alguém cuja obra ele respeitasse - caso de um Martin Scorsese, por exemplo.

Independentemente de ser selecionado ou não para ir a Cannes, Veneno da Madrugada condensa uma intenso esforço por parte de Guerra. Ele dedicou nada menos de dez meses e meio à adaptação do roteiro, baseado no livro La Mala Hora, de García Márquez. Trata-se de uma co-produção com a Argentina, por isso, tem dois atores desse país no elenco: Luis Luppi e Jean-Pierre Noher (este último, protagonista do filme Um Amor de Borges, de Javier Torre). Mas o ator principal é brasileiro: Leonardo Medeiros, o carismático intérprete de Lavoura Arcaica e do ainda inédito Cabra-cega, de Toni Venturi. No elenco, estão ainda Maria João, Rejane Alves, Zózimo Bulbul, Fábio Sabag e Tonico Pereira. A trilha musical é assinada por Guilherme Vaz, mesmo compositor de Filme de Amor, de Júlio Bressane.

As locações foram sediadas em Xerém (RJ), mesma cidade onde, anos atrás, Cacá Diegues filmou Quilombo. A trama se passa num único dia, num lugar onde chove todo o tempo, uma cidade sitiada pelas estradas intransponíveis, pela guerrilha e pelo ódio invencível do prefeito incorruptível (Medeiros) contra a oligarquia local. Para acirrar ainda mais os ânimos, alguém está colocando diariamente nas portas das casas bilhetes anônimos que escancaram os escândalos íntimos, como adultérios, que todos conhecem mas não ousam comentar em público. Praticamente todas as seqüências foram filmadas em Xerém, exceto algumas cenas no interior de uma igreja, em Caxias (RJ), e algumas cenas de barco, feitas na Argentina.

Um dos maiores expoentes do Cinema Novo, Guerra acha que o legado desse movimento ainda está bem presente, principalmente no que ele chama de "recusa de uma linguagem padrão". Professor de Cinema na Universidade Gama Filho, ele diz que observa essa permanência na bagagem cultural de seus alunos: "O Cinema Novo é sempre um parâmetro cultural que não se pode negar. Tentando-se ou não superá-lo, ele está sempre ali", destaca. Ele nega também o conceito generalizado de que os filmes do período tenham sido pouco vistos: "O Cinema Novo não foi um fracasso de público, como muitos dizem. Embora não tenha atingido as classes populares, alcançou a juventude e os formadores de opinião".

Sobre o cinema brasileiro atual, ele tem opiniões não raro extremas. Não gosta de Cidade de Deus, que considera "muito videoclipado", nem de Central do Brasil, que lhe parece "filme para exportação". Mas pondera, sobre Walter Salles, que admira Terra Estrangeira e também Diários de Motocicleta, que lhe parece "importante, bom, necessário, embora um pouco politicamente correto demais". Considera que em Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral, está "uma das cenas de amor mais belas da história do cinema" e também tem muitos elogios a Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, e ao ainda inédito Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat.

Para Guerra, é importante que o cineasta nunca perca de vista suas dúvidas. "Aquele que só trabalha com certezas, caminha para a mediocridade", acredita.

Cineweb 20-1-05 16h30

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