08/08/2026

"Menina de Ouro" é o campeão peso-pesado do Oscar

post-img
A noite foi mesmo de Clint Eastwood. Seu filme, Menina de Ouro,(foto) venceu quatro Oscar. Não foi o campeão de estatuetas: essa glória numérica ficou mesmo para o detentor da maior quantidade de indicações (11), O Aviador, de Martin Scorsese, que arrebatou cinco. Mas Clint nocauteou seu colega e venceu nas categorias mais importantes: filme, diretor (Clint), atriz (Hilary Swank, premiada pela segunda vez em sua carreira) e ator coadjuvante (Morgan Freeman).

Nenhum dos prêmios foi surpresa – aliás, nesse sentido, foi uma cerimônia sem uma única emoção. A única dúvida era se não haveria uma divisão nas categorias filme e diretor, indo cada um dos prêmios principais para um dos dois filmes, que eram tidos como favoritos. Isso não aconteceu. Clint Eastwood saiu consagrado, emergindo vencedor no grande debate em torno de seu filme, combatido por organizações de defesa da vida por abordar a eutanásia de um modo franco e não-religioso. A Academia ignorou a caça às bruxas movida por estas organizações e alguns comentaristas de rádio a Clint nas últimas semanas. Venceram a liberdade de expressão e a qualidade artística.

O ator Chris Rock, que debutou na função de apresentador da cerimônia, também não decepcionou quem esperava que usasse sua língua ferina. Sua vítima principal foi ninguém menos do que o presidente George W. Bush. Logo de cara, destacou que um de seus filmes favoritos era Farenheit 11 de Setembro, de Michael Moore, – que não foi indicado –, um crítico libelo contra Bush. Em seguida, Rock afirmou que, quando o presidente assumiu, os EUA tinham superávit de recursos financeiros; agora, tinham déficit monstruoso. “Imagine se o Bush trabalhasse na GAP (popular rede de lojas de roupas) e deixasse US$ 70 trilhões faltando no caixa!”, disse, arrancando gargalhadas da platéia.

Martin Scorsese, em compensação, pode sentir-se frustrado. Perdeu novamente em sua quinta indicação e justamente num ano em que pilotava uma superprodução com grandes chances. Seu filme venceu cinco estatuetas: direção de arte, figurino, atriz coadjuvante (Cate Blanchett), montagem (para sua colaboradora constante, Thelma Schoonmaker), e fotografia. Premiações que distinguiram a esplêndida qualidade técnica da superprodução que consumiu um orçamento superior a US$ 100 milhões. O astro Leonardo DiCaprio, que disputava aqui sua segunda indicação, também perdeu.

Na categoria ator, aliás, estava uma das certezas mais consolidadas da premiação. Ninguém duvidava de que Jamie Foxx venceria em Ray, por sua visceral encarnação do cantor Ray Charles, que acompanhou as filmagens e regravou as canções que aparecem na trilha do filme, igualmente vencedor na categoria mixagem de som.

Acabou bem, com a vitória do Oscar de melhor canção original, toda a polêmica dos últimos dias em torno da interpretação da canção Al Outro Lado del Río, do filme Diários de Motocicleta. O compositor e cantor, o uruguaio Jorge Drexler, o diretor do filme, Walter Salles, o produtor, Robert Redford, e outros membros da equipe protestaram contra o não-convite a Drexler para que interpretasse sua própria canção – a primeira em língua espanhola a disputar a categoria. Drexler aplaudiu educadamente na platéia a performance de Antonio Banderas, com o figurino e o timbre agudo de um cantor de flamenco, e do guitarrista Carlos Santana. Quando chamado a receber seu Oscar, porém, o compositor cantarolou ao microfone um trecho da música, antes de agradecer. Assim, teve um gostinho de vingança esse Oscar, o único a ter alguma ligação com o Brasil, pois foi Walter Salles quem convidou o uruguaio para compor a canção de seu filme (embora se trate de uma co-produção internacional).

Na platéia, Antonio Banderas fez o sinal da cruz quando foi anunciada a vitória de Drexler. O ator espanhol também vibrou com a premiação de melhor filme estrangeiro para a produção espanhola Mar Adentro, de Alejandro Amenábar – coincidentemente, outro filme que aborda a eutanásia, aliás, de forma mais direta e militante do que Menina de Ouro, de Eastwood.

Duas das produções que reuniram maior número de indicações e disputavam o troféu de melhor filme, Em Busca da Terra do Nunca e Sideways, tiveram de contentar-se apenas com uma estatueta cada uma: a primeira, na categoria trilha sonora, a segunda, roteiro adaptado. Menos do que os dois ótimos filmes mereciam. Também levaram um único Oscar Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (melhor roteiro original para Charlie Kaufman) e Desventuras em Série (melhor maquiagem) – coincidentemente, duas produções estreladas por Jim Carrey, que passou ao largo da indicação como ator. Homem-Aranha 2 ficou com a estatueta de efeitos visuais. Melhor performance teve o desenho Os Incríveis, que venceu dois troféus: melhor filme de animação e melhor edição de som.

Numa cerimônia que primou pela rapidez (durou menos de três horas), os dois mais longos agradecimentos couberam aos premiados como atores principais, Hilary Swank e Jamie Foxx. Hilary – que venceu seu primeiro Oscar em 2000, com Meninos não Choram (curiosamente, vencendo Annette Bening, o que tornou a ocorrer agora) – beijou o diretor Clint nos lábios, subiu ao palco e nomeou cada um da equipe, além do marido, Chud Lowe. Foxx, por sua vez, fez um pronunciamento ainda mais emocionado, lembrando a avó, que foi sua primeira professora e que já morreu – por isso ele foi às lágrimas ao afirmar que agora só fala com ela em seus sonhos.

O vencedor do Oscar honorário pelo conjunto da carreira, o diretor Sidney Lumet – outro injustiçado, várias vezes indicado e criador de filmes como O Veredito, Serpico, Doze Homens e uma Sentença e Um Dia de Cão - destacou seu tributo a colegas como Steven Spielberg, Akira Kurosawa e Buster Keaton e encerrou assim: “Quero agradecer ao cinema. Tenho o melhor trabalho na melhor profissão do mundo”.

Talvez para compensar a acidez de Chris Rock, o presidente da Academia, Frank Pierson, antes de entregar o Oscar a Lumet, dedicou a cerimônia da premiação às Forças Armadas americanas, atuando na guerra do Iraque. “Queremos que saibam que não esquecemos nunca de vocês e pedimos que voltem sãos e salvos para casa”, afirmou.

Notícias relacionadas