04/06/2026

Anne Cazenave Cambet e os perigos de ser mulher

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"Me Ame com Ternura"

Visitando o Brasil pela primeira vez, a jovem diretora francesa Anna Cazenave Cambet acompanhou o pré-lançamento de seu segundo longa, Me Ame com Ternura, que integrou a programação do 33º Festival MixBrasil depois de ter passado pela seção Un Certain Regard de Cannes, em maio.

O filme baseia-se num livro autobiográfico de Constance Debré e é um romance de auto-ficção em que a autora relata o enfrentamento com o ex-marido pela guarda do filho depois de assumir-se lésbica.

Protagonizado pela consagrada atriz luxemburguesa Vicky Krieps, interpretando a personagem Clémence, o filme é comentado pela realizadora numa entrevista exclusiva a Neusa Barbosa, do Cineweb, em São Paulo. 

Me chamou a atenção no filme como a justiça é muito moralista e permite que a mãe seja impedida de ver seu filho por dois anos e meio. Como isto é possível na França moderna? Isto foi realmente assim?

Sim, exatamente. Porque é um sistema judiciário muito lento, como percebemos no filme. A partir do momento em que o processo começa, ele vai ser extremamente lento. 

E isso dá ao pai tempo para que ele envenene o espírito de seu filho, que é apenas uma criança.

Sim. Na França temos várias histórias assim e há mesmo mulheres que acusam seus parceiros de violência doméstica e que ainda assim retêm a guarda dos filhos - o que ameaça a própria integridade das crianças. Mas trata-se verdadeiramente de um sistema patriarcal. 

Anna Cazenave Cambet (Crédito: Female Eye Film Festival/Instagram)

A personagem Clémence luta muito tanto para ser livre sexualmente quanto para ser mãe. E é terrível que ela tenha que lutar por isso.

Sim, especialmente porque querem levá-la a escolher ser totalmente mãe, quer dizer, de parar de querer criar,de querer ter suas histórias de amor, pois isso sim seria considerado ser uma boa mãe. O que me interessava na adaptação do livro é que uma mulher que decide se reconstruir, que decide reinventar sua vida, seja sempre uma mulher que sofre acusações. Em todo caso, na sociedade francesa e podemos dizer na sociedade europeia, às mulheres é sempre atribuído um determinado tipo de moral no que diz respeito à maternidade, seguir um modelo, um papel muito preciso. Eu mesma, quando me tornei mãe, fiquei muito perdida com isso. É curioso mas foi uma coisa que me abalou desde a maternidade, eu tinha a impressão de que havia receitas para tudo, que tudo deveria ser feito a partir de um determinado código determinante dos modos de fazer. Acho que esse dogma varia de acordo com os lugares mas continua sendo um dogma. Eu levei um tempo para descobrir onde me posicionar dentro disso. De um lado, havia a alegria de ter o meu filho. De outro, essa espécie de estatuto ao qual eu resistia muito. Eu não compreendia o que me exigiam. Conversando com minhas amigas, fui chegando à conclusão de que deveria agir de acordo com meu sentimento, parar de me cobrar todos os tipos de coisas que supostamente deveria saber. É uma pressão abominável, insuportável. Em última palavra, você se sente culpada.

As mulheres são sempre culpadas aos olhos da sociedade e da justiça (rs). Mesmo as assistentes sociais e psicólogas (que vc vê no filme) são muito limitadas moralmente, às vezes.

Sim. No meu filme eu queria que as pessoas duvidassem também de todas essas pessoas que têm esses encargos, que as pessoas não soubessem exatamente de que lado elas estavam. Fala-se muito em sororidade, em tolerância, mas elas não são tão simples de encontrar porque somos educadas para estar em competição umas contra as outras, a julgar umas às outras. Para mim este é verdadeiramente um tema para discutir, esse relacionamento entre mulheres, de se educar e também deseducar desse espaço que é de permanente julgamento, de desconfiança de umas em relação às outras. Na minha vida particular e no meu trabalho eu tento mudar isso. 

Mesmo as mulheres com quem Clémence mantém relacionamentos amorosos a pressionam a uma espécie de escolha, entre o amor e a maternidade. Especialmente a última, Sarah (Monia Chokri).

Eu acho que ela gostaria de ter um lugar maior na vida de Clémence, ela tem um desejo de constituir uma família com ela, mas que ela não pode compartilhar, porque o nível de pressão, dos anos de luta, é muito grande para Clémence. De todo modo, ela vê o menino como que ocupando o seu lugar, porque Clémence está muito desgastada por esse sofrimento. Então, esse drama ocupa um espaço que poderia ser destinado à sua história de amor. 

Vicky Krieps é uma atriz extraordinária. Como você entrou em contato com ela?

Levei um tempo para escolher quem poderia interpretar este papel. Eu procurava um determinado perfil de atriz que deveria fazer certas escolhas que não são fáceis em termos de sua carreira. Eu já conhecia o trabalho de Vicky mas precisei esperar que ela tivesse tempo de ler o roteiro, porque ela trabalha muito, é muito disputada. Mas finalmente ela adorou o roteiro, compreendeu totalmente o papel e imediatamente teve vontade de assumi-lo. E ela trabalha muito bem essa ambivalência da personagem, entre uma imensa força e uma enorme fragilidade.  

E com muita sutileza, porque o filme poderia facilmente tornar-se muito melodramático.

Esse era o meu receio. Tentamos trabalhar essas emoções em filigrana, guardar um tipo de pudor no jogo da interpretação. 

E ela trabalhou muito bem com o garoto (Viggo Ferreira-Redier). 

Sim, esse menino é ótimo. Foi um longo processo até encontrá-lo, mas ele é um garoto excepcional. Ele tem muita vontade de atuar e eu fico muito contente que ele prossiga na carreira, porque é isto o que ele realmente ama. Ele é formidável e extremamente sério no set, como um homenzinho. Ele é impressionante.  

Em 2017, você tinha feito um curta chamado “Iemanjá Coeur Océan”. Como se deu esta aproximação com a cultura afro-brasileira?

Durante meus estudos, eu tive a oportunidade de passar dois meses e meio em Buenos Aires. E lá eu descobri o sincretismo, os orixás e isto me fascinou muito. Voltando de Buenos Aires, eu deveria fazer um novo curta-metragem. Eu venho do sudoeste da França, bem perto do Oceano Atlântico e minha mãe tem uma ligação muito forte com o oceano como elemento. Ela não é nem um pouco mística, ao contrário, é muito cartesiana. Mas, ao mesmo tempo, o oceano lhe é muito particular, quando ela sente uma tristeza ela vai olhar o oceano, pega uma estrada para fazer isso. Então, sempre ocupou um lugar muito bonito essa ligação entre o oceano e minha mãe, é um elemento que me renova, no qual eu confio, então, tenho uma ligação também. Não sou também uma pessoa religiosa, mas descobri nessa deusa das águas uma figura atraente, uma deusa que reina sobre um elemento tão poderoso.

E o filme trata de uma história de luto, de dois jovens rapazes que fazem o luto por uma jovem pela qual os dois estiveram apaixonados, fazendo uma cerimônia em homenagem a Iemanjá para dar adeus a esse amor. 

Mas a história não se passa no Brasil, não?

Não, no sudoeste da França. Mas justamente o que eu achei bonito foi que eles se apropriam de uma cultura que não conhecem e então encontram uma outra coisa que lhes permite ter esperança. 

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