16/06/2026

Documentário brasileiro sobre comunidade intersexo estreia em festival inglês

Primeira partlamentar intersexo eleita na América Latina, Carolina Iara participa do documentário (Crédito: Divulgação)

Selecionado entre cerca de 4 mil inscritos para um dos festivais de cinema independente mais importantes do mundo, o documentário Let Us Be (Me deixa Ser) dirigido pela cineasta brasileira Viviane D’Avilla, fará sua pré-estreia mundial no Raindance Film Festival, em Londres, no próximo sábado.

Produzido por Mariana Marinho, da Dona Rosa Filmes, o longa é uma coprodução internacional em parceria com a Social Construct Films. A obra mergulha nas histórias íntimas de pessoas Intersexo no Brasil, Índia e Estados Unidos, um assunto raramente abordado, que discute identidade, autonomia sobre o corpo e a violência provocada por cirurgias realizadas sem consentimento em crianças nascidas com características do sexo que fogem dos padrões tradicionais do masculino e feminino.

A ideia do longa surgiu a partir da experiência da diretora com o curta-metragem GOPI, iniciado em 2015 durante uma viagem à Índia. Inicialmente interessada em investigar questões relacionadas à sexualidade, a partir do Kama Sutra e os Deuses hindus, Viviane D’Avilla ao longo de sua jornada conheceu o ativista intersexo indiano, Gopi Shankar, e passou a acompanhar sua ONG que resgata pessoas LGBTQIA+ que passam por violências e sua luta contra as cirurgias realizadas em bebês Intersexo no país.

No Brasil, o documentário acompanha Carolina Iara, primeira parlamentar intersexo eleita da América Latina, cuja trajetória reúne questões de gênero, raça e representatividade política. Submetida ainda criança a decisões médicas sobre seu corpo, ela hoje atua na defesa dos direitos da população intersexo. Outra figura central é Vidda Guzzo, pesquisadora e cofundadora da Intersex Brazil, que contribui para contextualizar a situação da intersexualidade no país e denuncia a histórica falta de informação pública sobre o tema.

Os personagens retratados no filme compartilham uma experiência comum: transformar a dor e a violência sofridas em ação política. Entre eles estão ativistas intersexo que converteram vivências marcadas por estigmatização, intervenções médicas e exclusão social em lutas por reconhecimento, autonomia corporal e direitos humanos. Nos Estados Unidos, destacam-se Hida Viloria, pioneira do movimento intersexo internacional e articuladora de ações junto à ONU; Tiger Devore, que revisita os traumas causados pelas cirurgias realizadas para adequar seu corpo aos padrões de masculinidade; e a estadunidense Lyss Ball, educadora e criadora de conteúdo que utiliza as redes sociais para promover debates sobre identidade, espiritualidade e autoaceitação.

A dimensão internacional da narrativa se amplia com a presença de Aanandh Rajappan, na Índia. Diferentemente de muitos intersexo, ele cresceu sem passar por cirurgias corretivas, graças à decisão de sua mãe de preservar seu direito de escolha. Sua história evidencia os desafios de conciliar identidade, família, religião e pertencimento em uma sociedade marcada por tensões entre tradição, espiritualidade e diversidade. Juntas, essas trajetórias revelam diferentes realidades culturais, mas convergem na defesa da autodeterminação e da dignidade das pessoas intersexo.

Embora o tema ainda seja pouco discutido no audiovisual, a estimativa citada no longa aponta que cerca de 1,7% da população mundial possui alguma característica intersexo, número semelhante ao da população ruiva no planeta. O filme ganha ainda mais relevância diante do atual cenário político e social global, em que corpos e existências que fogem dos padrões normativos seguem sendo controlados, silenciados ou violentados por estruturas médicas, sociais e culturais.

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