A Cinemateca Brasileira e o Istituto Italiano di Cultura di San Paolo apresentam uma retrospectiva dupla dedicada a Federico Fellini e Joaquim Pedro de Andrade, de 15 a 26 de julho. A mostra propõe aproximar suas obras, explorando afinidades na obra dos dois diretores..
A programação reúne dois cineastas que, em contextos históricos e culturais distintos, transformaram o cinema em um campo de reflexão sobre a imaginação, a memória e a construção das identidades coletivas. Federico Fellini (1920–1993), nascido em Rimini, iniciou sua trajetória como roteirista no pós-guerra italiano e rapidamente se tornou uma das figuras centrais do cinema moderno. Partindo do neorrealismo e suas colaborações com Roberto Rossellini, Fellini desloca progressivamente esse paradigma em direção a uma poética própria, na qual o gesto autobiográfico funciona menos como confissão e mais como estratégia formal.
Filmes como Os Boas Vidas, A Estrada da Vida, Noites de Cabíria, A Doce Vida, 8½, Amarcord e Julieta dos Espíritos reinventam o realismo ao fazer do sonho, da memória e do espetáculo dimensões inseparáveis da experiência humana. Nesse deslocamento, o que se convencionou chamar de realismo fantástico não aparece como fuga do real, mas como um modo de torná-lo mais legível.
No Brasil, Joaquim Pedro de Andrade (1932–1988) surge no contexto do Cinema Novo, movimento que buscava pensar o país a partir de suas contradições sociais, históricas e culturais. Filho do modernista Rodrigo Mello Franco de Andrade, Joaquim Pedro herda também uma tradição intelectual voltada à construção crítica da identidade nacional. Sua obra atravessa diferentes gêneros do cinema brasileiro - do documentário à ficção ensaística, da antropologia à sátira - em filmes como O Mestre de Apipucos, O Poeta do Castelo, Couro de Gato, Garrincha, Alegria do Povo, Cinema Novo, O Padre e a Moça, Macunaíma, Os Inconfidentes, Guerra Conjugal, Vereda Tropical, O Aleijadinho e O Homem do Pau-Brasil. Em todos eles, o Brasil aparece menos como tema fixo do que como problema em construção: uma identidade atravessada por tensões entre modernidade e tradição, erudição e cultura popular, mito e história.
Entre Fellini e Joaquim Pedro, as aproximações não se dão por influência direta, mas por afinidades estruturais. Ambos tensionam os limites do realismo cinematográfico, transformando o visível em matéria maleável, permeada por fantasia, alegoria e crítica cultural. Aqui, o realismo fantástico pode ser compreendido menos como gênero do que como procedimento: uma forma de tornar visível aquilo que o realismo estrito não consegue conter: o excesso, o sonho, a memória deformada, a história em estado de ficção permanente.
Há ainda um ponto de contato decisivo na maneira como ambos trabalham a ideia de identidade nacional. Em Fellini, a Itália se apresenta como um teatro de excessos: provinciana e cosmopolita, devota e profana, monumental e grotesca. Em Joaquim Pedro, o Brasil surge como narrativa em disputa, marcada por projetos modernistas, pelo barroco mineiro, pela antropofagia e pelas promessas e fracassos da modernização.
A retrospectiva apresenta cópias restauradas de alguns dos filmes mais importantes dos dois diretores, oferecendo ao público a oportunidade de revisitar esse diálogo imaginário entre Roma e Rio de Janeiro, entre Rimini e Minas Gerais, entre o delírio autobiográfico e a crítica histórica.
A Cinemateca contou também com a parceria da FJ Cines, que gentilmente cedeu suas cópias restauradas de A Doce Vida, 8½, Os Boas Vidas e Julieta dos Espíritos.
A programação é gratuita e os ingressos são distribuídos uma hora antes das sessões.
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana
Horário de funcionamento
Espaços públicos: de segunda a segunda, das 08 às 18h
Salas de cinema: conforme a grade de programação.
Biblioteca: de segunda a sexta, das 10h às 17h, exceto feriados
Sala Grande Otelo (210 lugares + 04 assentos para cadeirantes)
Sala Oscarito (104 lugares)
Espaço Alberto Cavalcanti (Área externa) (300 lugares)
Retirada de ingresso 1h antes do início da sessão
