16/08/2026

Suspense na Antártida inicia Festival de Gramado

Gramado - A 54ª edição teve uma abertura um tanto fria e não por conta da temperatura, até relativamente amena por aqui. Em parte, isso pode ter tido relação com o tema difícil, embora muito necessário, de Antártida, o filme de Bruno Safadi que inaugurou a noite - o que não deixa de ser uma atitude corajosa da comissão de seleção.

O roteiro, assinado por Cláudia Jouvin, percorre uma série de mazelas desencadeadas pela masculinidade tóxica: estupro, violência doméstica, resistência à autoridade feminina, tudo isso no ambiente da estação brasileira de pesquisas na Antártida - local que foi recriado num estúdio de 1000m², no Rio de Janeiro, com uso de máquina de neve, efeitos de vários tipos e muitos testes ao longo de um ano. Por todos esses temas e a tensão permanente, um filme para se assistir com a respiração suspensa. 

No entanto, a declarada intenção de criar um suspense claustrofóbico impregnado de questões de gênero - a homossexualidade será lembrada também num segmento - desequilibra-se numa narrativa que parece querer enfeixar não só assuntos como situações demais, sempre no limite da exasperação, retirando tempo e energia de um aprofundamento nos inúmeros personagens - que são interpretados por um elenco notável, encabeçado por Andréa Beltrão, indiscutivelmente carismática e potente como Elisabeth, a subcomandante da estação. Leandra Leal também segura com firmeza o papel de Marina, a médica da estação que tenta desvencilhar-se do relacionamento abusivo com o marido, o capitão Vicente (Lázaro Ramos). 

Como a vítima da maior violência dentro do enredo, Marina Ruy Barbosa destoa, numa interpretação irregular de Inês, a jovem especialista em glaciologia que chega à estação e vira foco dos desejos de todo o contingente masculino por seu comportamento mais livre - em que a atriz injeta um descabido exagero. 

Um pouco mais de sutileza faria bem à história, que avança um tanto sobrecarregada nessa profusão de subtemas e dos conflitos também dos personagens masculinos, interpretados por Adélio Lima, Gero Camilo, João Vitor Silva, Renan Monteiro, Henrique Barreira e Marcos de Andrade. Mas as escolhas da direção e produção parecem ter sido mais no sentido de enfatizar um tom algo folhetinesco, que pode funcionar ou não junto a um grande público - que terá a oportunidade de conferir a superprodução (cujo orçamento a produtora Isabela Bellenzani não quis informar na coletiva), que estreará nos cinemas em 17 de setembro.

O festival prossegue hoje com a exibição de dois longas: Feito Pipa, de Allan Deberton, que teve estreia mundial em Berlim, vencendo vários prêmios ao redor do mundo, e o documentário O Projeto, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic.

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