04/11/2026

Ministério Público reabre investigação sobre morte de Pasolini na Itália

Pier Paolo Pasolini, no set do filme "A Ricota" (Crédito: Divulgação)

Novas evidências, imagens de arquivo da televisão italiana e a possibilidade de ouvir uma testemunha reacendem as apurações sobre o assassinato do cineasta, ocorrido em 1975

Mais de cinco décadas depois do assassinato de Pier Paolo Pasolini, o Ministério Público de Roma determinou a retomada das investigações sobre a morte do cineasta, poeta e escritor italiano. A decisão foi motivada por um novo conjunto de elementos apresentado pelo advogado criminalista Stefano Maccioni, que há 18 anos se dedica a esclarecer as circunstâncias do crime.

Pasolini tinha 53 anos quando seu corpo, com sinais de espancamento e extrema violência, foi encontrado em 2 de novembro de 1975, no Idroscalo de Ostia, região litorânea próxima a Roma. Intelectual de esquerda e homossexual assumido, o artista era uma das figuras mais provocadoras da cultura italiana. Sua obra transitava entre questões religiosas, críticas sociais e uma visão secular do mundo.

Na época, Giuseppe Pelosi, conhecido como Pino e então com 17 anos, afirmou ter sido procurado por Pasolini em Roma para um encontro sexual. Ele confessou o assassinato poucas horas depois e acabou condenado a nove anos e sete meses de prisão.

As circunstâncias do crime, porém, nunca deixaram de despertar dúvidas. Ao longo dos anos, Pelosi apresentou diferentes versões sobre o ocorrido. Inicialmente, sustentou ter agido sozinho, mas depois afirmou que outras pessoas participaram da agressão. Em 2005, durante uma entrevista à televisão italiana, voltou atrás em sua confissão. Pelosi morreu em 2017.

As contradições alimentaram suspeitas de que o assassinato pudesse ter envolvido outros responsáveis e um possível acobertamento. Ao longo das décadas, livros, filmes e investigações jornalísticas levantaram hipóteses que apontavam para o crime organizado, setores da extrema-direita italiana e grupos de chantagistas. Essas suspeitas, entretanto, não foram comprovadas.

Novos elementos na investigação

Segundo informações da agência italiana ANSA, um dos pontos apresentados pelo advogado Stefano Maccioni é a existência de uma possível testemunha que ainda não teria sido ouvida pelos investigadores. Essa pessoa poderia fornecer informações sobre o contexto da agressão que resultou na morte do cineasta. Sua identidade não foi divulgada.

O pedido de reabertura também se apoia na análise de imagens de telejornais da RAI, emissora pública italiana, referentes à época do assassinato. Para Maccioni, a avaliação desse material, em conjunto com outros dados reunidos ao longo dos anos, reforça a necessidade de investigar se Pelosi estava acompanhado por outras pessoas naquela noite.

Outro aspecto importante envolve vestígios genéticos encontrados em peças de roupa e objetos relacionados ao crime. Exames realizados pelos carabinieri do RIS, unidade especializada em investigações científicas, identificaram cinco marcas de DNA que não puderam ser atribuídas a pessoas específicas. Esses vestígios já haviam sido examinados em procedimentos anteriores, sem que fosse possível estabelecer a identidade dos envolvidos.

A nova investigação foi confiada à promotora Silvia Santucci e decorre de um pedido apresentado por Maccioni em novembro de 2025, posteriormente complementado em maio de 2026.

O advogado já havia solicitado novas diligências em 2016 e 2023, mas as iniciativas foram rejeitadas pelo Ministério Público. Em 2010, também havia sido aberto um inquérito para aprofundar as apurações, encerrado cinco anos depois.

Maccioni, que publicou dois livros sobre o assassinato e as investigações, recebeu a decisão com satisfação, embora reconheça que o caminho ainda será longo. Em declarações ao The New York Times, comparou as evidências reunidas a pequenos fragmentos de um enorme quebra-cabeça e afirmou que, sempre que tenta deixar o caso de lado, algo o leva novamente a investigá-lo.

Pedido de comissão parlamentar

A retomada das investigações também provocou manifestações no meio político italiano. A senadora Ilaria Cucchi, da Alleanza Verdi e Sinistra, considerou a decisão uma boa notícia e informou ter apresentado, junto a parlamentares da oposição, uma proposta para a criação de uma comissão parlamentar de investigação. O objetivo seria contribuir para esclarecer historicamente um dos assassinatos mais controversos da Itália.

A nova iniciativa do Ministério Público reacende a expectativa de que, depois de 51 anos, seja possível avançar na compreensão das circunstâncias da morte de Pasolini. A participação de outras pessoas no crime, porém, permanece uma hipótese que ainda precisa ser investigada e comprovada.

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