25/06/2026

Diretora francesa discute o politicamente correto em “Questão de Imagem”

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Depois de visitar o Brasil com o seu premiado O Gosto dos Outros, a atriz, roteirista e diretora francesa Agnès Jaoui (foto) volta ao país para o lançamento de Questão de Imagem, que estréia em São Paulo e no Rio nesta sexta (1/4). Naquela época, ela era uma atriz e roteirista conceituada, mas estreava na direção. Agora, depois de diversos prêmios com os dois filmes, a cineasta se sente mais segura e menos ansiosa com seu trabalho.

O Gosto dos Outros ganhou diversos prêmios, como o César de melhor filme, roteiro e ator coadjuvante – além de ser indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Um dos principais prêmios de Questão de Imagem foi o de melhor roteiro no Festival de Cannes, em maio passado. Este é o sexto filme que a cineasta escreve – todos em parceria com o também ator Jean-Pierre Bacri.

Ela conta que escrever a quatro mãos sempre deu certo para a dupla. “Trabalhamos geralmente das 15h às 19h, discutindo sobre os temas, debatendo os assuntos que queremos abordar. Depois levamos de 6 a 7 meses para escrever a história e depois partimos para os diálogos”, conta explicando o método de trabalho.

O tema central do filme é a imagem. Ou melhor, as imagens: aquela que somos e aquela que as pessoas fazem de nós. A protagonista é Lolita (Marilou Berry), que sonha em ser cantora lírica e não liga muito para o fato de estar acima do peso. Por isso, as pessoas insistem que ela precisa cuidar mais de sua imagem, perder uns quilinhos.

Para Agnés, existe um preconceito muito grande – ou um excesso de zelo politicamente correto – e as pessoas temem até em usar a palavra “gorda”. “Eu notei isso em Cannes, quando eu evitava falar ‘gorda’. Então perguntei para a Marilou se podia dizer que ela é gorda. E ela disse que sim, sem problemas”, conta.

“É um preconceito tão grande quanto o racismo”, afirma a cineasta, explicando que a própria atriz Marilou se sente muito bem com a sua imagem – diferente do personagem no filme. “Ela está bem como é, nem pensa em emagrecer”, acrescenta.

Marca Registrada - Com o premiado Questão de Imagem (que também ganhou o prêmio de roteiro no European Film Awards), Agnès e Bacri parecem ter firmado a sua marca registrada, que vinham buscando desde o primeiro filme Smoking/No Smoking (1993), de Alain Resnais, baseado na peça de Alan Ayckbourn.

“A peça já tinha temas que nos interessavam, pontos em comum com os filmes que viemos a fazer depois”, explica Agnès. “Tenho paixão pelos seres humanos, pelo determinismo e como é difícil mudar para sermos felizes”, filosofa. “Escrever pode ser a parte mais difícil e chata de fazer um filme, mas é onde se tem maior liberdade e força”, explica.

Em Questão de Imagem o conflito central está na mudança daquilo que as pessoas são para aquilo que as outras pessoas esperam que elas sejam. Como Lolita, que tudo mundo quer ver magra; ou Étienne que, de tão egoísta, vai perdendo os amigos e as pessoas que ama.

Questão de Imagem está chegando nos cinemas brasileiros no mesmo dia que nos cinemas americanos. E Agnès sabe que as reações serão diferentes. “No Brasil as pessoas gostaram mais de ‘O Gosto dos Outros’. Nos EUA só os críticos gostam. E sinto que nunca encontro meu público naquele país”, desabafa.

Acúmulo de funções - A formação como atriz de Agnès certamente a tem ajudado como diretora. Afinal, além de um excelente roteiro, seus dois longas também primam por uma direção competente – principalmente de atores. “Eu acredito no ensaio. Ensaiamos muito antes de começar a efetivamente rodar o filme. Além disso, acho preciso criar uma intimidade entre elenco e técnicos”, explica.

Com esse seu método, seu objetivo é fazer o público e seu elenco esquecer que há uma câmera ali. “Sempre penso no público quando rodo uma cena. Quero que a direção seja a mais discreta possível. E por isso costumo fazer seqüências longas”, explica.

Agnès diz que também mudou sua postura como atriz depois que começou a dirigir. Depois de O Gosto dos Outros, ela já atuou em quatro filmes, e conta que não é a mesma. “Tento ser sempre pontual, por exemplo. Sei o quanto cinco minutos de atraso de uma atriz atrapalham a vida de um diretor”, brinca.

Mas a mudança mais radical foi que a partir de então ela escolhe roteiros nos quais possa estar a serviço do diretor. Isso não quer dizer que tente dar sugestões aos diretores. “Não quero competir com o diretor no set. Só tem um chefe”, brinca.

Seu próximo trabalho como cineasta é um segmento do longa Paris Je T’Aime, que é dirigido por vários profissionais – inclusive Walter Salles e Daniela Thomas, Jean-Luc Godard e os irmãos Coen. Agnès não queria participar do filme, mas quando soube que seu segmento teria Gena Rowlands e Ben Gazzara, ela acabou aceitando o projeto. Suas cenas começam a ser filmadas em meados deste ano.

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