25/09/2026

Documentários de qualidade na terceira noite do Cine PE

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A terceira noite do Cine PE – Festival do Audiovisual,em Recife, nesta sexta (15), foi toda dos documentários. Os dois longas do gênero, concorrentes da competição principal, Aboio, de Marília Rocha, e Soy Cuba – El Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz, brilharam pela qualidade. Mas, visivelmente, o público preferiu o segundo ao primeiro.

Poético e rigoroso, Aboio - que venceu a competição nacional do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários – claramente exige uma adesão maior da platéia e não houve essa disposição de boa parte do público do Cine-Teatro Guararapes, que abandonou a sala bem antes do final da projeção. Aos que ficaram, no entanto, houve a oportunidade de desfrutar de um espetáculo de sensibilidade e acabamento da maior qualidade – muito embora o som da sala, particularmente ruim na noite de ontem, tenha atrapalhado bastante o entendimento de suas falas.

Filmado no interior de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais, Aboio reconstitui o universo dos vaqueiros tradicionais, tocadores de boiadas pelo Brasil profundo, figuras em processo de franco desaparecimento. Com um apuro visual excepcional, usando diversas texturas e tratamentos de cor, o filme evoca uma atmosfera mítica, como o grande sertão imortalizado nas obras do escritor mineiro Guimarães Rosa.

A lembrança do universo de Rosa não foi por acaso. Na coletiva de imprensa, neste sábado, a diretora lembrou que pensou em usar trechos dos livros desse autor no filme. Depois, desistiu. No entanto, de um dos relatos dos vaqueiros emergiu, justamente, a narrativa sobre uma mulher-vaqueira, que a princípio não se sabia se era homem ou mulher – em tudo lembrando o dilema central de Diadorim e Riobaldo, de Grande Sertão, Veredas.

O segundo documentário, Soy Cuba- El Mamute Siberiano, último filme exibido na noite, já foi bastante aplaudido e com platéia lotada. Com imagens e entrevistas de grande qualidade, a produção reconstrói a trajetória maldita da primeira produção cubano-soviética, Soy Cuba (disponível em DVD no Brasil), de Mikhail Kalatozov. Feito entre 1963/1964, o filme, que se pretendia o primeiro de uma série de cooperações entre os dois países comunistas, acabou sendo mal aceito nos dois e rapidamente posto fora de circulação. A partir de sua recente redescoberta e reavaliações feitas por cineastas como Martin Scorsese, o filme original passou a ser revisto. E o documentário de Ferraz será um poderoso instrumento deste processo – que implica repensar algumas décadas do final do século XX, sua arte e sua política.

CURTAS

Foi mal a noite na categoria dos curtas-metragens – particularmente prejudicados, também, pelo som da sala. Mesmo assim, o problema não conseguiu empanar totalmente o brilho dos dois melhores da edição de sexta, Visita Íntima, de Joana Nin, um sensível mergulho no mundo das mulheres de presidiários filmado no Paraná, o cearense A Velha e o Mar, Petrus Cariry, sobre uma velha moradora de uma ponte ameaçada de demolição, e Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho (já premiado no Festival de Brasília 2004).

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