04/06/2026

Primeira noite do XV Cine Ceará comprova primazia dos documentários

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Vitórias sobre adversidades físicas, econômicas e emocionais estamparam a enorme tela do Cine São Luiz na primeira noite de competição do XV Cine Ceará. Ao longo das quase cinco horas de exibição os curtas e longas que disputam os prêmios focavam em histórias pessoais, verdadeiras ou fictícias, mostrando personagens lutadores.

Isso não quer dizer que os filmes fossem produções vitoriosas. O documentário A Pessoa é para o que Nasce, primeiro longa em competição, foi aplaudido pelo público três vezes. Dirigido por Roberto Berliner, conta a trajetória de três irmãs cegas e cantoras que ganham a vida se apresentando em feiras pelo interior do Nordeste.

O documentário já foi exibido em diversas mostras e festivais desde o ano passado e já estreou em algumas capitais. Durante a sua apresentação do filme, diretor Berliner apontou que essa é uma versão nova do longa que ganhou mais uns minutos no final, mostrando as irmãs com o presidente Lula.

Por Trinta Dinheiros, o longa de ficção da noite, não conseguiu a mesma acolhida – até porque a sessão começou mais de meia-noite e a sala foi se esvaziando. Ao final, os aplausos foram apenas educados.

O longa da paraibana Vânia Perazzo Barbosa e do belga Ivan Hlebarov é uma comédia alegórica que segue um circo mambembe numa apresentação da Paixão de Cristo. No entanto, os atores que fazem papel de Jesus e São Pedro fogem com o dinheiro. Biu, dono do circo e intérprete de Judas, sai em busca da dupla.

O longa é dedicado ao dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (autor de Auto da Compadecida, entre outros textos), ficando nítida a homenagem que a dupla de cineastas faz ao universo do escritor. Em muitos momentos, Por Trinta Dinheiros lembra bastante o Auto. O roteiro, aliás, é o que o filme tem de menos problemático – apesar de ligeiramente confuso, esquemático e com várias pontas soltas. Personagens aparecem e desaparecem sem dizer de onde ou para o que vieram. A tentativa de levar o irônico, o surreal e um pouco de humor nonsense o para o interior da Bahia não funciona direito.

A inexperiência dos diretores, aliada à opção de fazer um filme visivelmente teatral (homenagem ao teatro mambembe e a Suassuna), faz da comédia um espetáculo monótono e sem timing para fazer rir. A opção pelo overacting também aumenta a distância entre o público e a obra.

O produtor Heleno Bernardo acredita que a melhor maneira de lançar o longa é exibindo-o no interior do Brasil, principalmente no Nordeste e depois partir para os grandes centros urbanos. O curioso foi que, ao final da sessão, uma voz anônima e solitária na platéia bradava que Gláuber não morreu. “Viva Glauber”, concluiu o fã, tentando estabelecer um elo entre Por Trinta Dinheiros e o pai do Cinema Novo.

Curta fora de competição rouba atenções
Nenhum dos três curtas apresentados em competição despertaram grandes emoções na platéia. Apesar do jovem diretor paulista André Francioli ter pretensões de despertar na platéia sentimentos radicais como amor ou ódio – como ele mesmo disse – seu curta Veja & Ouça - Maria Baderna no Brasil parece não ter tido o resultado esperado. O curta recebeu aplausos meramente educados – não sendo nem apaixonadamente ovacionado nem vaiado. O filme é uma homenagem ao cinema marginal dos anos 70 – mais especificamente ao de Rogério Sganzerla, a quem o é dedicado. Nesse sentido, Francioli conseguiu cumprir sua meta, ao fazer um filme anacrônico e hermético.

Segundo a curta-metragista brasiliense Cibele Amaral, com o XV Festival do Ceará ela encerra a premiada trajetória de seu curta em mostras nacionais. Agora, ela capta verba para transformá-lo num longa. A Velha e o Mar, de Petrus Cariry (filho do famoso cineasta cearense Rosemberg Cariry) mostra a vida de uma mulher moradora de um casebre nas ruínas de uma ponte em Fortaleza.

Porém, apesar de bem realizado e interessante, o curta de Cariry teve a falta de sorte de ser exibido poucos minutos depois de Uma Pescadora Rara no Litoral do Ceará, de Sidnéia Luzia da Silva. O filme da jovem estreante tem como personagem central ela mesma – uma pescadora, que quebrou barreiras e enfrentou preconceitos para trabalhar num nicho dominado por homens.

O filme faz parte do Projeto Rodando os Brasis, que estreou neste festival e mostra trabalhos produzidos por realizadores de diversas cidades por cineastas estreantes que receberam apoio do governo para a produção do filme. Apresentado pelo Secretário do Audiovisual Orlando Senna (que voltou a mencionar o assunto da descentralização de verbas), foi a produção de maior sucesso da noite.

A despretensão de Sidnéia fez de seu curta um trabalho não apenas inteligente e divertido, mas também honesto. O que poderia ser mero exercício de egocentrismo – já que ela escreveu, dirigiu e é o assunto do documentário – se transformou numa apologia ao feminismo e ao poder feminino. Trabalhando num ambiente dominado por homens, ela conseguiu romper preconceitos, inclusive dentro de sua família, e se estabelecer na sociedade local.

Apesar da direção com alguns problemas, o carisma de Sidnéia e a montagem competente fazem com que Uma Pescadora Rara no Litoral do Ceará contorne os seus problemas e se saia bem. Não será nenhuma surpresa se ganhar prêmios em festivais pelo Brasil, ou se a cineasta fizer outra produção em breve.

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