25/06/2026

Retratos de pessoas do povo na última noite de competição no Cine Ceará

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Como bem lembrou o jovem cineasta José Rafael Mamigonian, do longa em competição Seu Chico: Um Retrato, os filmes exibidos no XV Cine Ceará na noite da quarta-feira tiveram que dividir atenções com o jogo da seleção brasileira. Mesmo assim, curiosamente, não houve uma debandada muito grande do cinema. As pessoas que ficaram para conferir o documentário tiveram a chance de conhecer um filme singular.

Gostar ou não do longa de Mamigonian é algo discutível, mas a qualidade técnica e artística do filme é inegável. O personagem central é Seu Chico, um senhor de pouco mais de 60 anos que resiste à industrialização dos alambiques produzindo cachaça de forma tradicional. Como observou o cineasta paulista Carlos Reichenbach, durante o debate com os realizadores na manhã da quinta-feira, Seu Chico se desenvolve num tempo próprio. “É corajoso, audacioso. Exige disponibilidade e atenção é anticonvencional e anti-careta”, afirmou o cineasta. Além disso, Carlão lembrou que a cena final do longa é uma das mais belas do cinema nacional recente. “Vale a pena esperar uma hora e meia para ver a seqüência final”, complementou.

Mamigonian contou que, durante a produção do filme, um fato inesperado mudou os rumos do documentário. Isso está registrado na tela e marca um novo rumo na narrativa. Mesmo sabendo da dificuldade de comunicação do longa com o público, o documentarista confia nas possibilidades do seu trabalho. “Acredito que o filme se complete na cabeça e coração do público”, aposta.

Um dos pontos altos deste documentário é a fotografia feita pela colaboração de dois profissionais veteranos da área, Dib Lufti e Mário Carneiro, que nunca haviam trabalhado juntos. “Um assumiu a fotografia que o outro não pôde terminar num filme de Domingos Oliveira. Mas nunca haviam trabalhados juntos ao mesmo tempo”, explicou Mamigonian. “Trabalhar com eles foi uma das experiências mais lindas da minha carreira”, confessou.

De curta a longa
A primeira versão de Seu Chico foi um curta-metragem. O cineasta começou montando um curta, mas achava que esse trabalho não fazia a devida justiça ao personagem e ao assunto, por isso ampliou o trabalho. Além disso, acontecimentos inesperados dão uma outra dimensão ao seu filme.

O curta-metragista Tibico Brasil, que também estava presente ao debate, pois apresentara o seu Canoa Veloz, que co-dirigiu com Joe Pimentel, confessou que também tem planos de aumentar seu filme de 13 minutos. “Tenho mais material, acho que daria um média. Mas não me interesso pelo formato do longa”, explica. Tibico contou que, para ele, há três razões para dar um curta por encerrado: “A primeira é o final do dinheiro, a segunda é a proximidade de um festival no qual você quer participar, e a terceira é perder o encanto pelo tema, pelo filme”. Tibico também disse que, para ele, era fundamental estrear o curta no Cine Ceará. E isto ele conseguiu com louvor.

Canoa Veloz foi um dos filmes mais aplaudidos do festival. O curta mostra o dia-a-dia de quatro pescadores de lagostas que falam, entre outras coisas, da possibilidade do fim do tipo de trabalho que eles fazem. As belas imagens vêm da formação de fotógrafo do diretor. “Eu queria fazer um filme bonito. A imagem era importante para mim. Mas eu tinha muito medo de transformar num Globo Repórter ou num especial do National Geografic”, explicou, referindo-se ao formato televisivo, “e, por isso, busquei minha própria linguagem”.

O homenageado da noite foi o cineasta cearense Rosemberg Cariry, que foi aplaudido de pé. Como se tornou costume, o diretor tocou no assunto da descentralização dos investimentos na cultura, ressaltando a importância da aplicação de verbas em outras regiões além do sul e sudeste. Entre os presentes, estavam a atriz Dira Paes e o ator Chico Díaz, dois constantes colaboradores de Cariry. A belíssima Dira estava visivelmente emocionada e em seu discurso se declarou uma apaixonada por Cariry. “Ele sempre poderá contar comigo para o que precisar”, afirmou.

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