25/06/2026

Gramado sem favoritos na reta final

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Gramado – A quarta noite do festival, quinta-feira, trouxe a reabilitação da cineasta paulista Mara Mourão. Ela deixou para trás a má impressão junto à crítica de seu filme anterior, Avassaladoras, revelando sensibilidade como documentarista na realização de Doutores da Alegria. O filme apresenta o trabalho de atores que trabalham voluntariamente como palhaços junto a hospitais infantis, contribuindo para atenuar a aspereza do cotidiano de milhares de crianças, muitas sofrendo os efeitos de tratamentos dolorosos e prolongados.

Em compensação, o longa nacional de ficção,Sal de Prata, novo filme do gaúcho Carlos Gerbase, revelou-se pouco mais do que um tedioso exercício de estilo. Nome ligado à Casa de Cinema de Porto Alegre, ao lado de Jorge Furtado, Gerbase desfruta de um merecido conceito profissional, como roteirista de minisséries de TV, como Engraçadinha e O Memorial de Maria Moura, e curta-metragista premiado em Gramado. Entretanto, este seu segundo longa (o primeiro foi Tolerância, em 2000), apesar de desenvolvido em cooperação com o laboratório do Festival de Sundance, não concretiza a contento suas aspirações.

Na primeira metade do filme, até é possível ser otimista. Uma analista financeira (Maria Fernanda Cândido) e um cineasta frustrado (Marcos Breda) vivem um romance. Ele morre repentinamente, deixando alguns roteiros inéditos em seu computador. A partir desses textos, ela começa a redescobrir o namorado, imagina seu envolvimento com uma atriz (Camila Pitanga) e termina enredada, como o falecido, nesse confuso território onde é difícil separar a realidade da ficção.

Bem filmado, contando com as belíssimas figuras de Maria Fernanda e Camila, o filme falha por não desenvolver apropriadamente uma estrutura dramática com a qual os espectadores possam se envolver. Todo esse conflito entre realidade e ficção, cinema em película e digital (que explica o título, que se refere ao elemento de revelação da película) acaba sendo, afinal, um assunto que interessa apenas a cineastas.

Na mostra latina, apresentou-se ontem o concorrente cubano Roble de Olor, de Rigoberto López, outro filme estrelado por Jorge Perugorría – que está em Gramado -, além do nacional Gaijin – Ama-me como Sou. Ao longo de arrastados 147 minutos, recria-se a Cuba do século XIX, quando o fazendeiro alemão don Suchay (Perugorría) une-se a uma haitiana independente e destemida (Lia Chapman) para construir uma utópica fazenda de café, chamada Angerona, onde os trabalhadores negros não são tratados como escravos. Eles vivem num sistema igualitário e formam uma orquestra de violinos, despertando a fúria dos poderosos da ilha.

Embalado por muita música adocicada, o filme cubano é mais um representante do “cinema-novelão”, que teve entre seus exemplares o português Kiss Me e o nacional Gaijin. Ou seja, um tipo de cinema que faz concessões a todo tipo de simplificação e clichê dramatúrgico, assim como na fotografia e montagem, imitando (mal) a estética das novelas e empobrecendo sua própria arte.

A não ser que aconteça uma grande surpresa na noite de hoje, a última da mostra competitiva do 33º Festival de Gramado, é impossível chegar a uma outra conclusão de que a presente edição não apresentou nenhum grande filme. O que já permite imaginar que a produção nacional este ano não atingiu nem mesmo a quantidade de anos anteriores (o que limitaria a oferta de filmes para serem selecionados neste e em outros festivais), com prejuízo também da qualidade. Só se faz cinema de qualidade quando há condições de uma produção constante, que possa chegar ao público e criar condições de uma indústria. O que no Brasil continua difícil.

Nesse sentido, é muito bem-vindo o manifesto lançado aqui, do carioca Domingos de Oliveira, em prol do “Baixo Orçamento e Alto Astral”. É preciso fazer filmes, ainda que não sejam os ideais nas condições existentes. E o seu modesto Carreiras, apesar dos pesares, tem mais integridade do que outros filmes que visivelmente contaram com mais recursos – caso de Sal de Prata, por exemplo. Os dois filmes gaúchos, Sal de Prata e O Cerro do Jarau, de Beto Souza, aliás, são exemplos de um cinema cheio de referências e cacoetes estilosos, supostamente intelectualizados, mas que se mostram frios e divorciados do público. Não parecem ter condições de prosperar nas salas. Serão provavelmente vistos por poucos, antipatizados por muitos e se continuará procurando a fórmula para conciliar sofisticação de proposta e sintonia com o público.

Cafundó, de Paulo Betti, padece de um defeito parecido. Embora bem-feito e contando com interpretações apaixonadas dos sempre talentosos Lázaro Ramos, Leona Cavalli, Leandro Firmino da Hora e Flávio Bauraqui, o filme é mais eficiente na construção de uma atmosfera do século XIX, logo depois da abolição da escravidão. Assim, seu objeto aparenta ser mais sociológico do que outra coisa. Também parece destinado a não se encontrar com um público muito grande.

Entre os latinos, os melhores até agora foram o argentino Buenos Aires 100 Km, de Pablo José Meza”, e o venezuelano Punto y Raya, da cineasta Elia Schneider. Dois filmes que enveredaram pelo caminho simples, despojado, e investiram sua energia em histórias humanas para contar. Esta receita que une simplicidade e intensidade é uma das coisas que o cinema brasileiro precisa urgentemente reaprender.

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