17/06/2026

Não há tanto glamour na vida de um jornalista em Cannes

Cannes - Muita gente pensa que a vida de jornalista que vem cobrir o festival de Cannes é só moleza e glamour. Para quem está de fora, os repórteres credenciados aqui são uns felizardos que vivem no bem-bom, diante de uma maravilhosa praia da Riviera Francesa, assistindo ao desfile de astros e estrelas incríveis e sendo os primeiros a conferir filmes impecáveis de diretores talentosos e famosos.

 
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Vir para cá é ótimo, claro, senão a gente desistia depois da primeira vez – e eu estou vindo este ano pela décima. É muito legal mesmo assistir a tantos filmes esperados em primeiríssima mão, ainda mais com a qualidade de projeção que se tem nestas salas do Palais des Festivals, difícil de encontrar depois daqui.
 
Quando o tempo ajuda – a primavera é caprichosa... -, o mar da Riviera é mesmo lindo de ver. Mas quem disse que a gente tem tanto tempo assim de olhar para ele? A paisagem da janela de uma das salas de imprensa aqui do festival, com vista para o mar, é até um problema – com a luminosidade que bate aqui, cria problemas para você enxergar a tela do seu computador. E trabalhar de óculos escuros também não dá.
 
Falando nas salas de imprensa aqui, estão todas bem abaixo da medida. Atualmente, pelo menos 4.000 jornalistas do mundo todo vem para cá – e as salas não cresceram na mesma proporção neste prédio construído nos anos 50. Naqueles dias em que todo mundo resolve comparecer a uma coletiva concorrida – como é o caso das dos astros locais ou de Hollywood -, é um Deus nos acuda. Dá empurra-empurra, cotovelada, pisão no pé – é, isso acontece aqui no primeiro mundo também. Até mais. Respeito a filas, nestas situações ? Esquece ! Salve sua pele, se puder.
 
Nas salas wi-fi (que um patrocinador oferece gratuitamente para todos os jornalistas credenciados no período do festival), a luta pelas mesas e cadeiras é constante. Na falta delas, os repórteres, pressionados pelos horários para entregar suas matérias, abrem seus notebooks onde dá – no chão, no tapete, nos corredores. Isso enquanto dura a bateria. A luta por uma tomada é das mais acirradas por aqui.
 
Tempo para refeições ? Esquece! Quem olhar a programação, vê como é, um filme atrás do outro, fora as coletivas, as entrevistas (que, para serem marcadas, dependem de você correr atrás de diversos escritórios de assessorias de imprensa espalhados ao longo de Cannes). Como se anda a pé por aqui!
 
Enfim, quando o festival acaba, está todo mundo com sono e fome atrasados, as costas um trapo de ficar o dia inteiro sentado nos cinemas ou em má postura para escrever suas matérias – o que se faz todo dia. Não é mole sobreviver a Cannes. O espírito agradece mas o corpo sofre muito.

Um leopardo que ruge pelo cinema

Retrato da decadência da classe senhorial siciliana diante da república que avança, o clássico O Leopardo, de Luchino Visconti, foi apresentado nesta sexta (14) em Cannes em sua versão restaurada. Com certeza, foi um dos momentos mais mágicos da história de Cannes de todos os tempos e eu senti a emoção de fazer parte dele, disputando meu lugar na muvuca que é a entrada de quase todas as sessões do festival no primeiro finalde semana, ainda que você tenha sua credencial (4.000 outros jornalistas também têm!).
 
A mágica da sessão histórica vem não só por poder ver em primeira mão as espetaculares cores do filme, renovadas uma a uma sob a supervisão do fotógrafo do filme, Giovanni Rotunno, como pela presença na sala dos atores Claudia Cardinale e Alan Delon.
 
Envelhecidos e emocionados pelos aplausos, La Cardinale e Delon eram, ao mesmo tempo, a prova viva da decadência do corpo – inevitável para todos, mesmo as estrelas mais belas – e do esplendor imortal da arte cinematográfica, que eles representam tão bem.
 
O sentido maior do Tempo, o mestre dos destinos, estava naquela sala Debussy na noite de sexta, onde as imagens luminosas da história, adaptada do magistral romance de Tommaso Lampedusa, novamente ganharam vida, embalaram uma platéia lotadíssima – que esperou com impaciência o começo de uma sessão, lamentavelmente muito atrasada, 45 minutos para esperar o padrinho-mor das restaurações de velhos clássicos do cinema, Martin Scorsese. Que, para compensar, fez um belo pronunciamento, antes do filme, lembrando o significado ímpar dele para todos nós.
 
Na plateia, um jurado deste ano em Cannes, o ator Benicio del Toro, acompanhou a sessão toda. Do lugar onde eu estava, eu podia ouvir as risadas de Del Toro e espiar, de vez em quando, sua atenção ao longo do filme. Ponto para o jurado atento – azar de outros, como outra atriz do júri, Kate Beckinsale, que só fez um social no início da sessão e saiu antes do apagar das luzes. Azar dela.

Tim Burton, o presidente paz e amor do júri de Cannes

Pelo menos em termos da presidência do júri, o contraste é total entre o festival de Cannes 2010 e o de 2009. Ao contrário da mão de ferro da presidenta 2009, a gélida atriz Isabelle Huppert, o diretor norte-americano Tim Burton foi só relax em relação aos seus comandados.
 
Enquanto La Huppert convocava os jurados para sessões às 8 horas da manhã, e reuniões de trabalho, Burton é só paz e amor. Ontem à noite, ele só foi jantar com seus colegas de júri e garantiu que, à mesa, que não deu nenhuma instrução. “Não estamos procurando algo específico. Minha ideia é termos uma atitude o mais aberta e sem preconceitos possível”, foi o que ele disse na coletiva do júri hoje.
 
Não era bem isso o que Burton vinha dizendo à imprensa nos últimos dias. Ele falava de seu gosto por filmes capazes de chacoalhar, até dotados de alguma crueldade – o que, de cara, parecia favorecer algumas cinematografias de antemão. A coreana, talvez. E há dois concorrentes coreanos no páreo da Palma de Ouro.
 
Seja porque levou algum discreto puxão de orelhas do comando do festival ou não, o fato é que Burton foi bem doce e deu a entender que espera o mesmo de seus colegas – em que se incluem os atores Benicio del Toro, Kate Beckinsale e Giovanna Mezzogiorno e o cineasta espanhol Victor Erice.
 
Enfim, a coletiva seguiu o protocolo educado de sempre. O assunto mais polêmico foi o fato de haver cineastas presos no mundo – citados especificamente o iraniano Jafar Panahi e o polonês Roman Polanski (que até já presidiu o júri de Cannes, em 1991, como lembrou alguém).
 
A menção aos dois provocou de Burton uma apaixonada defesa da liberdade de expressão – por mais que a prisão de Polanski, a bem da verdade, não tenha nada a ver com isso e sim com uma velha pendência por estupro contra uma menor de idade, 30 anos atrás.
 
Enfim, Burton e os jurados não estavam a fim de incendiar o festival logo de cara. Como diz o presidente do júri, todos eles estarão de olhos abertos para as surpresas que esperam haver na seleção deste ano – em que o primeiro competidor passa hoje à noite (Tournée, interpretado e dirigido por Mathieu Amalric, o ator que aprendemos a amar em O Escafandro e a Borboleta, A Questão Humana e Conto de Natal). Vamos ver como ele se sai atrás dos bastidores, que foi onde ele começou, embora no Brasil essa obra dele como diretor não tenha circulado).
 
Surpresa mesmo foi ouvir o que Burton pensa do 3D – que ele usou em Alice, seu filme em cartaz no momento. Para ele, não é a salvação da lavoura, nem nada demais. Só uma outra ferramenta, como a cor ou o som. Acho que Burton está coberto de razão. Por mais que a embalagem mude de tempos em tempos – e é preciso -, do que o cinema precisa mesmo é de boas histórias.
 

Cinzas no tapete vermelho

Enquanto todas as atenções se voltaram para as atrações cinematográficas, confirmadas ou não, eis que aquele vulcão de nome impronunciável da Islândia volta a roubar a cena, desta vez, do Festival de Cannes.
 
Esta 63ª edição do festival, que começa na quarta (12), periga de ser lembrada como a edição das catástrofes climáticas. Nos últimos dias, o balneário chique de Cannes foi atingido por tormentas, ondas gigantes e inundações, que chegaram a invadir estacionamentos e virar carros – cena comum aqui às margens do Tietê, mas bastante inusitada na Riviera francesa.
 
O vulcão ameaça fazer pior, fechando aeroportos pela Europa, cancelando vôos transoceânicos que vêm da América do Norte, fenômeno capaz de impedir o comparecimento de diversas personalidades esperadas, especialmente do time de Hollywood – e dando razão, sem querer, ao dinamarquês Lars Von Trier que, reza a lenda, jamais viaja sobre as nuvens (seu ego já é elevado o suficiente). Só que, vivendo na Dinamarca, ele até pode ir de trem, ou de carro para Cannes – quando é o caso, já que este ano ele não vai. Nós que estamos do outro lado do Atlântico, não podemos nem pensar em ir de navio...
 
Enfim, se as cinzas do vulcão não se acalmarem, o desespero dos paparazzi, que constituem uma parcela razoável dos fotógrafos locais, será total. Bem como o das candidatas a starlets, loucas para aparecer, e que o mau tempo poderá impedir de desfilar suas graças pelas areias estreitas e pedregosas de Cannes.
 
Enfim, tudo o que posso fazer é cruzar os dedos e rezar para que meu vôo desta segunda decole em tempo. E, quando chegar a Paris, que o outro vôo que me levará a Nice não tenha problemas. Nessa cidade – de onde a gente embarca num ônibus, finalmente, para Cannes – as cinzas do vulcão ameaçavam fazer uma visita. Que as chuvas e bons ventos as levem pra longe. Pro nosso bem, do festival e das grandes atrações cinematográficas que esperamos ver: Mike Lee, Abbas Kiarostami, Nikita Mikhalkov, Mathieu Amalric, Woody Allen, Stephen Frears....

Oswaldo Montenegro, o alegre menestrel autocrítico

Famoso menestrel das multidões, Oswaldo Montenegro é o tipo de artista que a crítica adora odiar. Eu mesma, que não sou crítica de música, só de cinema, confesso que abomino o tipo de canções que o tornaram famoso. O que dizer daquele corte de cabelo medonho, aquele cruzamento de look Pigmaleão dos anos 70 com bruxo Gandalf de O Senhor dos Aneis?
 
Agora, Montenegro ataca como cineasta, no musical Léo e Bia, exibido em primeira mão pelo Cine PE, o festival de Recife. O que me deu oportunidade de conhecê-lo ao vivo e descobrir, para minha surpresa, uma pessoa inteligente e simpaticíssima. Melhor ainda, com a autocrítica em dia.
 
No debate/entrevista coletiva do filme, Montenegro manifestou uma bela posição sobre a crítica – que ele sabe muito bem o quanto o apedreja, de norte a sul do País. Sem problemas, para ele, que diz que a crítica está no seu direito, afinal, é opinião. E não se furtou também a dar pedradas nos colegas artistas que ficam todos dodois quando um crítico espinafra o seu trabalho, como se estivesse xingando sua mãe.
 
Para Montenegro, os artistas têm que parar de se dar tanta importância. Ele mesmo se acha um “sortudo”, um “cagão”. E diz que os artistas são os “bobos da corte” e, se acharem alguém que goste do que fazem, é muita sorte. Nada melhor do que desfrutar disso e ir em frente, deixando os críticos em paz com seu trabalho.
 
O menestrel diz que até ele mesmo acha terríveis algumas músicas que fez – Histérica, por exemplo. De seu trabalho teatral, destaca A Lista como “um dos piores textos já escritos”. Que sorte que eu nem sei do que ele está falando, não conheço nada disso.
 
À parte esta saudável postura de não levar-se muito a sério, no bom sentido, o músico também toma o bom partido da alegria. Criticou esse vício de um “pessimismo europeu” que os brasileiros deram de adotar, para ele, especialmente a partir dos anos 80, deixando para trás os anos hippies, a paz, o amor, o desbunde e a esquerda festiva, que estão no centro do seu filme. Que pode não ser a melhor coisa do mundo, mas é sincero, ao menos.
 
Foto: Daniela Nader/Divulgação

Paulo José, um ator à flor da pele

Feliz o cinema que pode contar com um ator como Paulo José. Ele já foi Edu Coração de Ouro, Macunaíma. Logo vamos vê-lo (que bom!) em dose dupla, como um velho louco/sábio nos filmes Insolação e Quincas Berro d’Água, o zumbi folião de Jorge Amado. E o prazer de assisti-lo sempre se renova.
 
Os motivos são muitos mas o maior é a paixão por atuar que transpira da pele dele. E seus olhos. Ah, os olhos de Paulo José – são tudo. O filme até pode ser ruim (como Policarpo Quaresma – Herói do Brasil, O Vestido) e a gente quase esquece – porque a presença dele ilumina por si.
 
O melhor é que o tempo que passa, o envelhecimento, a fragilidade imposta pela doença – ele convive valentemente há 20 anos com o mal de Parkinson -, tudo isso se somou à figura dele de uma maneira sensível, dramática. E tudo que ele foi e é melhora o ator, se é que é possível melhorar Paulo José, um ator-ator, ator não-celebridade, ator não-vaidoso.
 
Marido de uma atriz linda e preciosa, como Dina Sfat, ele também era bonito em sua estreia em O Padre e a Moça (que estreia!), em 1966, Todas as Mulheres do Mundo (67), Edu Coração de Ouro (68), Cassy Jones – Magnífico Sedutor (72). O tempo passou, ele foi virou Macunaíma (69), atravessou o Cinema Novo, as pornochanchadas, os desastres do fim da Embrafilme, as emoções e sobressaltos da Retomada. E está aí, meio serenidade, meio turbilhão, mas sempre autêntico. Um gaúcho essencial e sem bombachas, graças a Deus.
 
Bonito e engraçado, terno e degenerado, patético ou impassível, Paulo chegou a um de seus trabalhos mais belos em Juventude (2008), de Domingos Oliveira - onde um trio de atores sessentões/setentões dão sentido ao título com toda a gana de viver que ela sintetiza.
 
Ele está filmando O Palhaço, com Selton Mello – que é outro que não gosta de dormir no berço esplêndido de se achar “galã” e “consagrado” - e não está querendo parar. Que bom. O cinema brasileiro precisa de mais e mais Paulo José. Sorte nossa. 

O que faltou no Oscar 2010

Encerrada a festa e com esse assunto já mais do que over por toda a mídia, só algumas pequenas observações do que faltou na noite da 82ª. cerimônia do Oscar:
 
- Uma menção ao grande crítico italiano Tullio Kezich entre as perdas de 2009. Era amigo e biógrafo de Federico Fellini e acompanhou de perto as filmagens de A Doce Vida (que detalhou num livrinho fabuloso e ainda não traduzido – atenção, editoras! -, Noi che abbiamo fatto La Dolce Vita). Foi lembrado Tullio Pinelli, o genial roteirista também parceiro de Fellini em filmes como o próprio A Doce Vida, além de 8 e ½ , Julieta dos Espíritos e Ginger e Fred. Mas Kezich, grande jornalista, que morreu em agosto de 2009, pouco antes do Festival de Veneza que ele tanto assessorava com seus pitacos críticos, ficou de fora. Imperdoável.
 
- Aumentar a lista dos candidatos à premiação de filme estrangeiro também para 10, como na categoria principal. É ridículo querer enfiar a cinematografia do mundo nesse apertadíssimo gueto de apenas 5. Este ano, não entrou por exemplo, o excelente filme italiano Il Divo, de Paulo Sorrentino – indicado, pasme-se, apenas no quesito maquiagem. No Brasil, o filme, que faz uma radiografia cínica da figura do ex-primeiro ministro Giulio Andreotti (interpretado pelo ótimo Toni Servillo)  passou apenas em eventos como Mostra de SP e não encontrou distribuidor para chegar aos cinemas. Outra vergonha.  
 
- Nunca é demais desejar (sonhar é sempre bom) que a Academia se torne um pouco mais rápida para absorver a sociedade ao seu redor. Prova de sua inacreditável lentidão e conservadorismo é mesmo a escassez de prêmios para as mulheres e os atores negros. Só na 82ª premiação uma mulher diretora, Kathryn Bigelow, conseguiu sua estatueta – entregue por outra, Barbra Streisand, historicamente esnobada até em indicações. E a premiação a Mo’nique, a terceira atriz coadjuvante negra a vencer nessa categoria, demorou nada menos do que 19 anos (a última vez tinha sido Whoopi Godberg, em 1991, como bem lembrou meu leitor Adriano). Ao todo, aliás, só cinco atores negros venceram em toda a história do Oscar (fora as três coadjuvantes, incluindo a pioneira Hattie McDaniel, em 1939, também Denzel Washington e Halle Berry, em 2002, estes nas categorias principais).
 
Finalmente, uma nota para elogios, justamente para as atrizes negras presentes à festa – boa parte delas, como Queen Latifah, ignora alegremente a ditadura da estética esquálida que martiriza tantas colegas. Para Latifah e companhia, a beleza está na fartura, como as musas renascentistas.

Biografia para matar a saudade de Altman

Adoro biografias. Alguns dos melhores livros que li na vida pertencem ao gênero e perfilam gente de cinema – como as de Orson Welles e Katharine Hepburn, escritas por Barbara Leaming (sem dúvida, uma especialista na área, além de uma ótima escritora), e a de Samuel Fuller, que ele escreveu em boa parte e foi terminada depois de sua morte, com a supervisão de sua mulher, A Third Face: My Tale of Writing, Fighting and Fimmaking (infelizmente, não traduzida no Brasil). As duas biografias de Leaming foram lançadas em português.
 
Há pouco descobri outra biografia em inglês, Robert Altman, assinada pelo professor de jornalismo Mitchell Zuckoff. Esta já tem um estilo bem diferente das outras que eu citei. Ao invés de um texto literário elaborado, reúne vários fragmentos de depoimentos, inclusive do próprio Altman – Zuckoff teve a felicidade de conviver muito com ele antes de sua morte, em 2006. Forma, assim, uma visão polifônica, com muitas vozes, daquele que não só foi um dos cineastas mais criativos e rebeldes de Hollywood, como um homem polêmico na vida pessoal. Não faltam em sua vida episódios de bebedeira, negligência com os filhos e até violência contra pelo menos uma de suas mulheres (Lotus Corelli). E, por essa polifonia, o livro tem tudo a ver com o estilo dos filmes do autor, sempre corais, sempre multifacetados, sintonizados na complexidade mesmo da vida.
 
É justamente essa disposição de não deixar de lado nenhum desses aspectos menos edificantes do genial criador de Nashville, O Jogador, Short Cuts, Assassinato em Gosford Park e A Última Noite, seu filme-testamento, que torna a leitura instigante. Sem ter um texto corrido, a biografia enfileira momentos, lembranças, explicações, inclusive do biografado – não raro a seguir a uma declaração que o detona. Mesmo assim, emerge das páginas um fascinante caleidoscópio, retrato de um homem que colocou o melhor de sua pulsão vital e mesmo de suas contradições a serviço das câmeras, lutando sempre contra a corrente em Hollywood.
 
Tive a sorte de conhecê-lo pessoalmente, numa entrevista, no Festival de Veneza 2000, em que ele concorria ao Leão de Ouro com a comédia Dr. T e as Mulheres. Recebendo-me junto com outros dois colegas brasileiros, aquele homem alto, forte, de cabelos brancos e olhar penetrante e caloroso, imediatamente nos pôs à vontade e começou a conversar sobre o filme. Sabíamos que ele era exigente e profissional. Tínhamos ouvido dizer que se levantara de uma mesa, horas antes, quando percebera que os jornalistas que o entrevistavam não tinham assistido ao filme – tarefa básica para quem se dispõe a entrevistar um diretor.
 
Mas nós três, felizmente, tínhamos feito a lição de casa. Lembro-me que Altman se soltou, fez brincadeiras. E, procurando provar uma posição que há pouco defendera, perguntou-me se meu ginecologista era homem ou mulher. Decepcionei-o quando disse que era mulher – ele queria provar que a maioria das mulheres preferia os homens nessa profissão. No final, rimos e nos despedimos com um forte aperto de mão. Ficou comigo a lembrança daquele olhar caloroso, de quem sempre sabia o que queria dizer, ainda que tantos estúdios, produtores e às vezes até mesmo o público não quisessem ouvir.

Polanski, um premiado que não pode receber seus troféus

Está virando uma tradição: Roman Polanski mais uma vez venceu o prêmio de melhor direção, desta vez no Festival de Berlim, por O Escritor Fantasma, com estreia prometida no Brasil para 1º. de maio, e não pode ir pegar pessoalmente o prêmio. Exatamente como aconteceu em 2003, quando ganhou o Oscar de melhor diretor por O Pianista. O motivo, novamente, é o mesmo: a velha pendência, de mais de 30 anos, de um processo por estupro nos EUA, de onde o diretor polonês fugiu, e que provoca agora sua prisão domiciliar em Zurique, Suíça. Está na hora de resolver isso de uma vez por todas.
 
Em Berlim, foi consagrado o cinema turco, com o Urso de Ouro de melhor filme sendo entregue ao cineasta Semih Kaplanoglu, por Bal (“Mel”), terceira parte de uma trilogia iniciada em 2007 com Egg ("Ovo"), exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes, e seguida por Süt (“Leite”), que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em síntese, o estilo de Kaplanoglu é bem o contrário de Avatar – longos planos, contenção, problemas humanistas, beleza profunda das imagens e busca existencial, de identidade. O tipo de filmes que também precisam continuar existindo e afirmando a diversidade da arte e do pensamento.
 
Outra cinematografia consagrada em Berlim foi a romena – a grande novidade no panorama europeu nos últimos cinco anos. Desta vez, Florin Serban levou dois troféus: o Grande Prêmio do Júri (que corresponde a um “segundo lugar” em qualquer festival) e o Alfred Bauer, pelo filme que atende pelo curioso nome de If I Want to Whistle, I Whistle (“Se quero assobiar, assobio”). O melhor filme de estreia foi o sueco Sebbe, de Babak Najafi, outro país que, além de uma produção pequena, costuma passar longe das telas brasileiras, exceção feita a Ingmar Bergman.
 
O melhor roteiro foi da produção chinesa Apart Together (assinado pela dupla Wang Quan’an e Na Jin). A japonesa Shinobu Terajima ficou com o troféu de melhor atriz, por um filme descrito como muito poderoso, Caterpillar. Dois russos, por sua vez, dividiram o prêmio de melhor ator, em How I Ended this Summer.
 
Outro prêmio especial, o Berlinale Kamera, foi entregue ao veterano cineasta japonês Yoji Yamada por seu filme About her brother. Outro cineasta que, infelizmente, não frequenta muito as telas brasileiras. O último trabalho dele visto em circuito comercial foi, se não me engano, O Samurai do Entardecer (2002), que talvez não seja nem o seu melhor, mas de algum modo traduz sua postura humanista e capaz de dialogar com um público mais amplo. Nem assim os distribuidores lembram dele, e isso num país com uma imensa colônia de descendentes de japoneses. Vá entender.