Não há tanto glamour na vida de um jornalista em Cannes
Cannes - Muita gente pensa que a vida de jornalista que vem cobrir o festival de Cannes é só moleza e glamour. Para quem está de fora, os repórteres credenciados aqui são uns felizardos que vivem no bem-bom, diante de uma maravilhosa praia da Riviera Francesa, assistindo ao desfile de astros e estrelas incríveis e sendo os primeiros a conferir filmes impecáveis de diretores talentosos e famosos.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Vir para cá é ótimo, claro, senão a gente desistia depois da primeira vez – e eu estou vindo este ano pela décima. É muito legal mesmo assistir a tantos filmes esperados em primeiríssima mão, ainda mais com a qualidade de projeção que se tem nestas salas do Palais des Festivals, difícil de encontrar depois daqui.
Quando o tempo ajuda – a primavera é caprichosa... -, o mar da Riviera é mesmo lindo de ver. Mas quem disse que a gente tem tanto tempo assim de olhar para ele? A paisagem da janela de uma das salas de imprensa aqui do festival, com vista para o mar, é até um problema – com a luminosidade que bate aqui, cria problemas para você enxergar a tela do seu computador. E trabalhar de óculos escuros também não dá.
Falando nas salas de imprensa aqui, estão todas bem abaixo da medida. Atualmente, pelo menos 4.000 jornalistas do mundo todo vem para cá – e as salas não cresceram na mesma proporção neste prédio construído nos anos 50. Naqueles dias em que todo mundo resolve comparecer a uma coletiva concorrida – como é o caso das dos astros locais ou de Hollywood -, é um Deus nos acuda. Dá empurra-empurra, cotovelada, pisão no pé – é, isso acontece aqui no primeiro mundo também. Até mais. Respeito a filas, nestas situações ? Esquece ! Salve sua pele, se puder.
Nas salas wi-fi (que um patrocinador oferece gratuitamente para todos os jornalistas credenciados no período do festival), a luta pelas mesas e cadeiras é constante. Na falta delas, os repórteres, pressionados pelos horários para entregar suas matérias, abrem seus notebooks onde dá – no chão, no tapete, nos corredores. Isso enquanto dura a bateria. A luta por uma tomada é das mais acirradas por aqui.
Tempo para refeições ? Esquece! Quem olhar a programação, vê como é, um filme atrás do outro, fora as coletivas, as entrevistas (que, para serem marcadas, dependem de você correr atrás de diversos escritórios de assessorias de imprensa espalhados ao longo de Cannes). Como se anda a pé por aqui!
Enfim, quando o festival acaba, está todo mundo com sono e fome atrasados, as costas um trapo de ficar o dia inteiro sentado nos cinemas ou em má postura para escrever suas matérias – o que se faz todo dia. Não é mole sobreviver a Cannes. O espírito agradece mas o corpo sofre muito.

Retrato da decadência da classe senhorial siciliana diante da república que avança, o clássico O Leopardo, de Luchino Visconti, foi apresentado nesta sexta (14) em Cannes em sua versão restaurada. Com certeza, foi um dos momentos mais mágicos da história de Cannes de todos os tempos e eu senti a emoção de fazer parte dele, disputando meu lugar na muvuca que é a entrada de quase todas as sessões do festival no primeiro finalde semana, ainda que você tenha sua credencial (4.000 outros jornalistas também têm!).

Feliz o cinema que pode contar com um ator como Paulo José. Ele já foi Edu Coração de Ouro, Macunaíma. Logo vamos vê-lo (que bom!) em dose dupla, como um velho louco/sábio nos filmes Insolação e Quincas Berro d’Água, o zumbi folião de Jorge Amado. E o prazer de assisti-lo sempre se renova.
Adoro biografias. Alguns dos melhores livros que li na vida pertencem ao gênero e perfilam gente de cinema – como as de Orson Welles e Katharine Hepburn, escritas por Barbara Leaming (sem dúvida, uma especialista na área, além de uma ótima escritora), e a de Samuel Fuller, que ele escreveu em boa parte e foi terminada depois de sua morte, com a supervisão de sua mulher, A Third Face: My Tale of Writing, Fighting and Fimmaking (infelizmente, não traduzida no Brasil). As duas biografias de Leaming foram lançadas em português.