17/06/2026

Sem tempo para ressaca pós-Oscar

Segunda-feira pós-Oscar é sempre como uma ressaca, ainda mais com tantas expectativas projetadas sobre O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, com suas quatro indicações nobres, e ainda outro brasileiro, Adolpho Veloso, lembrado pela belíssima fotografia de Sonhos de Trem. Mas não deu.

A falta de prêmios tem algum significado maior? É motivo de desânimo? Acho que não.

Acompanhei a impecável trajetória de O Agente Secreto desde seu lançamento mundial no Festival de Cannes, em maio de 2025, arrebatando dois prêmios de uma vez, direção e ator para Wagner Moura - o que em tese nem seria possível pelo regulamento (a dupla premiação). Mas foi, porque júri é soberano - e este era presidido por ninguém menos do que a estrela Juliette Binoche. 

Depois disso, feito cometa, o filme pernambucano só ascendeu, conquistando dezenas de prêmios mundo afora, inclusive o muito celebrado Globo de Ouro para o baiano Wagner Moura, orgulho nacional. 

Claro que as expectativas eram altas e todo mundo aqui queria que o Brasil emplacasse um bicampeonato de filme internacional, após a conquista inédita de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, em 2025. 

Mas perder era uma forte possibilidade, diante do favoritismo explícito do norueguês Valor Sentimental, de Joachim Trier, um belo filme mas, a meu ver, o mais fraco dos cinco concorrentes, entre os quais constava o impactante A Voz de Hind Rajab, da tunisiana Kaouther Ben Hania, um avassalador libelo da causa palestina, e o iraniano Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, que com todos os méritos levou a Palma de Ouro. Sirât, de Oliver Laxe, na minha opinião, não devia nem estar na lista, e sim o potente sul-coreano A Única Saída, do veterano Park Chan-wook, uma devastadora autópsia do capitalismo selvagem. 

Então, como ficamos? Muito bem, porque temos futuro. O cinema brasileiro vem conquistando espaço e visibilidade à altura da cada vez melhor produção cinematográfica do País. Prova disso é a agenda cheia de todos os envolvidos. Kleber já prepara a produção de um novo filme ambientado em Recife, desta vez recuando para a década de 1930. Wagner Moura tem engatilhados: o remake de Gosto de Cereja, premiado drama de Abbas Kiarostami; a ficção científica 11817, de Louis Leterrier, ao lado de Greta Lee; o drama The Last Day, de Rachel Rose, uma livre adaptação de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, em que contracena com Alicia Vikander; The Outsider, cinebiografia da fotógrafa Cláudia Andujar, dirigido por sua mulher, Sandra Delgado; e colocar sua voz na série de animação Star Wars: Maul-Shadow Lord, como o detetive intergaláctico Brander Lawson. Alice Carvalho já começou a viver Marta, a nossa incrível jogadora de futebol, na cinebiografia Rainha do Futebol e vai estrelar a segunda temporada da série Cangaço Novo, da Prime Video. Gabriel Leone é o protagonista do drama Barba Ensopada de Sangue, de Aly Muritiba, com estreia prevista para abril, e está no elenco da segunda temporada da série Citadel, da Prime Video. E a incansável Tânia Maria foi escalada para A Adoção, novo filme de Allan Deberton, da série Delegado, do Canal Brasil, e está no elenco de Yellow Cake, ficção científica de Tiago Melo que participou do mais recente Festival de Rotterdam.  

Ou seja, ninguém vai ter tempo nem disposição para ficar chorando pelos cantos, nem ressuscitar aquele velho e mofado complexo de vira-lata. Bora lá!

O que nos dizem os filmes restaurados

Estamos em plena estação de relançamento de filmes, em cópias restauradas 4K, com som e imagem não raro melhores do que aquelas que vimos muito tempo atrás, quando os encontramos pela primeira vez. E o que é ainda melhor, nos cinemas, resgatando aquela experiência coletiva que formou nossos olhares e que ainda tem tanto a nos dizer. Nada contra o streaming, que continua a popularizar tantas produções independentes que teriam sem ele circulação muito restrita. Mas as duas formas de vivência do audiovisual devem, a meu ver, necessariamente coexistir.

Filmes como Paris, Texas, Asas do Desejo, Amores Brutos, Psicose, Crepúsculo dos Deuses, Ladrões de Cinema, Bye Bye Brasil, Dona Flor e Seus Dois Maridos e tantos outros começam a chegar às nossas salas, proporcionando a experiência da descoberta, para quem era jovem demais para ter acompanhado os lançamentos originais, e da redescoberta, para quem já conhecia e vai, querendo ou não mergulhar numa revisão de um possível cult. Quem sabe, apaixonando-se de novo, percebendo novas nuances, ou se decepcionando. Afinal, não somos os mesmos daquela primeira vez e o repertório acumulado conta.

De todo modo, saímos de uma sessão dessas encharcados de imagens de primeira qualidade e de pensamentos sobre o que foi e é o cinema. Impossível não cogitar, também, que esse olhar para o passado, para filmes já consagrados, pode significar também busca de inspiração, olhando para o que já se fez e ousou. Sim, porque não raro descobrimos nesses velhos filmes abordagens corajosas de temas sombrios ou desafiadores com soluções que hoje poderiam esbarrar em alguma espécie não só de contestação, como de cancelamento, mas que se avalie também a audácia de questionar limites do próprio tempo num contexto diferente do atual. 

Tudo isso é muito bom, porque dá a oportunidade de olharmos para os nossos valores, testando a validade de tanta coisa. Será que tudo tem mesmo tanta importância? Ou no passado é que o pessoal não tinha noção da complexidade de tantas situações? 

Mais do que isso, rever os velhos filmes nos coloca também diante de uma comparação com tudo aquilo que é produzido hoje. Haverá sempre saudosistas a dizer que o cinema de hoje não produz mais clássicos como antigamente, filmes que perduram por tanto tempo. A própria onda de remakes de títulos nem tão clássicos, comédias, aventuras ou melodramas simples, pode ser uma confirmação disso. Mas, de novo, não será totalmente verdadeiro. 

O audiovisual hoje superproduz títulos - e séries - em escala industrial, para suprir uma indústria mundial ávida de consumo de entretenimento, incluindo aí os streamings. Mas não é menos verdade que alguns diretores consagrados, como Martin Scorsese, Alfonso Cuarón e Spike Lee, para ficar em alguns, tiveram que associar-se a canais de streaming para poder produzir seus novos filmes. Caso contrário, obras como Assassinos da Lua das Flores, Roma e Luta de Classes não existiriam. Mais uma prova de que uma convivência entre cinema e streaming pode e deve ser uma proveitosa estrada de duas mãos.

Então, sem pretender encerrar a conversa, o negócio é o seguinte: esbalde-se nessa leva de filmes restaurados, encha seus olhos de imagens belíssimas, seus ouvidos de sons perfeitos, aproveitando a qualidade do que está chegando por aí. E redescubra como uma sessão de cinema, coletiva por sua própria natureza, pode ser maravilhosa. 

 

Um Filme Pode Mudar o Mundo

Tive a sorte de acompanhar a estréia mundial de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, em setembro de 2024, no Festival de Veneza. Por isso, quero refletir sobre a extraordinária repercussão desse filme admirável - que não era óbvia no seu lançamento mundial.

Fruto de uma longuíssima gestação de sete anos, atravessando um período sombrio de tentativa de cancelamento da cultura brasileira sob um governo neofascista, e percorrendo um cuidadoso processo de preparação, o filme desembarcou na laguna veneziana tão maduro e comovente quanto o magnífico livro que lhe deu origem, as memórias de Marcelo Rubens Paiva sobre sua intrépida e discreta mãe, Eunice Paiva - que, assim como sua magnética intérprete, Fernanda Torres, foi descoberta em escala mundial. Inclusive graças à impecável interpretação de Fernandinha, nenhuma das duas será esquecida. No Brasil, Eunice começa a emprestar seu digno nome a tudo, de prêmio a rodovia, com a proposta, neste último caso, de substituir o nome de um dos ditadores cruéis que propiciaram o assassinato de seu marido, Rubens Paiva, um dos centenas de mortos sem sepultura do hediondo regime militar de 1964.

Visto por mais de 5,5 milhões de brasileiros até aqui (começo de março 2025), exibido em centenas de salas pelo mundo todo, além de um sucesso inegável de público, crítica e premiações - até o inédito Oscar de filme internacional -, Ainda Estou Aqui reverbera também fora do acolhedor escurinho dos cinemas. Além de atrair espectadores antes ariscos diante do cinema nacional, o filme tem se tornado tema obrigatório de conversas e causado mudanças de atitude em tribunais até hoje excessivamente tímidos na investigação de crimes da ditadura, abrindo finalmente a possibilidade de punição para os assassinos de Paiva e de outros desaparecidos políticos. Jovens de hoje protestam diante das casas desses impunes culpados de ontem.

Pode um filme mudar o mundo? 

A pergunta que tantas vezes volta à cena, curiosamente ressurge num momento em que se considera que as redes sociais comandam toda espécie de debate, do pessoal ao político. Mas tem sido, há meses, este filme de tema incômodo e confecção sensível que muitas vezes tem pautado essas mesmas redes no País, observando-se a força de seus inúmeros defensores para neutralizar os escassos vociferantes que o condenam - e que não raro sequer o assistiram. Ao despertar tantos debates, levando aos cinemas espectadores jovens que nasceram felizmente sob a democracia a descobrir um dos capítulos mais sinistros de um tempo recente - e que um governo anterior procurou reeditar com uma inominável tentativa de golpe em vias de julgamento -, Ainda Estou Aqui tem indiscutivelmente mudado o clima do País, de um modo que nem o diretor, nem sua equipe e todos os envolvidos na produção e distribuição do filme poderiam ter previsto neste nível, nesta dimensão. Afinal, um filme pode também ter um poder de cura para feridas represadas por tanto tempo. 

E, por mais que a gente escreva, parece que as camadas de Ainda Estou Aqui não se esgotam. O que leva a pensar, afinal, que um filme pode sim mudar o mundo. O que quer dizer que ele suscita outros - e que seus realizadores peguem seu bastão de coragem e venham logo continuar a construir este mundo novo, mais generoso e solidário, de que tanto precisamos hoje.

Cacá, um bravo cineasta brasileiro

Um dos últimos expoentes do Cinema Novo, Cacá Diegues atravessou trabalhando como diretor e produtor seis décadas de cinema brasileiro: tarefa para os fortes, num cenário marcado por uma ditadura militar, o fechamento da Embrafilme, a reconstrução democrática do País e da indústria cinematográfica e inúmeros embates culturais, ideológicos e mercadológicos. 

De fala macia e espírito indomável, o cineasta alagoano radicado no Rio de Janeiro incorporou em seus muitos filmes a marca de um País sacudido por toda essa turbulência, por toda essa quase sina, que ele sempre acreditou superável, de tudo destruir, de tempos em tempos, para recomeçar do zero. Tudo isso sem perder a ternura jamais.

Os personagens de Cacá, em filmes como Chuvas de Verão (1978), Dias Melhores Virão (1989) e Um Trem para as Estrelas (1987), sofrem, amam e acreditam. Sem ingenuidade nem perfeccionismo, todos humanos, fundamentalmente humanos, assim como o inesquecível trio da Caravana Holiday de Bye, Bye Brasil, talvez seu filme mais simbólico de tudo que o Brasil é, foi e podia ser.

A presença incontornável do negro na realidade e no imaginário do País nunca lhe escapou, povoando filmes como Ganga Zumba - selecionado para a Semana da Crítica de Cannes em 1964, ano em que Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, disputavam a Palma de Ouro -, Xica da Silva (1976), Quilombo (1984) e Orfeu (2003). E a vontade de rir enquanto pensava o Brasil igualmente não o abandonava, como em Deus é Brasileiro (2003), um grande sucesso cuja sequência Cacá filmou mas ainda não havia finalizado.

Fora seus inúmeros filmes, que fizeram a ponte entre o Cinema Novo e tudo o que se lhe seguiu, Cacá permaneceu sempre como um intelectual, no sentido de pensar o cinema brasileiro e de defender a afirmação de sua singularidade no mundo, ao mesmo tempo que atento e engajado para tornar o cinema tão popular quanto possível. Sua imensa generosidade para com quem entrava depois dele no barco desse cinema nacional também fica na memória. Que Cacá seja sempre lembrado por tudo isso.

Crédito da Imagem: @abletras_oficial

 

David Lynch e o suave culto à inquietação

Parece uma ironia trágica que o cineasta David Lynch (1946-2025) tenha morrido justamente neste momento em que labaredas consomem ainda Los Angeles, cenário de tantos de seus maiores filmes, capturando o fino pesadelo dentro daquelas paredes, que sabemos agora quão frágeis eram - mesmo as mansões. 

Muitas vezes, Lynch parecia filmar os próprios pesadelos, tamanha a estranheza e a perplexidade que causavam em nós, espectadores, levando-nos delicadamente pela mão para estes universos paralelos, habitados por criaturas estranhas, mergulhadas em tempos perturbadoramente suspensos, vítimas de obsessões ou maldições que nunca procuravam amparo em nenhuma lógica cartesiana.

É quase bizarro que alguém com uma imaginação tão inquietante tenha encontrado um modo de seguir carreira em Hollywood, estabelecendo seu lar numa L.A. onde ele não nasceu. Na verdade, Lynch fez um percurso singular, começando pela cidade natal, Missoula, em Montana, deslocando-se pelo país como estudante de artes plásticas e pintor antes de finalmente aterrisar em L.A. como bolsista do American Film Institute, onde seu projeto de curso foi nada menos do que seu acachapante filme de estreia, Eraserhead (1977). Uma tremenda carta de apresentação no mundo do cinema que ele iria transformar. 

A partir daí, ele faria filmes que confundiam e encantavam na mesma medida - esse é o meu caso, pelo menos. Você sentia que não estava “entendendo” nada e, ainda assim, não conseguia deixá-los de lado, muito menos esquecê-los. Continuavam a te assombrar por dias a fio. Anos, talvez, se pensasse neles, já que inscreviam uma marca indelével na nossa própria imaginação. O que era a prova de que havia neles algo vital, que superava o maneirismo de que alguns eventualmente o acusavam. 

Filmes como Veludo Azul (1986) - que deu origem a uma das melhores séries já vistas, entre 1990 e 1991 -, A Estrada Perdida (1997), Cidade dos Sonhos (2002) e Império dos Sonhos (2006) como que descerravam o véu que recobria a fina camada da dita normalidade cotidiana, expondo a multiplicidade de criaturas assustadoras que, como os vermes embaixo de uma pedra num jardim, podiam ali viver ocultos e poderosamente transgressores. E o mais inquietante é que você não queria fugir, compartilhando a estranha sensação de que habitar esses filmes de algum modo te carregava em vôos profundos, ainda que assustadores, como que olhando o avesso de tudo, inclusive de si mesmo. 

Assim, não é nenhum acaso que “lynchiano” tenha se tornado um adjetivo. Não há mesmo nenhum outro melhor para definir estes universos cinematográficos muito além de qualquer metaverso. 

Los Angeles, a duras penas, sobreviverá. Mas sua paisagem desolada não poderá contar mais do que com o fantasma deste suave cultivador da inquietação. Ele talvez gostasse mesmo disso.

O brilho infinito de Gena Rowlands

E lá se foi mais uma das minhas musas na vida, Gena Rowlands. Tinha 94 anos e uma história que muito poucas atrizes hoje podem ostentar. Era uma estrela, no mais alto sentido da palavra, uma intérprete destemida, uma personalidade enérgica e de uma beleza que resistiu ao tempo - até porque não tentou nunca disfarçar a passagem dele.

Lembro-me dela quando a vi de perto, há 18 anos, no Festival de Cannes, em que ela foi protagonizar as então famosas Leçons - e ela tinha muitas lições para dar, embora, de cara, modestamente tenha dito que não tinha nenhuma. Chegou linda, vestida num conjunto bege, os cabelos louros arrumados para trás e um cigarro nas mãos - sua geração tinha nesse pequeno objeto um sinal de emancipação feminina. Falou de sua carreira, de seus papéis ao lado do marido, John Cassavetes, que a dirigiu em filmes inesquecíveis como Faces (1968), Assim Falou o Amor (1971), Uma Mulher sob Influência (1974, meu favorito), Noite de Estréia (1977, que lhe deu um prêmio de atuação em Berlim), Glória (1980), Amantes (1984). Sempre com uma elegância que ultrapassava a aparência: Gena era uma grande mulher e isto explodia por todos os seus poros.

A Academia de Ciências e Artes de Hollywood foi avara com ela, como com muitos outros intérpretes qualificados, nunca lhe entregando um Oscar, ao qual ela foi indicada por Uma Mulher sob Influência e Glória. Na tela, Gena podia tudo: era louca, bandida, amante, esposa, mãe, uma paciente com demência. A toda e qualquer situação e circurstância ela dava consistência, dignidade. Passava pela tela como um cometa, deixando atrás de si um rastro luminoso de vida, de personalidade. Faz uma falta infinita a todas nós que, como eu disse anos atrás, queríamos ser Gena quando crescêssemos. Brilha, brilha no céu, Gena infinita.

As ambíguas emoções da temporada de premiações

Temporada de premiações todo ano é igual. Expectativas, chororô e escândalo para os esnobados. O Oscar 2024 não fugiu à regra, mais uma vez, deixando de fora a diretora Greta Gerwig, a atriz Margot Robbie e o ator Leonardo DiCaprio, para ficar nos mais famosos. A diretora estreante Celine Song também não ficaria mal entre os diretores. Na categoria filme estrangeiro, muitos sentiram falta de Folhas de Outono, a pérola de delicadeza do finlandês Aki Kaurismaki. Também me agradaria ver o turco Ervas Secas, de Nuri Bilge Ceylan nessa corrida.  

Toda essa conversa, confesso, me dá um certo tédio. Premiações são ótimas, é claro, mas trazem consigo isso mesmo, injustiças e omissões. Eu mesma, quando participo das votações anuais dos críticos, na Abraccine e no Festival Melhores Filmes do Sesc, me sinto sempre angustiada. Olho para aquela lista enorme de filmes e nunca me satisfaço com o número de premiados. Dez, pra mim, sempre é pouco. Eu sempre engato um pouco mais.  

Fora que essas listas de melhores filmes, atores, roteiros, etc., tendem a mudar com o tempo. Daqui a um mês, a ordem dos filmes preferidos pode mudar radicalmente. Até porque é o tempo que decide o que assenta no fundo de nossa memória, de nosso sentimento dos filmes a que assistimos. Há titulos que vimos há 20 anos e cujas cenas, inteiras, gravaram em nossas retinas. Outros de que gostamos tanto não resistem à passagem do tempo. Está aí uma coisa que premiação alguma é capaz de garantir, a relevância de uma obra. É muito bom para quem ganha, mas não é garantia de qualidade absoluta. 

O público, no entanto, parece que continua fascinado por essas premiações, ou por suas cerimônias, pelo glamour, ou o que quer que seja. Indicação ao Oscar leva plateias ao cinema e quem sou eu para ser contra isso, ainda mais depois da rebordosa que foi a pandemia. Que venha o público, a sala de cinema ainda é o melhor lugar do mundo para descobrir um filme. O streaming, para recordar, reviver. O importante é que o audiovisual, e suas emoções, sobrevivam

Cannes 2023: muitos filmes e muita irritação

A 76ª edição de Cannes passa à história como uma das mais proveitosas, em termos de filmes relevantes na programação – além de ter garantido a terceira Palma de Ouro a uma mulher, a francesa Justine Triet e seu Anatomie d’une Chute, que chegará a Brasil distribuído pela Diamond.
 
Mas então por que fica a sensação de que foi uma das edições mais cansativas e irritantes de todos os tempos – para mim, que frequento a Croisette como jornalista credenciada desde 2001?
 
A verdade é que o sistema online de reserva de ingressos, obrigatório para todos os credenciados desde 2022 – e que existe em outros festivais, como Berlim e Veneza -, não foi garantia de nada. Mesmo acordando pontualmente todos os dias na abertura do site, às 7h da manhã, não era seguro obter todos os ingressos desejados, ainda que fosse nas sessões exclusivas da imprensa. E, mesmo conseguindo, quem disse que se conseguiria entrar? A pior situação foi na sessão de Strange Way of Life, de Pedro Almodóvar, em que um monte de pessoas sem ingresso foi admitida à sala e gente com ingresso ficou de fora – inclusive a presidenta da Academia de Ciências e Artes de Hollywood, Janet Yang.
 
Depois da enorme confusão desse dia, que assistiu choque de jornalistas com a segurança da sala Debussy – que se comportou como uma verdadeira tropa de choque, gritando e chegando a tirar temporariamente a credencial de uma colega que protestou para entrar - , os outros dias foram de estresse permanente, muito acima do habitual num festival com tantas atrações. Esperava-se a repetição dos incidentes, com a organização do festival fazendo de conta que nada sério estava acontecendo. Resultado: no dia da sessão de Killers of the Flower Moon, de Martin Scorsese, jornalistas faziam fila na calçada duas horas antes do começo da sessão. E debaixo de chuva. Não foi o único caso. As filas se repetiram assim, todos os dias, em todas as salas. 
 
Era para acontecer isso? Claro que não. Supõe-se que o sistema online seja uma garantia de entrada na sala. E que a programação contemple todos os credenciados. Se os jornalistas são 5.000, como se diz, que se encontre um modo de fazer todas as sessões necessárias. Afinal, estamos trabalhando, não espiando os figurinos e falando do glamour. Pelo menos, quase todos.
 
A equipe do Palais du Festival também foi quase toda trocada e, visivelmente, estava desorientada. Isso causou atritos desnecessários com os jornalistas. E, para coroar os trabalhos, na noite da premiação, uma das salas onde a imprensa trabalha e tem acesso a mesas e tomadas, teve seu espaço repentinamente reduzido, com fitas de segurança isolando um corredor e normas de circulação novas e absurdas. Enfim, Cannes 2023 teve muita irritação. Espero que ouçam nossas críticas e ano que vem haja mais paz para trabalhar e pensar naquilo que realmente interessa: os filmes!

Bons sinais de Cannes 2023

Ainda faltam duas semanas para que Cannes divulgue sua seleção completa, ou seja, com os concorrentes à Palma de Ouro e outras atrações.
 
Mas dois filmes de peso já confirmados em première mundial na Croisette animam as expectativas não só dos críticos como dos cinéfilos de respeito – o novo filme de Martin Scorsese, Killers of the Flower Moon, estrelado por Leonardo DiCaprio e Robert De Niro, e a quinta e última aventura de Indiana Jones, Indiana Jones e o Chamado do Destino, de James Mangold.
 
Baseado no bestseller de David Grann, com roteiro de Eric Roth e Martin Scorsese, Killers of the Flower Moon ambienta-se em Oklahoma nos anos 1920 e registra aquela densa mistura entre denúncia e violência que tanto atrai o diretor norte-americano, resgatando o cometimento de uma série de assassinatos contra membros da nação indígena Osage, dona de terras ricas em petróleo, naquilo que ficou conhecido como “Reino do Terror”.
 
Além da exibição de Indiana Jones e o Chamado do Destino, Cannes também vai homenagear Harrison Ford por uma carreira que reúne as cinco aventuras na pele do aventureiro do chicote, além do Han Solo de Star Wars e do Dick Deckard de Blade Runner – todos esses papéis que pertencem à galeria dos personagens que incendiaram a imaginação de gerações. Do alto de seus 80 anos, Harrison bem merece a homenagem!