Visconti na veia
O diretor italiano Luchino Visconti (1906-1976) era a mais improvável das misturas – um aristocrata rico e bem-nascido, conde de Modrone, homossexual, dono de uma rica cultura e que acabou tornando-se comunista, embora sem abrir mão de acreditar em Deus, ainda que não necessariamente pela via do catolicismo.
Essa mescla original de um aristocrata educado, por incrível que pareça, a não esperar benesses apenas por conta de seu privilegiado nascimento – um ensinamento repetido por seu próprio pai, o conde Giuseppe – originou um cineasta requintado, original, capaz de enobrecer o cinema italiano e mundial com títulos como Rocco e seus irmãos, O Leopardo, Os deuses malditos, Morte em Veneza, Ludwig (cuja versão original, de três horas, só foi resgatada por seus amigos depois de sua morte), e este Violência e Paixão que voltou, muito oportunamente ao cartaz, no CineSesc paulistano, onde, não raro, tem suas sessões lotadas.
Rever o filme de 1974, um enorme prazer, me levantou algumas dúvidas. Será que as plateias modernas –de qualquer idade – ainda dão conta de perceber todas as ricas nuances deste original enfrentamento entre quatro paredes, entre pessoas que, com uma exceção, não são parentes mas formam, a seu modo, uma família excêntrica ?
Esta dúvida foi suscitada por algumas reações esdrúxulas na sessão que presenciei – como gargalhadas fora de propósito e um comentário, ao final da sessão, de um homem, entrado nos seus 40 anos, que dizia ter pensado, antes de vir, que se tratava de uma comédia. Creio que o título brasileiro, que é meio genérico e bem inferior ao original (Gruppo di famiglia in un interno), não pode ser responsabilizado por esse equívoco. Aliás, que eu saiba, Visconti nunca fez comédias.
Esse tipo de reações me fazem sentir o quanto é importante que este tipo de filme volte sempre ao cartaz, em tela grande, em cópia restaurada, quando possível, para que o público se reconecte com a própria inteligência, com a própria sensibilidade, com a própria disposição de descobrir e acompanhar uma história que não é óbvia, nem esquemática – e sua própria estranheza, as lacunas que deixa, é que a tornam tão fascinante.
Que estes e outros filmes instigantes produzam este efeito recivilizador, aliás, é nossa última esperança. Senão, daqui a pouco, teremos que fazer como na Espanha do começo do século XX – quando as plateias, ainda incapazes de absorver a novíssima linguagem do cinema, contavam com a ajuda de um explicador para entender os filmes.
