17/06/2026

Visconti na veia

O diretor italiano Luchino Visconti (1906-1976) era a mais improvável das misturas – um aristocrata rico e bem-nascido, conde de Modrone, homossexual, dono de uma rica cultura e que acabou tornando-se comunista, embora sem abrir mão de acreditar em Deus, ainda que não necessariamente pela via do catolicismo.
 
Essa mescla original de um aristocrata educado, por incrível que pareça, a não esperar benesses apenas por conta de seu privilegiado nascimento – um ensinamento repetido por seu próprio pai, o conde Giuseppe – originou um cineasta requintado, original, capaz de enobrecer o cinema italiano e mundial com títulos como Rocco e seus irmãos, O Leopardo, Os deuses malditos, Morte em Veneza, Ludwig (cuja versão original, de três horas, só foi resgatada por seus amigos depois de sua morte), e este Violência e Paixão que voltou, muito oportunamente ao cartaz, no CineSesc paulistano, onde, não raro, tem suas sessões lotadas.
 
Rever o filme de 1974, um enorme prazer, me levantou algumas dúvidas. Será que as plateias modernas –de qualquer idade – ainda dão conta de perceber todas as ricas nuances deste original enfrentamento entre quatro paredes, entre pessoas que, com uma exceção, não são parentes mas formam, a seu modo, uma família excêntrica ?
 
Esta dúvida foi suscitada por algumas reações esdrúxulas na sessão que presenciei – como gargalhadas fora de propósito e um comentário, ao final da sessão, de um homem, entrado nos seus 40 anos, que dizia ter pensado, antes de vir, que se tratava de uma comédia. Creio que o título brasileiro, que é meio genérico e bem inferior ao original (Gruppo di famiglia in un interno), não pode ser responsabilizado por esse equívoco. Aliás, que eu saiba, Visconti nunca fez comédias.
 
Esse tipo de reações me fazem sentir o quanto é importante que este tipo de filme volte sempre ao cartaz, em tela grande, em cópia restaurada, quando possível, para que o público se reconecte com a própria inteligência, com a própria sensibilidade, com a própria disposição de descobrir e acompanhar uma história que não é óbvia, nem esquemática – e sua própria estranheza, as lacunas que deixa, é que a tornam tão fascinante.
 
Que estes e outros filmes instigantes produzam este efeito recivilizador, aliás, é nossa última esperança. Senão, daqui a pouco, teremos que fazer como na Espanha do começo do século XX – quando as plateias, ainda incapazes de absorver a novíssima linguagem do cinema, contavam com a ajuda de um explicador para entender os filmes.

Um Oscar sem surpresas, de novo

Não adiantou torcer por zebras – a festa do Oscar 2011 só rejuvenesceu na idade dos apresentadores, a gracinha Anne Hathaway (cada vez gosto mais dela, dentro ou fora das telas) e o distraído James Franco (que parecia pouco à vontade, com cara de "o que estou fazendo aqui?"). Foi tudo protocolar, inclusive os discursos de agradecimento aos pais, à mulher, ao marido, ao namorado, ao diretor. Especialmente a premiação que, como se esperava, consagrou o campeão de indicações O Discurso do Rei, de Tom Hooper, com quatro estatuetas, as que interessavam: melhor filme, diretor, ator e roteiro original.
 
Esnobado nas categorias principais, A Origem, de Christopher Nolan, empatou em número de prêmios, só que técnicos: fotografia, mixagem e edição de som e efeitos visuais (categoria em que era difícil perder! Nenhum filme este ano criou nada igual ao seu mundo de sonhos sobrepostos). O falado A Rede Social, de David Fincher, parou nos três troféus, roteiro adaptado, trilha sonora e montagem.
 
Pior foi Bravura Indômita – o faroeste dos irmãos Coen era o vice-campeão das indicações (10), mas não conquistou nenhuma, mesmo caso do miura Inverno da Alma, mas aí já se esperava mesmo, apesar da qualidade do filme (aliás, dos dois, Bravura é um belo trabalho).
 
Com dois Oscar cada um, empataram Toy Story 3 (animação e canção original), O Vencedor (que levou, como se esperava, os dois de coadjuvantes para Melissa Leo e Christian Bale) e Alice no País das Maravilhas (direção de arte e figurino, merecidíssimos).
 
E Natalie Portman, como até as pedras sabiam, levou para casa seu Oscar de melhor atriz pela interpretação visceral de Cisne Negro - o papel de sua vida e sua segunda indicação.
 
Nem mesmo uma modalidade que às vezes rende um azarão, filme estrangeiro, saiu do esperado: venceu mesmo o dinamarquês Em um mundo melhor, de Susanne Bier, que está para estrear no Brasil. Nos documentários, também deu o ótimo Trabalho Interno na cabeça – e a fala de seu diretor, Charles Ferguson, foi a mais politizada da noite, lembrando que a crise econômica mundial, tema de seu filme, aconteceu há três anos e, até agora, nenhum dos executivos que a causaram foi para a cadeia. É, impunidade não tem só deste lado do Equador. Acorda, Obama!
 
À parte a justa indignação de Ferguson, o melhor agradecimento da noite foi do bem-humorado veterano britânico David Seidler, vencedor do melhor roteiro original de O Discurso do Rei – que observou ser “a pessoa mais velha a ganhar este prêmio” (73 anos), que esperava que o “recorde fosse batido rápido” e agradecia à Rainha da Inglaterra por “não tê-lo colocado na Torre de Londres”.
 
A elogiar na cerimônia, que os números musicais foram bem enxugados e não houve grandes desastres de figurino. Também a aparição do veteraníssimo Kirk Douglas, brincando com todo mundo com sua bengala em riste e sendo aplaudido de pé, aliás, assim como Billy Crystal, um veterano recente da apresentação do Oscar. A homenagem a Lena Horne, justíssima, e com presença de Halle Berry, podia ser melhor (mais elaborada). Ufa, mas ainda bem que acabou. Hoje é dia de todos os jornalistas de cinema do mundo se arrastarem por aí com um soninho...

Torcendo por zebras no Oscar

Oscar chegando, assunto inevitável. Vamos lá!
 
Com as diversas premiações também se acumulando, o quadro fica mais nítido, aparentemente menos sujeito a surpresas.
 
Pouco se pode duvidar, a esta altura, da vitória de Colin Firth, Natalie Portman, Christian Bale e Melissa Leo como atores. Pelos prêmios recebidos no Sindicato de Atores dos EUA, especialmente. Os BAFTA também premiaram Firth e Natalie, reforçando a tendência.
 
Campeão de indicações no Oscar (além de grande vencedor do BAFTA), o filme britânico O Discurso do Rei, de Tom Hooper, é o grande favorito nas categorias melhor filme e diretor, por ter faturado nos sindicatos de produtores e diretores dos EUA, respectivamente.
 
Ainda assim, parece difícil imaginar que o vice-campeão das indicações, Bravura Indômita, de Joel e Ethan Coen, faça feio. Aliás, se há um competidor forte para Colin Firth, é mesmo Jeff Bridges, que incorpora um Rooster Cogburn de abalar John Wayne, excelente. Nas categorias técnicas, como fotografia (outro excelente trabalho de Roger Deakins), o filme dos Coen não deve ser esquecido.
 
Os Coen poderiam ser brindados com um Oscar de melhor direção? Por mérito, sim. Mas não seria surpresa que ele acabasse também nas mãos de David Fincher, surpreendente vencedor do BAFTA, por A rede social, um filme que, a meu ver, tem maior mérito na escolha do tema do que na forma como o radiografa.
 
A rede social também deve levar o Oscar de roteiro adaptado (Aaron Sorkin). E Christopher Nolan, o de roteiro original por A Origem – que foi esnobadíssimo nas indicações do ano.
 
Sonhar não custa e seria muito bom que a noite da premiação, dia 27, não fosse um tédio total, por se ter adivinhado previamente todos os vencedores. Eu, por exemplo, gostaria de ver algumas surpresas assim:
 
O Oscar de melhor filme ir para Bravura Indômita ou para o miúra Inverno da Alma, de Debra Granik.
 
O de melhor ator ir para Javier Bardem, por Biutiful (que também poderia vencer como melhor filme estrangeiro), e o de melhor atriz, para a jovem Jennifer Lawrence, que faz um trabalho de gente grande em Inverno da Alma. O mesmo se pode dizer da adolescente Hailee Steinfeld, que arrasa como atriz coadjuvante em Bravura Indômita – adoraria vê-la conquistar o prêmio! E também do azarão John Hawkes levar o seu de coadjuvante, pelo mesmo Inverno da Alma.
 
O roteiro adaptado também poderia ser vencido por Inverno da Alma. E o roteiro original, para o belo filme inglês Another Year, de Mike Leigh, que passou batido até do circuito dos festivais brasileiros, infelizmente.
 
Será que alguma zebra acontece?

Um galã do tempo da delicadeza: John Herbert

Tive o privilégio de conhecer John Herbert em meados de 2004, quando recebi a incumbência de fazer um livro sobre ele, que aceitei com o maior prazer. Ele era uma dessas caras conhecidas, desses atores que você cresce vendo na TV, no cinema, mas nunca pára para pensar no quanto realmente ele vale, que espaço ele ocupa. Ou deveria ocupar.
 
Herbert foi vítima de uma dessas lamentáveis pechas que os jornalistas tantas vezes colocam, em sua mania de classificação – tarefa que são insistentemente cobrados a exercer, é bom que se diga. Assim, ele era “o galã”, ou “galãzinho” e ninguém discutia muito se ele era bom. E era.
 
Johnny  teve a sorte de começar a carreira numa época em que tudo parecia começar também no Brasil – a TV (onde Johnny estrelou com a então mulher, Eva Wilma, a primeira sitcom brasileira, Alô Doçura), o Teatro de Arena de São Paulo (onde ele foi ator do grupo inaugural), o cinema de estúdios como Vera Cruz, Maristela, Multifilmes (aí foi onde ele firmou a imagem de galã).
 
Ele era galã, sim, mas não era só isso. Herbert foi um desses atores sutis, a quem cai bem a comédia fina e delicada, a ironia. Ele era de um tempo de delicadeza, que talvez uma parte do público contemporâneo nem saiba compreender mais, mergulhado que está na escatologia e no mau gosto do humor escrachado que predomina hoje.
 
Mas ele não foi só isso – como se fosse pouco! Muita gente esquece que foi também um ator versátil, capaz de estrelar um drama da potência de O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person, no papel do advogado dos injustiçados protagonistas. E que fez até filmes de cangaço, como O Cangaceiro Sanguinário, em que saiu no braço em cena com o fortão Maurício do Vale, numa luta de faca em que os dois acabaram se machucando - não com a faca, mas porque rolaram nas pedras, no chão.
 
Muitos não sabem também que ele foi um refinado produtor teatral, produzindo peças ao lado de Antunes Filho, e que enfrentou a estupidez e a brutalidade da censura em 1971, plena ditadura, governo Médici, para liberar Os Rapazes da Banda – o que o levou a ter que vender uma casa para pagar dívidas.
 
Talvez nunca se faça justiça a Johnny, que nos deixou neste quente final de janeiro. Faço a minha parte para que pelo menos nunca se esqueça que ele era um gentleman, o nosso Cary Grant.

A lista dos melhores filmes, do ano e da década

Fim de ano, hora de balanço. E de sofrimento. Embora 2010, ao que parece, não tenha sido particularmente brilhante – especialmente para a ficção no cinema brasileiro, com honrosas exceções – , é sempre duro fechar uma lista com apenas 10 melhores, como costuma ser a praxe.
 
Enfim, me matei em cima dos lançamentos e fechei esta lista abaixo, já deixando de fora uma série de menções de filmes que acho também extraordinários – mas alguma prioridade a gente tem que dar, então, lá vai:
 
A fita branca, de Michael Haneke  
 
O profeta, de Jacques Audiard  
 
Abutres, de Pablo Trapero  
 
Minha terra, África, de Claire Denis
 
Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Karim Ainouz e Marcelo
Gomes  
 
O sol do meio-dia, de Eliane Caffé  
 
Vincere, de Marco Bellocchio  
 
A estrada, de John Hillcoat  
 
Aproximação, de Amos Gitai  
 
Um homem que grita, de Mahamat Saleh Haroun  
 
 
Lembrados, lembradíssimos: O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira; Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar; Almas à venda, de Sophie Barthes; O grão, de Petrus Cariry; José e Pilar, de José Gonçalves; Tropa de Elite 2, de José Padilha; Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte; Terra deu, terra come, de Rodrigo Siqueira; A Origem, de Christopher Nolan.   
 
 
Pior ainda, me senti na obrigação de me arriscar a também fechar uma lista dos meus preferidos da primeira década do século. Coisa de louco!! Achei 10 muito pouco, cheguei aos 30. Então, vai ficar muita coisa que amo de fora, porque não dá para colocar 1.000 filmes, aí não vale...
 
Falando de década, a responsabilidade aumenta, porque tentei mesmo pensar quais filmes marcaram, sintetizaram o espírito da época, foram inovadores, polêmicos no melhor sentido e... ficaram. Para mim, pelo menos.
 
Ficou assim:
 
A questão humana, de Nicolas Klotz  
Santiago, de João Moreira Salles
Serras da desordem, de Andrea Tonacci  
A criança, de Jean-Pierre e Luc Dardenne  
Fale com ela, de Pedro Almodóvar  
O invasor, de Beto Brant
Amantes constantes, de Philippe Garrell  
O mundo, de Jia Zhang-ke  
Meu nome é Joe, de Ken Loach
Dez, de Abbas Kiarostami
Arca Russa, de Alexander Sokurov
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood
A vida dos outros, de Florian Henckel Von Donnesmarck
Dolls, de Takeshi Kitano
Bom dia, noite, de Marco Bellocchio
Um filme falado, de Manoel de Oliveira
Não estou lá, de Todd Haynes
Depois da vida, de Hirokazu Kore-eda
Dogville, de Lars von Trier
A última noite, de Robert Altman
Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci
Nossa música, de Jean-Luc Godard
Império dos Sonhos, de David Lynch
Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas
Os catadores e eu, de Agnès Varda
Diários de Motocicleta, de Walter Salles
O homem que não estava lá, de Joel e Ethan Coen
 
Nem bem acabei, já me lembro de Paul Thomas Anderson e de seus essenciais Magnólia e Sangue Negro. Sem contar todos os filmes sensacionais que passaram na Mostra SP (caso da minissérie Carlos, de Olivier Assayas, e do magnífico Mistérios de Lisboa, de Raul Ruiz) e outros festivais, e também no circuito alternativo (como o CCBB-SP, que teve Ozu, Hou Hsiao Hsien e logo terá Michael Powell e Emeric Pressburger).
 
Então, é isso aí. Convido os leitores a comentarem, criticarem e mandarem também as suas listas.
Que o amor pelo cinema nos inspire!

Liberdade para Jafar Panahi

Jafar Panahi, o cineasta iraniano, foi preso novamente. Desta vez, condenado a 6 anos de prisão e 20 anos de silêncio artístico, impedido de produzir e dirigir filmes, o que é a sua vida e a sua profissão.
 
É inaceitável o que acontece em termos de liberdade de opinião no Irã. Não podemos nos calar diante deste crime, desta prisão, que lembra os piores momentos da história do mundo, de todas as ditaduras.
 
O autor de filmes como O Círculo (em que deu face à discriminação das destemidas mulheres iranianas, ameaçadas inclusive do primitivo apedrejamento); Fora do Jogo, em que mostrou que as mulheres sequer podem torcer em estádios de futebol naquele país (!); Ouro Carmim, em que revelou poderosas contradições sociais e econômicas num país em que o debate político é sufocado pelo fundamentalismo religioso; O Balão Branco, síntese poética na história de uma criança; este homem não pode ser calado à força, nem mantido prisioneiro, nem impedido de deixar o seu país, nem levado a repetir a greve de fome a que recorreu no primeiro semestre de 2010, quando já havia sido levado à prisão. E isto apenas por fazer parte do movimento de oposição ao atual governo Mahmoud Ahmadinejad, fantoche populista de um conselho de aiatolás reacionários.
 
Se os foros políticos hesitam (e aí o Brasil também pode ser cobrado), pelo menos os foros culturais já estão se mobilizando para que a prisão de Jafar não caia no esquecimento, nem ele seja vítima de uma conspiração do silêncio – fácil de acontecer num mundo em que a mídia é obcecada pelo imediato e a celebridade fútil.
 
O Festival de Berlim, que acontece em fevereiro de 2011, já convidou o cineasta para ser seu jurado. Seu provável impedimento se tornará, então, pedra de toque de uma movimentação internacional pela sua libertação imediata. Todos os outros festivais do mundo poderiam fazer o mundo. Todas as associações de diretores, atores, produtores, roteiristas, técnicos cinematográficos de todo o mundo deveriam pensar em como premiá-lo, lembrá-lo, homenageando-o com retrospectivas e o que mais se puder criar em favor de sua liberdade. Que é, afinal, a liberdade de todos nós.
 
Soltem Jafar já!

Brasília olhou o novo e colheu novos caminhos e um descaminho

No final, a 43ª edição do Festival de Brasília acabou sem que a grande novidade prometida rolasse. Mas é inegável que se apontaram alguns caminhos – e pelo menos um descaminho.
Um saudável respiro está no longa Transeunte, em que Eryk Rocha experimenta a ficção com muitas idéias na cabeça e muita fé nas imagens. A fotografia em preto-e-branco e a montagem pulsante garantem que nos interessemos pelo tumulto interior do homem em seu primeiro dia de aposentadoria, querendo saber como reinventar sua vida (Fernando Bezerra).
Este foi, para mim, o melhor e o mais inventivo filme da seleção deste ano, que colocou em circulação novos diretores – alguns muito bons, caso não só de Eryk como do mineiro Sérgio Borges, que venceu os troféus de melhor filme e direção com seu sensível docudrama O Céu sobre os Ombros.
Essa fronteira indecisa entre realidade e ficção alimenta a produção mineira, com três personagens verídicos reencenando, não se sabe ao certo com que grau de fidelidade à realidade, elementos de suas vidas. De todo modo, os três têm biografias que desafiam a imaginação e merecem, só por isso, o Prêmio Especial do Júri que levaram como ‘personagens-atores’.
Esteve nestes dois filmes o melhor deste festival. Os dois trabalhos me parecem os mais capazes de frutificar em outros rumos, outras buscas. Bem ao contrário do pretensioso, formalista e vazio Os Residentes, de Tiago Mata Machado – que pareceu mais preocupado em entupir seu filme de referências intelectuais e cinematográficas do que em deixar uma fresta para que o público, qualquer público, pudesse penetrar. Os quatro prêmios ao filme me pareceram um injustificável excesso.
A Alegria, da dupla carioca Felipe Bragança e Marina Meliande, peca, até certo ponto, pela mesma ânsia de querer visitar todas as famílias cinematográficas às quais os diretores se sentem filiados. Não é um filme destituído de qualidades. Mas o peso das referências compromete o ritmo, em prejuízo da organicidade da história mesma.
Amor?, de João Jardim, tem seu ponto forte na forte empatia que alguns de seus atores despertam para histórias de amores violentos. Mas as histórias não têm todas a mesma força e talvez sejam em número excessivo (8) para este formato de documentário que busca amparo na ficção.
O pernambucano Vigias, de Marcelo Lordello, pagou o preço da inexperiência, bem como da falta de dinheiro e de tempo para extrair o filme que procura, a partir de uma sadia tomada de posição de enxergar o ‘andar de baixo’ da sociedade brasileira. Aliás, Pernambuco vem ficando na vanguarda deste cinema de observação social, com foco numa realidade contraditória e não raro, criminosa – como demonstrou o premiado curtametragista Felipe Peres Calheiros, e seu potente Acercadacana, que teve o mérito de apresentar ao país a luta da agricultora dona Francisca contra uma grande empresa para manter o usucapião de meio hectare.
Acercadacana foi uma exceção no panorama dos curtas, na média, fracos este ano. Outras exceções de qualidade foram Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini, Braxília, de Danyella Proença (apresentando, com muita propriedade, o poeta Nicolas Behr ao resto do Brasil) e A Mula Teimosa e o Controle Remoto, aula do melhor cinema do diretor Hélio Villela Nunes.  

O irresistível Carlão Reichenbach

Brasília - Num artista, pode-se amar a liberdade com que filma, e isso já é muito. Se, de quebra, ele for uma pessoa de generosidade e ternura exemplares, pode-se chegar a adorá-lo, sem medo e sem culpa. Este é sentimento que me domina quando vejo Carlão Reichenbach por aí.
 
O mais paulistano dos gaúchos (aliás, com todo o respeito, não vejo nada de gaúcho no Carlão), recebeu homenagem no 43º Festival de Brasília com a exibição da cópia restaurada de Lilian M. – Relatório Confidencial – filme lançado em 1975, retalhado na época pela censura da ditadura militar e que voltou a circular íntegro na sua anarquia criativa, misturando melodrama, crítica política (com um personagem calcado em Henning Albert Boilesen, o empresário financiador da repressão) e o mais escrachado humor.
 
Poucos diretores têm a erudição de Carlão, em literatura, filosofia e música. E ele combina tudo isso com o amor sincero e declarado pela chanchada. Por isso, não o incomodou nem um pouco que, anos atrás, um crítico tenha chamado Lilian M. de “chanchada underground”. Para ele isso não é ofensa, é coisa assumida. Tanto que ele lembrou aqui em Brasília que homenageia em todos os seus filmes esse gênero que Oswald de Andrade definia como “o bárbaro em nós”:.
 
Uma receita dessas de ser humano é irrepetível. Sorte nossa que vivemos na mesma época que Carlão. Eu até moro na mesma cidade, na mesma Sampa, e posso encontrar com ele em alguma esquina. O que às vezes, felizmente, acontece.
 
A reação de cumplicidade do público do Teatro Nacional Cláudio Santoro na noite de terça (23), a Lílian M., rindo junto de diálogos incrivelmente saborosos - e alguns tirados de Dale Carnegie a Ruy Barbosa, por incrível que pareça – permite a dúvida: por que não encontram espaço para relançamento nas salas de cinema filmes como esse? Por que não há, a bem da verdade, salas capazes de acolhê-los, em todos os cantos do Brasil? A quem interessa que o sistema dos multiplexes domine o mercado com tamanho absolutismo?
 
Tomare que isso mude. E que daqui a pouco se encontrem brechas neste nosso muito estreito mercado exibidor para que circule, por exemplo, a versão de 2h40 de Garotas do ABC, que Carlão gostaria de remontar.
 
Isso enquanto ele não filme esse projeto novo, O Anjo Desarticulado, sua primeira incursão no misticismo e no êxtase – que bem pode ser um contraponto à atual onda espírita do cinema brasileiro, devota demais com a doutrina, pobre demais como cinema.

Eduardo Coutinho, o velhinho inquieto

Eduardo Coutinho é um dos maiores cineastas do País. E nunca vai aceitar o título. Podia acomodar-se num pedestal de quem fez Cabra Marcado para Morrer – talvez o maior documentário da história do cinema brasileiro -, Edifício Master e Jogo de Cena. Mas, se o fizesse, não seria ele.
Coutinho é uma das inteligências mais inquietas do Brasil.Nunca está satisfeito com o que faz.Nunca acha que fez um grande filme. Sempre lembra os detalhes em que podia ter feito melhor. É de uma humildade franciscana, despojado de toda vaidade que não seja profissional. Está sempre atrás de alguma outra coisa, que está sempre adiante.Que nem ele sabe o que é porque, se soubesse, já não teria graça procurar.
Nesta noite de quinta (28-10), o diretor exibiu na Mostra de São Paulo um filme em processo, Um dia na vida – que provavelmente teve sua primeira e única sessão. Porque não é um filme. É uma pesquisa, que aponta para que lado a curiosidade de Coutinho está se dirigindo: a televisão aberta.
O ponto de partida do diretor – querer fazer um filme sobre citações, sobre esse dado da cultura contemporânea de que tudo o que se sabe e se diz vem de outro lugar, é uma reciclagem permanente. Pensou em usar como base os jornais. Sabiamente, seu produtor, o também cineasta João Moreira Salles (diretor do sublime Santiago), aconselhou que se voltasse para a televisão aberta.
Nasceu daí Um dia na vida, que coleta, a partir de 19 horas de programação televisiva, a 1 hora e meia assistida pelos privilegiados espectadores do Cine Livraria Cultura 1. Entre os quais me incluí, felizmente.
Poucas coisas podem dar melhor medida do horror que se perpetra diariamente contra retinas, mentes e corações diariamente neste País – e, como lembrou Coutinho, não só aqui, também nos EUA, na Itália, em toda parte. “A TV é uma máquina de despolitização”, definiu com muito acerto o diretor.
Ele ainda não sabe o que vai fazer com este material – que não pode ser exibido regularmente, por questão de direitos de imagem, que dificilmente seriam concedidos a uma obra com potencial tão crítico e onde aparecem apresentadores-medalhões dos principais programas e telejornais, pastores e outros personagens da telinha. Brotam aí os piores vícios da sociedade brasileira, o lado mais obscuro da condição humana, do voyeurismo pelo grotesco e a violência à implacável dilapidação da imagem da mulher.
Ontem, fui pra casa pensando em todo esse horror, que precisa ser enfrentado, discutido, revisto, redimido. Pela democracia, pela arte, pela inteligência, mas precisa, urgentemente. Tomara que Coutinho siga adiante com esse projeto e traga a todos nós outro de seus filmes essenciais.