As joias de Wim Wenders
Wim Wenders abriu neste sábado (23) a seção de depoimentos Os Filmes da Minha Vida da 34ª. Mostra de São Paulo.
Foi uma noite mágica para o diretor alemão na Cinemateca paulistana. Na sala Petrobras, acontecia a primeira sessão da Mostra de Até o Fim do Mundo (91), na versão do diretor, com 279 minutos – que reinventa a obra completamente, para quem viu a versão cortada por imposição dos produtores, que tinha 2 horas a menos. A sala BNDES da mesma Cinemateca exibia também a primeira sessão – neste festival – de Asas do Desejo (87), um dos maiores cult da obra do diretor. Um dos filmes da minha vida, sem dúvida.
Com tanto clima para se criar uma egotrip do celebrado diretor, o que se viu e ouviu em seu depoimento foi uma aula de inteligência, classe, suavidade e poesia. Um dos mais destacados nomes do chamado Novo Cinema Alemão, ao lado de Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog, Wenders contou memórias de sua infância, quando a avó lhe contava histórias e levava ao cinema (vem daí também o primeiro trauma e a fobia contra filmes de terror, que ele absolutamente não assiste).
Como lhe era pedido, Wenders nomeou alguns de seus favoritos. O primeiro deles, A Regra do Jogo, de Jean Renoir; O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman – o diretor que o fez desistir da Medicina, profissão do pai – O Homem do Oeste, de Anthony Mann (que lhe ensinou a gramática do cinema); o média experimental Wavelength, de Michael Snow (1967) ; Tokyo Story, de Yasujiro Ozu (um de seus diretores preferidos); Blow Up, de Michelangelo Antonioni; Sem Destino, de Dennis Hopper; Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch; Stalker e O Espelho, de Andrei Tarkovsky; Playtime, de Jacques Tati; e dois brasileiros, Glauber Rocha (Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro) e Walter Salles (Diários de Motocicleta); além de diretores como Howard Hawks, John Cassavetes, Nicholas Ray, Frederico Fellini, Sam Fuller. Uma lista longa, eclética e que ele deixou claro que não esgotava suas preferências. O que se esgotou foi o tempo e a disponibilidade, pelo adiantado da hora.
Wenders, aliás, está concedendo a esta edição da Mostra algumas de suas jóias – como a exposição de fotos que ele abriu no MASP e que é um complemento indispensável a quem aprecia sua obra. As fotos do cineasta (que queria ser pintor) são um resumo do tipo de olhar que ele dedica às paisagens de todo o mundo e ao seu sentido do inesperado, um de seus melhores instintos como artista.
Imperdível também é esta sua versão de Até o Fim do Mundo. Como ele mesmo disse na apresentação da primeira sessão, esqueçam a outra versão. Este é o filme verdadeiro e autêntico, como ele o sonhou, cheio de imaginação, sacadas visuais, liberdade narrativa. Só há mais uma sessão prevista, nesta segunda (25), 16h, no Cine Livraria Cultura 2. Quem puder, não deve perder. São quatro horas e meia que passam voando.

Cannes - É chover no molhado, mas não resisto: Juliette Binoche (na foto com o diretor Abbas Kiarostami) é tudo de bom.