17/06/2026

As joias de Wim Wenders

Wim Wenders abriu neste sábado (23) a seção de depoimentos Os Filmes da Minha Vida da 34ª. Mostra de São Paulo.
 
Foi uma noite mágica para o diretor alemão na Cinemateca paulistana. Na sala Petrobras, acontecia a primeira sessão da Mostra de Até o Fim do Mundo (91), na versão do diretor, com 279 minutos – que reinventa a obra completamente, para quem viu a versão cortada por imposição dos produtores, que tinha 2 horas a menos. A sala BNDES da mesma Cinemateca exibia também a primeira sessão – neste festival – de Asas do Desejo (87), um dos maiores cult da obra do diretor. Um dos filmes da minha vida, sem dúvida.
 
Com tanto clima para se criar uma egotrip do celebrado diretor, o que se viu e ouviu em seu depoimento foi uma aula de inteligência, classe, suavidade e poesia. Um dos mais destacados nomes do chamado Novo Cinema Alemão, ao lado de Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog, Wenders contou memórias de sua infância, quando a avó lhe contava histórias e levava ao cinema (vem daí também o primeiro trauma e a fobia contra filmes de terror, que ele absolutamente não assiste).
 
Como lhe era pedido, Wenders nomeou alguns de seus favoritos. O primeiro deles, A Regra do Jogo, de Jean Renoir; O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman – o diretor que o fez desistir da Medicina, profissão do pai – O Homem do Oeste, de Anthony Mann (que lhe ensinou a gramática do cinema); o média experimental Wavelength, de Michael Snow (1967) ; Tokyo Story, de Yasujiro Ozu (um de seus diretores preferidos); Blow Up, de Michelangelo Antonioni; Sem Destino, de Dennis Hopper; Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch; Stalker e O Espelho, de Andrei Tarkovsky; Playtime, de Jacques Tati; e dois brasileiros, Glauber Rocha (Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro) e Walter Salles (Diários de Motocicleta); além de diretores como Howard Hawks, John Cassavetes, Nicholas Ray, Frederico Fellini, Sam Fuller. Uma lista longa, eclética e que ele deixou claro que não esgotava suas preferências. O que se esgotou foi o tempo e a disponibilidade, pelo adiantado da hora.
 
Wenders, aliás, está concedendo a esta edição da Mostra algumas de suas jóias – como a exposição de fotos que ele abriu no MASP e que é um complemento indispensável a quem aprecia sua obra. As fotos do cineasta (que queria ser pintor) são um resumo do tipo de olhar que ele dedica às paisagens de todo o mundo e ao seu sentido do inesperado, um de seus melhores instintos como artista.
 
Imperdível também é esta sua versão de Até o Fim do Mundo. Como ele mesmo disse na apresentação da primeira sessão, esqueçam a outra versão. Este é o filme verdadeiro e autêntico, como ele o sonhou, cheio de imaginação, sacadas visuais, liberdade narrativa. Só há mais uma sessão prevista, nesta segunda (25), 16h, no Cine Livraria Cultura 2. Quem puder, não deve perder. São quatro horas e meia que passam voando.

A imagem torta dos países

Vive acontecendo e agora de novo com o drama romântico Comer, Rezar, Amar – que estreia no Brasil no próximo dia 1 de outubro. Os italianos estão chiando pela imagem anacrônica e às vezes preconceituosa que o filme passa deles – como nas cenas em que a protagonista, Liz (Julia Roberts) aluga um quarto numa velha casa em Roma, em plenos anos 2000, e lhe é oferecida uma chaleira de água quente para tomar seu banho na banheira...
 
Grandes jornais italianos, como o romano La Repubblica e o turinense La Stampa, reclamaram que os romanos são retratados como um bando de pessoas barulhentas, assanhadas e dispostas 24 horas ao dolce far niente – que é como se chama aquele bom e velho ócio, em italiano.
 
Assisti ao filme esta semana e não posso deixar de me solidarizar com os italianos – realmente, a imagem passada dos nossos fratelli é de uma banalidade atroz, até quando o filme pretende retratá-los positivamente (o que até parece pretender). Nós, brasileiros, também somos vítimas preferenciais de uma enxurrada de clichês. Quantos filmes já não vimos em que um bandido anuncia que virá esconder-se no Rio ?
 
Aliás, sobra pros brasileiros também em Comer, Rezar, Amar, até porque o amorzão de Liz acabará sendo Felipe que, apesar de interpretado pelo espanholíssimo Javier Bardem, é um personagem brasileiro. Em que pese minha admiração incondicional por Bardem, um dos grandes atores da atualidade, não pude deixar de me incomodar com o indisfarçável sotaque quando ele arrisca umas palavras em português. Não precisava, né?
 
Uma outra fala chamou mais minha atenção. Nela, Liz dizia que é prática natural e costumeira por aqui que os pais beijem os filhos na boca. De onde tiraram isso, eu não sei.  
 
Os filmes de Hollywood, inclusive este, parecem gostar de nós, latinos, quando nos colocam no posto de pessoas que sabem realmente o que é viver, se divertir, amar, curtir tudo e todos. Aparentemente, a noção é positiva. Mas só aparentemente.

A pisada de bola de Tarantino em Veneza

O presidente do júri de Veneza 2010, Quentin Tarantino, perdeu uma ótima oportunidade de marcar uma posição hoje, durante a coletiva que apresentou os jurados por aqui.
 
Quando foi colocado que o cineasta iraniano Jafar Panahi, que já esteve preso este ano em seu país, fez greve de fome e continua impedido pelo governo Ahmadinejad de filmar (!!!!), não teve permissão de vir a Veneza - embora seu novo curta, The Accordion, esteja sendo exibido na programação -, Tarantino não disse simplesmente nada. Afirmou: “Não quero fazer nenhuma declaração política”. E só.
 
Esperem aí – o que leva um diretor consagrado, internacionalmente premiado, que não depende para nada do governo iraniano e está em Veneza num posto desses a não assumir uma posição, pessoal que fosse, num caso de liberdade de expressão de um colega? Ficou feio, muito feio. Pareceu covardia. Shame on you, Quentin!
 
Bem melhor fizeram Abbas Kiarostami, que se colocou publicamente e, ele sim, com risco pessoal – já que é iraniano – quando esteve no festival de Cannes, em maio. E também a atriz francesa Juliette Binoche, que não só derramou lágrimas por Panahi como deu declarações empenhadas por ele, que estava então em greve de fome na prisão. Por causa deles dois e de dezenas de outros artistas que repudiaram publicamente a situação de Panahi na época, ele foi solto. Se depender de Tarantino, a situação dele agora não vai melhorar.
 
O próprio Panahi divulgou uma bela declaração hoje, que circulou em Veneza. Abaixo, a íntegra:
 
Estive no Festival de Veneza dez anos atrás com meu filme O Círculo. Este ano, meu curta The Accordion, que filmei antes de minha prisão, está sendo exibido neste grande festival. Embora eu esteja livre da prisão agora, ainda não estou livre para viajar fora de meu país e freqüentar festivais de cinema. Também fui oficialmente impedido de filmar nos últimos cinco anos. Quando um cineasta não tem permissão para fazer filmes, ele está mentalmente aprisionado. Ele pode não estar confinado a uma pequena cela,mas ele ainda está mentalmente restrito a uma prisão maior.
 
Quero aproveitar a oportunidade para agradecer a todos aqueles que me apoiaram enquanto cineasta, especialmente Alberto Barbera e Marco Müller, que tem desempenhado papeis fundamentais para o sucesso do festival de Veneza.

Gostaria também de agradecerà comunidade internacional de cineastas por seu generoso apoio enquanto estive preso. Embora meu aprisionamento tenha sido uma experiência amarga, rendeu um doce fruto para mim na medida em que me ajudou a perceber que nós cineastas e amantes do cinema de todo o mundo, apesar de todas as nossas diferenças culturais, somos uma comunidade unida falando com uma só voz. Em minhas horas mais desesperadas na prisão, quando estive em greve de fome, continuei a encarar-me como um orgulhoso membro desta comunidade e, portanto, tentei manter minha dignidade Professional e nunca vacilei em minha posição de manter-me sincero diante de mim e de minha profissão. Acredito que todo o apoio que recebi também veio de indivíduos e organizações que crêem fortemente no cinema e no direito de um cineasta à livre expressão. Esperemos que os governos do mundo algum dia compartilhem também desta mesma convicção.
Jafar Panahi
 
 
Dá para negar apoio a alguém assim ?

Veneza é uma festa...

Passou Paulínia, passou Gramado, já vai começar Veneza. A temporada dos festivais se acelera muito no segundo semestre. Mal dá tempo de respirar. A gente gosta, mas também cansa!
 
Veneza começa já na próxima quarta (1-9), com todo jeito de que pegou uma parte dos filmes que não ficaram prontos a tempo para Cannes – que, em maio, teve uma de suas edições mais pálidas dos últimos anos. Nesta safra veneziana, aparecem muitas novidades norte-americanas – e acho que, há muito tempo, a seleção yankee não andava tão animadora. Vai ter novos de Sofia Coppola, Julian Schnabel, Robert Rodriguez, Monte Hellman, Vincent Gallo (oops, que será que ele vai aprontar desta vez?), Martin Scorsese, Kelly Reichardt...Enfim, parece que, no cinema, a crise já está passando por lá.
 
Como sempre, a seleção de Veneza, ainda mais sob a gestão do seu diretor suíço Marco Müller, esnoba olimpicamente os latino-americanos. Mais uma vez, um único filme, o chileno Post Mortem, de Pablo Larraín (diretor do ótimo Tony Manero), representa o continente, na competição. O Brasil só vai de curta na mostra Horizontes, O mundo é belo, de Luiz Pretti, além da coprodução com a Espanha, Lope, de Andrucha Waddington. Convenhamos, é representante de menos para esta parte do mundo, considerando a grande produção brasileira e não só, a argentina, a mexicana, a uruguaia (o pequeno país vizinho está em alta ultimamente)...
 
A Europa comparece em peso na caça ao Leão de Ouro, com nomes notáveis, como Jerzy Skolimowski, Tom Tykwer (que alguns esperam que se “redima” de algumas superproduções comercialoides, como Trama Internacional), François Ozon, Alex de la Iglesia.
 
Os orientais, menina dos olhos de Marco Müller (ele até fala chinês), este ano estão bem pouco representados – será que a produção por lá sentiu alguma crise? Em todo caso, John Woo vai passar no festival do Lido para pegar seu Leão de Ouro de carreira e estarão competindo dois filmes japoneses (um de Takashi Miike, outro do vietnamita Tran Anh Hung) e um chinês, do ás de ação de Hong Kong, Tsui Hark.
 
As inúmeras mostras paralelas vão enlouquecer os pobres jornalistas que lá estarão (eu inclusive), porque não vai dar tempo de ver quase nada das suas grandes atrações. Será o caso do pouco visto The Last Movie, filme de 1971 de Dennis Hopper (que morreu em maio); o novo de Marco Bellocchio (Sorelle Mai); o documentário de Scorsese sobre Elia Kazan, o colega que colaborou com a famigerada comissão McCarthy (A letter to Elia); toda a seção retrospectiva da comédia italiana (1910-1988)... Por mim, eu ficava só nessa última...

Ecos de Paulínia

A terceira edição do Festival de Paulínia, encerrado na quinta (22), acabou como devia – com um saldo bem positivo. O festival resistiu bem a dois filmes de ficção muito abaixo do esperado, que foram amplamente superados por quatro outros com realização de boa para ótima e, o que é melhor, com potencial de público.  
 
Os debates dos filmes foram, quase sempre, enriquecedores – a exceção foi o de As 12 Estrelas, de Luiz Alberto Pereira, que não passou de uma apresentação auto-indulgente de elenco e equipe, sem dar tempo para perguntas e discussão real do filme. Mesmo o filme mais criticado pelos jornalistas presentes, Dores & Amores, de Ricardo Pinto e Silva, acabou rendendo o debate mais tenso, acalorado e talvez mais produtivo também. Isto apesar da visível (talvez compreensível) tentativa de uma claque a favor do diretor de criticar os críticos de maneira leviana, como quando um deles afirmou que críticos de cinema são sempre “cineastas frustrados” - uma afirmação que a história do cinema desmente por si, com os exemplos de toda a Nouvelle Vague, sem contar o próprio Glauber Rocha e diretores que participaram desta edição do festival de Paulínia, como Flávio Tambellini (do poético e excelente romance Malu de Bicicleta) e Ricardo Calil (codiretor do ótimo documentário Uma Noite em 67). Enfim, bobagens desmoronam por si mesmas.
 
Dois filmes, os mais premiados – 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, direção coletiva de 7 promissores jovens cineastas, e Bróder, estreia pulsante em longas do paulista Jefferson De – trouxeram para a tela de Paulínia a dureza social do País, retratado em todos os seus matizes, da crueldade à ternura, passando pelo humor. O Brasil de verdade, em todas as suas cores, respirou nestes excelentes filmes. Único representante do cinema adolescente, que agora finalmente desponta nas novas produções, Desenrola, de Rosane Svartman, não fez feio – embora pudesse ter sido um pouco menos tímido em questões como o aborto, o que não fez com medo de aumentar sua censura.
 
Malu de Bicicleta, de Flávio Tambellini, baseado em livro e roteiro de Marcelo Rubens Paiva, restabeleceu ao amor um território que é dele, pontuado pela paixão, o sexo, o humor, a dúvida e todas as suas incertezas, num plano jovem e adulto. Um amor que foi maltratado nos decepcionantes As 12 Estrelas e Dores & Amores, que escorregaram num humor grosso, cafajeste, e numa realização precária, dramática e cinematograficamente. Pode ser que dialoguem com um público mais amplo – mas até disso eu duvido.
 
Sem nenhuma grande discrepância, os documentários foram de bom nível. Leite e Ferro, de Claudia Priscila, mostrando o universo de detentas que cuidam dos filhos numa unidade provisória, e Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, retratando o encontro inusitado entre o artista plástico Vik Muniz e os catadores do lixão de Gramacho, no Rio, carregaram todos os prêmios, mas não foram unanimidade fora do júri. Devia ter sobrado um prêmio para Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil.
 
Apesar de algumas análises apressadas e críticas infundadas, o pólo de cinema de Paulínia mostra força e maturidade. Nem tudo o que se produziu lá até hoje foi um acerto, mas não há pólo de produção no mundo que não tenha seus equívocos, independentemente da comissão de seleção que se reúna. Pode-se criticar uma ou outra produção individualmente, mas não é correto questionar a existência do pólo. É uma das melhores experiências de todos os tempos no cinema brasileiro. Por isso, críticas são bem-vindas – desde que não irresponsáveis -, visando seu aperfeiçoamento.

O temporário e o permanente em "O beijo da mulher aranha"

É curioso o percurso de um filme, bem como o de um diretor e uma carreira. Falo de O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, que, 25 anos depois de seu lançamento, volta a circular em cópia restaurada.
 
A revisão do filme leva a emoções diferentes sobre o que está ou não datado na obra e no cineasta – no caso de Babenco, menos por esta obra, que mantém muito de sua força, e mais pelo trabalho que ele realizou depois dos anos 90, que não retém a mesma contundência.
 
O argentino-brasileiro Babenco – é imprescindível assinalar as duas nacionalidades, dada a natureza sempre ambígua e bipolar do diretor – é autor de pelo menos cinco obras-primas do cinema nacional, entre as quais se inclui naturalmente este O Beijo da Mulher Aranha e não apenas porque o filme teve 4 indicações ao Oscar.
 
Menos impecável do que se poderia desejar, com riscos e manchas, a cópia restaurada de O Beijo da Mulher Aranha assinala também, até por essas cicatrizes inevitáveis do celuloide, a implacável passagem do tempo, incorporando-o.
 
O filme envelheceu um pouco, é verdade, até porque estão bem longe da América Latina de hoje, felizmente, questões da época, como a tortura política, que formam o âmago da história dos prisioneiros Valentin (Raul Julia) e Molina (William Hurt).
 
Por outro lado, mantém sua vitalidade intocada a essência dos sentimentos contraditórios que terminam por unir dois homens tão diferentes no cárcere. O filme de Babenco, baseado em Manuel Puig, traduz muito bem essa visceralidade da paixão que se impõe mais pelas circunstâncias do que pelas conveniências ou credos pessoais ou políticos. E também a misteriosa energia encantatória da narrativa, espécie de metalinguagem do próprio filme que se realiza em cima dos relatos de Molina sobre os filmes de sua vida.
 
Nem sempre os espectadores de hoje – e, de resto, os de qualquer época, me parece – tem a percepção da ironia que se infiltra nesse filme da imaginação de Molina que conduz parte da história. Ao meu lado no Teatro de Paulínia, na exibição que abriu o 3º festival da cidade, dois jovens jornalistas, uma moça e um rapaz, demonstraram por suas declarações e gargalhadas, que não pude deixar de ouvir, não ter entendido a ironia proposital da interpretação farsesca e caricatural de Sonia Braga e dos demais atores do filme narrado por Molina. “Ela está muito canastrona”, criticava revoltada a minha jovem colega. Tive esperanças de que, com o decorrer do filme, ela e seu acompanhante percebessem que o tom era intencional e tinha função na narrativa. Em vão.
 
Isto não é para dizer que hoje as platéias são menos inteligentes para entender esses subtons e sutilezas. Na época do lançamento do filme, acho que muita gente pode igualmente não ter entendido, o que não impediu que o filme alcançasse cerca de 800.000 espectadores, se não me engano. Mas acho que hoje é, sem dúvida, mais disseminado um tipo de espectador muito viciado no pseudo-realismo extremo imposto pela massiva produção de Hollywood, bem como pelas novelas de TV. Não é inofensivo você crescer alimentado por um cardápio cultural desses. Meus dois coleguinhas devem ser vítimas dessa lamentável síndrome.
 
Mas, voltando ao Babenco, tomara que ele vença esse seu mau humor e má vontade crônicos e resolva, finalmente, as pendências que impedem que sua obra circule em DVD como deve. Aí sim as pessoas poderão conhecer ou reconhecer filmes como O Beijo da Mulher Aranha e as outras, para mim, quatro obras-primas dele: Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia (77), Pixote – A lei do mais fraco (81), Ironweed (87) e Brincando nos campos do senhor (91). Acho que, depois disso, ele não fez nada igual, o que não significa que não poderá fazer, se um dia tiver meios e energia para isso. De todo modo, é uma obra de respeito.
 
 

Saudades de Saramago

Descobri os livros de José Saramago aos poucos. A literatura que ele fazia não era fácil. Um de seus primeiros livros a me cair nas mãos foi Levantado do Chão que, confesso, abandonei. Ainda não tinha me encantado por aquela prosa densa e hipnótica, capaz de carregar o leitor no fluxo de um discurso sem pontos, com vírgulas escassas, em que os pontos de exclamação ficavam implícitos no volume humano do que ele dizia.

 
Felizmente, não desisti de Saramago e me apaixonei por Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Caim. Ainda não li toda a obra dessa monumental catedral que ele construiu na língua portuguesa. Espero fazer isso. Será o consolo por sua partida, que inicia o período das saudades eternas.
 
Talvez através dele eu tenha podido compreender melhor a lusitanidade que é uma espécie de segunda natureza minha, que está na minha origem familiar, mas que nem sempre é fácil de decifrar, sendo brasileira e tendo vivido toda a minha vida aqui. A dele era uma lusitanidade forte e questionadora, que não procurava agradar a ninguém e não se esquivava das palavras fortes. Aliás, Saramago não temia palavra alguma e era por isso capaz de usar todas elas muito bem.
 
O cinema não lhe esteve muito próximo, porque ele assim o quis, não permitindo muitas adaptações. Mas sobraram de suas obras pelo menos dois filmes, que considero à altura de suas páginas: Jangada de Pedra, de George Sluizer, e Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles. No mais, as imagens que ele deixa para trás são os sonhos que ele conseguiu sempre evocar no nosso espírito por sua imensa literatura. Que fica entre nós como semente.

Meu heroi pessoal, Ken Loach

Cannes – Ken Loach é um dos meus herois pessoais. O fato de que há tanto tempo ele continue a fazer os filmes que faz, cheios de humanismo e de uma visão de política que supera de longe qualquer partidarismo, sintonizando sempre algumas das mais candentes questões contemporâneas, costuma reativar minha fé na humanidade. Loach me dá, com seu trabalho, um justo argumento contra o cinismo geral que toma conta não só da política, como da arte, do jornalismo (este, até por vício profissional), como do mundo todo.
 
Lúcido quanto aos limites da humanidade, em que ele acredita com uma fé moderada por naturais nuances de cautela realista, Loach não se tornou ainda um cético ou niilista. É sempre uma inspiração ouvi-lo falar, como hoje à tarde, na coletiva do Festival de Cannes, ao lado de seus inseparáveis mosqueteiros, o roteirista Paul Laverty e a produtora Rebecca O’Brien – que sabe Deus como arranja dinheiro de todos os países possíveis para que ele continue assinando filmes contundentes como Route Irish, talvez o mais indignado concorrente à Palma de Ouro deste ano. O filme radiografa a incrível sanha de alguns empreendedores privados para tirar lucro da guerra do Iraque, explorando trabalhadores estrangeiros (inclusive vários latinoamericanos) e mantendo-se a salvo de dar satisfações a qualquer lei ou país, cometendo toda a espécie de crimes e nem mesmo pagando impostos. Impiedosos caubóis modernos.
 
Se há uma característica que admiro em Loach e Laverty é a combinação de sensibilidade e inteligência, sem nenhuma pieguice, que sempre encontram para personalizar as questões sociais mais complexas, sintetizando-as em personagens que dependem do próprio trabalho para viver. Loach não é um romântico. É um sadio pessimista. Sabe muito bem que a simples derrota do Partido Trabalhista britânico de Tony Blair, que apoiou a guerra do Iraque, não quer, em si, dizer muita coisa. A mudança da política, para ele, é muito mais do que, como ele diz, “mudar de um partido de direita para outro”. Ele não acredita nos mocinhos bonitos, como Gregg Braden, a nova estrela em ascensão do Partido Conservador britânico.
 
Rebelde incansável, inclusive contra a falta de espaço do cinema independente nos multiplexes (claro que isso acontece tanto na Inglaterra, como no Brasil e no resto do mundo), Loach está descobrindo uma brecha para ampliar o público de seus filmes na internet. Sua produtora, Rebecca O’Brien, abriu um canal para os filmes dele no Youtube e está lutando para convencer os detentores dos direitos de alguns títulos a abrir mão deles para colocar todos de graça na rede. A nova trincheira destes incansáveis três mosqueteiros do cinema é a web. Boa sorte para eles aí também.

Paixão, teu nome é Juliette Binoche

Cannes - É chover no molhado, mas não resisto: Juliette Binoche (na foto com o diretor Abbas Kiarostami) é tudo de bom.

Estrela absoluta do filme Copie Conforme, o diálogo amoroso de um casal, de Abbas Kiarostami, ela roubou a cena da coletiva de hoje aqui no festival com uma furtiva lágrima – que derramou pela notícia que chegou bem naquela hora, que o cineasta Jafar Panahi, preso no Irã há mais de dois meses, tinha entrado em greve de fome.
 
Vendo a expressão de Binoche, se entende instantaneamente porque ela é a atriz disputada por diretores do mundo todo (há alguns anos, Walter Salles já quis filmar com ela um filme de época, The Assumption of a Virgin, mas não deu certo por questão de agenda, pena). Agora ela se prepara para trabalhar na China, num projeto com Jia Zhangke.
 
Vendo aquele rosto cristalino como mármore, você entende como as emoções passam por aquela pele branquinha, por aqueles olhos com um quê de melancólicos, aquela boca que se abre num dos sorrisos mais encantadores do mundo. Falando de suas admirações na coletiva, ela mencionou a italiana Anna Magnani. “Não há mentiras naquele rosto”, definiu Binoche. A frase se aplica sem nenhuma reserva a ela mesma. Binoche é a Magnani moderna.
 
O tempo que passa, a maturidade, tudo isso que aos outros mortais faz mal, a Binoche parece que faz bem. Ela está cada vez mais linda, mais sensível, mais inteligente, mais encantadora. Havia um clima de sedução naquela sala de coletivas de Cannes depois que ela passou.