Julia Murat combina ficção e documentário em filme que rodou festivais internacionais
Julia Murat revela em entrevista ao Cineweb como foi trabalhar com atores profissionais e não-atores em seu filme, "Histórias que só existem quando lembradas".
- Por Alysson Oliveira
- 06/07/2012
- Tempo de leitura 3 minutos

por Alysson Oliveira
Em seu primeiro longa de ficção, a diretora Julia Murat não abandonou completamente o lado documental. Histórias que só existem quando lembradas dialoga com o presente, conectando tempo e espaço através das imagens. “A relação fotografia e narrativa nesse filme é uma via de mão dupla: uma interfere e influencia a outra”, disse a diretora em entrevista ao Cineweb.
A inspiração para longa veio da imagem de um forte militar que a cineasta conheceu quando trabalhou com a mãe, Lúcia Murat, nas filmagens de Brava Gente Brasileira. “O cemitério da região está fechado há anos. Quando morrem os habitantes, são enterrados na cidade mais próxima. Eu conheci o Forte Coimbra em 1999 e, desde então, quis escrever um roteiro onde uma velha senhora teria de conviver com a impossibilidade de ser enterrada em sua terra natal”.
Foram praticamente dez anos para que a diretora pudesse voltar ao lugar, a primeira vez em 2007, para percorrer a região e começar uma pesquisa. “Depois retornei em 2009, realizando uma séria de brincadeiras de ‘auto-ficcionalização’ com mais de 100 senhores que moravam em todas as cidades que filmaríamos e mais algumas”.
Enquanto isso, Julia procurava atores em São Paulo, Rio e Buenos Aires (a Argentina é coprodutora do filme). Ela conta que conversou bastante com os protagonistas Sonia Guedes e Luís Serra sobre o tom que empregariam em suas interpretações. “Na maioria das vezes, diziam que se sentiam como se não estivessem interpretando. Diante da resposta de que era isso mesmo que buscávamos – atingir a impossível meta da ’não-interpretação’ -, sentiam-se perdidos”.
Colocar lado a lado Sonia e Lisa Fávero (“acostumada a uma interpretação ‘distanciada’”) foi um “duelo”, conta Julia. “No ensaio entre Sônia e Lisa, uma queria improvisar, a outra, trabalhar o texto. Foi o embate entre esses dois estilos que definiu a linha de interpretação do filme”. Além dos atores profissionais, um grupo de moradores da região compôs o elenco. “Os chamados ‘não-atores’ não são um grupo uno, mas pessoas que vivem naquela região, cada um com sua experiência de vida, sua história, sua particularidade e seu ‘estilo’ de interpretação”.
Nas imagens, explica Julia, “optamos por construir planos abertos, privilegiando o conjunto dos objetos, os espaços e a simples duração do tempo. É uma fotografia onde tudo está dado no quadro, onde cada coisa tem o seu lugar, que se repete assim como as cenas e os dias”.
Da experiência de viajar a diversos festivais do mundo com o filme, Julia conta que aprendeu muito sobre mercado internacional de cinema e outras culturas.
“Sair de Mumbai, na Índia, com o caos e a pobreza explícitos, ir para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, com a limpeza da nova tecnologia, foi um experiência incrível”.
“Sair de Mumbai, na Índia, com o caos e a pobreza explícitos, ir para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, com a limpeza da nova tecnologia, foi um experiência incrível”.
