Renata Pinheiro encontra em Carro Rei o Brasil contemporâneo
Em longa premiado, que estreia quinta (30), cineasta fala do país de hoje por meio de um carro com desejos e sonhos de transformar o mundo. (Foto: Raul Toscano/Divulgação)
- Por Alysson Oliveira
- 28/06/2022
- Tempo de leitura 5 minutos

Mercedes (Jules* Elting) e uma relação delicada com o Carro Rei
Tudo começou com carros tomando conta das calçadas por onde transitava a cineasta, roteirista, diretora de arte e artista plástica Renata Pinheiro. “E se fizesse um filme no qual os carros se tornam os donos da cidade e materializasse a falta de respeito dos motoristas com os pedestres?”, imaginou a diretora, conforme ela conta em entrevista ao Cineweb. Daí nasceu a semente de Carro Rei, multipremiado filme cujo roteiro ela assina com Sergio Oliveira e Leo Pyrata, sobre um garoto que conversa com automóveis, um mecânico revolucionário e um carro humanizado.
Renata ficou por muitos anos trabalhando na ideia do longa e, posteriormente, em seu roteiro
Assim, com isso, o filme acabou absorvendo a virada política no país em 2016. “O golpe daquele ano acabou servindo para a construção do personagem carro. Eu acho importante que a arte saiba lidar com seu presente e, assim, servir como uma espécie de retrato para as gerações futuras”.
Assim, com isso, o filme acabou absorvendo a virada política no país em 2016. “O golpe daquele ano acabou servindo para a construção do personagem carro. Eu acho importante que a arte saiba lidar com seu presente e, assim, servir como uma espécie de retrato para as gerações futuras”.
A política brasileira do século XXI é, de certa forma, o que moldou o roteiro de Carro Rei. A diretora explica que, por um lado, o bom momento econômico da primeira década permitiu um aumento do consumo de carros, o que transformou o trânsito e a maneira como as cidades são ocupadas. A virada política e econômica na década passada, no entanto, cessou o a prosperidade. Hoje milhões de famílias estão voltando à pobreza e seus carros, tornando-se ultrapassados.
No filme, uma lei proíbe, do dia para a noite, que carros com mais de 15 anos circulem. Uno (Luciano Pedro Jr), um rapaz com o dom de conversar com carros, e seu tio Zé Macaco (Matheus Nachtergaele), um mecânico, procuram um meio de burlar essa resolução. Disso nasce o personagem Carro Rei, feito a partir de partes de veículos antigos e que acaba se apaixonando por Mercedes (Jules* Elting), uma artista plástica feminista interessada em destruir os símbolos de poder masculinos.
Carro Rei foi rodado em março de 2019 e, com um orçamento enxuto, precisou ser filmado em menos semanas do que o necessário, ou seja, em 4 e meia. A diretora, no entanto, no fim daquele ano, precisou voltar ao set. “Fiz um primeiro corte e não fiquei contente com ele, precisamos mudar muita coisa. Procurei outro montador, Quentin Delaroche, fizemos outra versão, mas ainda assim, senti que faltavam cenas. Filmamos outras que acabaram sendo fundamentais, inclusive para o final da história”.
Outra peça fundamental nesse projeto foi Matheus Nachtergaele, com quem Renata tem uma relação de longa data – inclusive assinou a direção de arte do filme que ele dirigiu, A Festa da Menina Morta, de 2008. “Logo na primeira conversa, ele trouxe muitas contribuições para o Zé Macaco. Ele me contou que é fã de símios, que adora os animais, tem vários livros sobre o assunto. Ele é muito observador, e isso está no corpo dele em cena”.
Era também fundamental que existisse química entre os atores que interpretam Zé Macaco e Uno, tio e sobrinho e figuras centrais em Carro Rei. “Fizemos vários testes até encontrar o Luciano. Precisávamos que houvesse cumplicidade entre os dois personagens, que conversassem na troca de olhares. Foi um processo longo, para encontrar o ator certo e também depois na preparação. Mas, creio, valeu a pena. A mim, não interessa estrelas. Quero bons atores, quer sejam famosos ou desconhecidos.”
Já Jules* (o nome delu traz esse asterisco, como um acento) já era conhecide de Renata, por seu trabalho com José Celso Martinez Correia, no Teatro Oficina, e também do filme português O Ornitólogo. “Jules tem a tendência de lidar com personagens exóticos. Para elu, Mercedes veio de Marte. Elu também me contou que foi esta personagem que acendeu a vontade de fazer a transição para não-binário. Jules* é profunde”, explica Renata.
Poucas palavras – Por sua experiência como artista visual e diretora de arte, Renata conta que seus filmes são construídos pelas imagens. Como diretora, ela tem os premiados longas Açúcar, Amor, plástico e barulho, além de curtas, como Praça Walt Disney (codirigido com Sérgio Oliveira), e Superbarroco.

Renata Pinheiro, diretora e corroteirista de "Carro Rei" (Crédito: Raul Toscano/Divulgação)
“Meus filmes são silenciosos. Acho que, neles, a comunicação visual é de uns 80%. Eu tento não usar o recurso da fala o tempo todo. Para mim, isso é uma lógica televisiva, que as pessoas assistem enquanto fazem outra coisa. Se bem que isso está mudando e talvez eu precise rever meus conceitos”, diverte-se.
Em Carro Rei, o visual é poderoso – especialmente a oficina de Zé Macaco e os próprio personagem-título. “É um filme para ver na sala de cinema. Muita gente viu na televisão ou no computador [o filme já foi exibido em festivais na TV e no streaming], e acho que agora as pessoas têm que ver no cinema. É outro filme. Por favor, vejam no cinema”.
Renata comenta que fazer um filme é um processo longo, com vários estágios emocionais também. “Você filma, do jeito que dá, do jeito que quer, consegue. Aí vê o material e entra em depressão. ‘Onde eu estava com a cabeça? Eu estava doida’”,
diverte-se lembrando do processo de Carro Rei, com seus momentos de estranhamento. “Com o tempo, você aprende a amar de novo. Tive esse sofrimento pós-parto, voltei para o set, filmamos mais cenas que faltavam e agora eu amo muito esse meu filho.”
diverte-se lembrando do processo de Carro Rei, com seus momentos de estranhamento. “Com o tempo, você aprende a amar de novo. Tive esse sofrimento pós-parto, voltei para o set, filmamos mais cenas que faltavam e agora eu amo muito esse meu filho.”
