23/07/2026

Luís Miranda evoca a atualidade de Lima Barreto em filme

Ator interpreta o escritor pré-modernista, que morreu há 100 anos, quando está internado num manicômio aos 42 anos em longa que chega aos cinemas nessa quinta (29)



Luís Miranda, em cena de Lima Barreto, ao terceiro dia (Crédito: Felipe O'Neill/Divulgação)

“Lima Barreto era um autor revolucionário para a sua época”, diz o ator Luís Miranda que interpreta o escritor carioca no drama Lima Barreto, ao terceiro dia, dirigido por Luiz Antonio Pilar. Dividindo o papel com Sidney Santiago Kuanza, que faz o autor na juventude, Miranda aponta o quão fundamentais são os escritos do autor até hoje.

“Ele já falava de questões de identidade [no começo do século XX] quando isso nem era um assunto”, explica Miranda, em entrevista ao Cineweb. “Ele nasceu no fim da escravatura [em 1881], e questiona esse modelo. Lima Barreto tem a força de discutir o negro na sociedade. Ele e [o poeta] Castro Alves.”

Lima Barreto, ao terceiro dia parte da peça homônima de Luís Alberto de Abreu, que assina o roteiro com o diretor, e acompanha dois momentos na vida do escritor. Na juventude, quando escreve seu livro mais famoso, Triste fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1911, e, aos 42 anos, quando passa três dias internado num manicômio. Alucinando entre passado e presente, Lima Barreto acaba conversando também com Policarpo Quaresma, interpretado por Orã Figueiredo.

Miranda conta que, para se preparar para o papel, além de ler a obra do escritor, também leu a biografia Lima Barreto - Triste visionário, da historiadora Lilia Schwarcz, um dos livros mais respeitados sobre o assunto. Para construir o personagem, por sua vez, trabalhou em parceria com Santiago Kuanza, no sentido de encontrar um equilíbrio entre o trabalho dos dois atores, que encarnam a mesma figura.

“Os dois momentos do Lima Barreto em cena são muito contrastantes: jovem, vivaz e sonhador e, mais tarde, deprimido e amargo. Mas há uma pungência nessa amargura dele, que é muito sensata em seu olhar pelo mundo em que vivia”.

Miranda vai além e acredita que mais, do que falar do passado, Lima Barreto, ao terceiro dia ergue uma ponte com o presente do Brasil às vésperas de novas eleições para presidente. “O filme mostra um Lima Barreto para além do sonho utópico da democracia perfeita. Há uma presentificação, um questionamento sobre o quanto vale a pena sonhar.”

Policarpo Quaresma, personagem criado por Lima Barreto, é um nacionalista cego, um sonhador à espera de um Brasil perfeito. Miranda aponta que, ao colocar essa figura também em cena, o longa questiona a ideia de nacionalismo – especialmente aquele exacerbado, sem deixar de lado a esperança de um país melhor.

“O Lima Barreto, com essa figura, pede para a gente continuar sonhando. Cada processo histórico necessita de uma luta específica para o bem vencer o mal. O cinema participa dessa luta e, nesse filme, lutamos, entre outras coisas, contra preconceitos.”

Miranda interpreta um momento da vida do escritor que ele define como de loucura, e isso tem a ver com o mundo em que ele vivia…– mas que não mudou muito desde então. “São pensamentos pautados nos bens de consumo, naquilo que temos e não naquilo que somos. Ele espelha isso em sua obra e na vida, uma sociedade marcada pela loucura e o devaneio.”

Nos últimos anos há, embora de forma lenta, uma redescoberta de Lima Barreto, que, aos poucos, tem recebido o reconhecimento que merece de seu papel na literatura brasileira. Miranda crê que o longa poderá contribuir nesse processo. “O texto do filme tem uma sensibilidade do domínio e da urgência da palavra.” Mais conhecido por seus papeis humorísticos, o ator aqui vive um personagem denso e dramático. “Eu não faço as coisas esperando respostas. Faço com a alma, e Lima Barreto tem um discurso muito atual, um discurso de ideias.”