Gero Camilo afirma força da vida e da diversidade em “Aldeotas”
Em seu primeiro longa na direção, que estreia nessa quinta (10/11), o ator parte de um texto que já rendeu uma peça homônima de enorme sucesso, assinando um filme poético e lúdico, que protagoniza ao lado de Marat Descartes.
- Por Alysson Oliveira
- 09/11/2022
- Tempo de leitura 4 minutos

Marat Descartes e Gero Camilo, em cena de Aldeotas, repetindo no cinema, a parceria do teatro (Crédito: Divulgação)
De um quarto de hotel, Gero Camilo abre sempre um sorriso ao falar de Aldeotas, em chamada de vídeo com o Cineweb. Ele está, claramente, orgulhoso de seu primeiro longa, que parte, conforme explica, de uma obra literária que virou peça e agora chega ao cinema. “Eu escrevi o romance, em 2003, mas nenhuma editora queria publicar. Procurei todas, e todas se recusaram. Então fiz a peça, no ano seguinte, e depois consegui lançar o livro por causa do enorme sucesso no teatro.”
A trajetória do texto tem essa peculiaridade, mas ele explica que sempre imaginou transformá-lo em filme também, e seria ele quem iria dirigir. “Eu gosto muito de compartilhar a direção, seja no teatro, ou agora no cinema. Queria fazer em parceria com alguém, chamei a Laís Bodanzky [com quem o ator trabalhou em Bicho de sete cabeças], e ela até topou. Mas estava envolvida num projeto grande na época, filmando também [o longa Pedro, lançado esse ano], e acabou não podendo.” Tendo que dirigir sozinho, Camilo cercou-se de uma equipe técnica e artística experiente, como o diretor de fotografia Marcelo Trotta, a diretora de arte Carla Caffé, e a assistente de direção Kity Féo.
O resultado é um filme lúdico, que brinca com o espaço e o tempo, trazendo a história de dois amigos, Levi (Camilo, que o interpretou em todas as montagens) e Elias (Marat Descartes, que fez o personagem na primeira montagem), vivendo no interior do Ceará, repletos de sonhos. Um quer ser poeta e o outro, crítico, mas, no fundo, ambos querem deixar aquele lugar opressivo e preconceituoso. A narrativa se dá toda no plano da memória, com Levi chegando ao funeral do amigo, e este se levanta do caixão e os dois começam a relembrar o passado.
Camilo explica que, com essa estrutura, não seria possível valer-se de uma linguagem exclusivamente realista. “A memória é um espaço de liberdade para os personagens. Em 90 minutos, o filme conta uma história de 50 anos dessa amizade.” Devido ao orçamento, Aldeotas foi rodado num galpão no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. O que era uma limitação, o diretor estreante em longas usou a seu favor,
valendo-se de um jogo de luz e sombras e ocupação do espaço, que fica algo entre o palco teatral e o cenário de cinema.
valendo-se de um jogo de luz e sombras e ocupação do espaço, que fica algo entre o palco teatral e o cenário de cinema.
Camilo e Descartes se conheceram na Escola de Arte Dramática da USP, quando foram aprovados no vestibular, em meados dos anos de 1990. Desde então, fizeram diversos projetos juntos. Camilo explica que quando se formou entrou em crise, não sabia se voltava para Fortaleza, se ficava em São Paulo. Então, escreveu Aldeotas, que se tornou um enorme sucesso no teatro, ficando em cartaz por mais de uma década, sendo vencedora dos prêmios Shell e Qualidade Brasil. Ao longo do tempo, o personagem Elias foi interpretado também por Caco Ciocler e Victor Mendes.
Ao retomar o texto para o filme, Camilo conta que sua maior preocupação não era exatamente atuar, mas dirigir. “Era um desafio muito maior, eu conhecia bem o personagem, então, me concentrava nas outras funções. Diferente do Marat, que, por muitos anos, ficou distante do Elias. Eu, de certa forma, estava quente, fiquei esse tempo todo fazendo o Levi.”
Ele explica que suas inspirações foram diretores que também atuam em seus filmes, como Charlie Chaplin, Woody Allen e Mazzaropi, mas também observa que cinema é uma arte coletiva. “É uma alquimia, um conjunto, e eu estava cercado de profissionais maravilhosos. E também encontrei o produtor Daniel Greco, e os irmãos Caio e Fabio Gullane, que se mostraram dispostos a fazer o filme. Eu já havia trabalhado diversas vezes com eles [como ator], por isso senti segurança.”
Lançar Aldeotas no cinema é, para Camilo, um ciclo. Há quase 20 anos que o texto original foi escrito, e o escritor, ator e diretor aponta diversas mudanças no Brasil nesse período. “Quando a gente viajava com a peça, especialmente para o interior, havia muita manifestação negativa da cena do beijo entre os dois personagens. As pautas LGBTQIA+ não existiam, embora nós sempre existíssemos.”
Sempre militante de questões sociais – “todos meus filmes brasileiros trazem algo sobre isso” –, Camilo aponta que seu longa “chega num momento muito importante da defesa da vida, da diversidade e da liberdade artística. Meu personagem é um poeta, e o do Marat, dono de um pequeno jornal, duas categorias, a arte e a imprensa, tão atacadas nos últimos anos. Não escrevi Aldeotas sem uma consciência política e do mundo em que vivemos, e o texto [agora como filme] volta a se fortalecer nesse instante.”
