Taciana Oliveira revela o mundo de Clarice Lispector em documentário
O filme parte de duas entrevistas da própria escritora, contando com depoimentos de amigos e parentes, além de trechos de sua admirável obra
- Por Alysson Oliveira
- 07/12/2022
- Tempo de leitura 3 minutos

Clarice Lispector é o tema do documentário de Taciana Oliveira (Crédito: Divulgação)
Por mais de dez anos, a cineasta pernambucana ficou mergulhada na obra e na biografia de Clarice Lispector, trabalhando em seu documentário Clarice Lispector: A Descoberta do Mundo. “Às vezes pensava que não conseguiria, muito mais pelas questões que tangem a produção audiovisual do país”, diz em entrevista ao Cineweb. O longa agora chega aos cinemas, e é um ensaio-poético que combina falas da escritora, retiradas de um longo depoimento que prestou ao MIS-Rio, e também da entrevista a Arakén Távora, no programa Os Mágicos, da TV Educativa, de 1976, com trechos de suas obras, além de entrevistas de pessoas que conviveram com ela.
Oliveira conta que a única exigência da família de Clarice, quando ela os procurou em 2005 com a ideia de fazer o documentário, era a participação de Tereza Montero, biógrafa da escritora morta em 1977. “Com o passar dos anos, a nossa parceria evoluiu e a convidei para dividir a criação do roteiro. Ela me trouxe segurança para as questões biográficas, para a iconografia e a seleção de textos das obras da Clarice. Não faria o filme sem Tereza, pois nos últimos anos foi ela quem me encorajou fortemente a investir na minha linguagem para a condução narrativa do filme.”
Além de dirigir, a cineasta também assina a montagem e edição do filme, que ela define como “um processo de aprendizado.” “Entrecortar a voz da Clarice em uma costura poética com seus textos e depoimentos de amigos e familiares foi desafiador. Na minha cabeça, eu sempre acreditei que a Clarice precisava contar sua própria história para que, a partir daí, os leitores pudessem ressignificar o perfil da escritora.”
Sempre ligada a movimentos artísticos, Oliveira afirma que a música e a literatura são fundamentais em sua vida, tanto profissional quanto emocional. “Minha conexão com Clarice nasce das suas traduções de grandes clássicos da literatura [que a escritora fez]. Logo em seguida, me apaixonei pela intensidade da sua obra Água Viva e, a partir dessa primeira leitura, seguiram outras e o universo se ampliou para as biografias e a ressignificação da passagem de Clarice no Recife, minha terra.”
Com o filme, a diretora conta que descobriu uma Clarice “muito mais à frente do seu tempo do que eu imaginava. A sua colaboração extrapola os limites da literatura, a sua colaboração vai além das fronteiras literárias. Era uma mulher linkada com as questões sociais e o ser humano.”
Mas, mais do que isso, uma escritora com uma sintonia com o país que dura até hoje. “O legado de Clarice é sobretudo sobre nos questionarmos e não nos entregarmos ao que é fácil, ao que é banal e é medíocre. O verdadeiro leitor de Clarice se reconhece no tanto de humanidade dos seus personagens sem maniqueísmo, preconceitos e concepções reacionárias.”
