Documentário resgata período da ditadura a partir de material da internet
"Memória Sufocada, de Gabriel Di Giacomo parte do depoimento de Brilhante Ustra à Comissão da Verdade para lembrar que os torturadores nunca foram condenados no Brasil. O filme chega ao streaming nesta quinta (8/6/2023), nos serviços ClaroTV+, Oi Play e Vivo Play, por meio do Canal Brasil.
- Por Alysson Oliveira
- 08/06/2023
- Tempo de leitura 4 minutos

Cena de Memória Sufocada (Crédito: Divulgação)
A princípio, quando o cineasta Gabriel Di Giacomo começou a planejar um novo documentário, pensava em fazer um filme convencional sobre a ditadura brasileira – mais, precisamente sobre o coronel Brilhante Ustra, conhecido torturador do período. Porém, com a chegada da pandemia, ele teve de mudar seus planos, mas não mudou de ideia sobre o tema do filme.
Memória sufocada tem como subsídio o material que Di Giacomo encontrou na internet sobre o assunto, e não foi pouca coisa. Partindo do depoimento que o militar deu à Comissão Nacional da Verdade, em 2013, disponível na íntegra no Youtube e no qual ele se negou a responder praticamente todas as perguntas, o filme faz uma investigação sobre como esse período da história nacional é encontrado na internet. “É interessante, porque todo material está disponível, mas eu nunca tinha assistido boa parte dos vídeos, que tem poucas visualizações”, diz em entrevista ao Cineweb.
Filho de professores de história, Di Giacomo encontrou um vasto material em livros e artigos, fornecidos por seus pais. Mas a ideia era mesmo buscar algo que estivesse facilmente acessível – especialmente aos jovens. Boa parte do que ele descobriu, além do filme, rendeu um site com muitas informações e vídeos sobre o assunto: https://memoriasufocada.com.br/
“A ideia era mostrar, em especial, vídeos dos quais ninguém pudesse duvidar. Os depoimentos do Ustra e de suas vítimas são imagens fortes, e estão aí, registradas e são inegáveis. São fatos históricos”. Em 2021, a equipe do filme foi a primeira a realizar filmagens para cinema no DOI-CODI, em São Paulo, e as imagens estão no filme.
O cineasta confessa que, a certa altura, se perguntou se realmente era necessário “mais um filme sobre ditatura, mas a realidade dos fatos foi se impondo, especialmente no começo da pandemia. As pessoas protestando contra as medidas preventivas, tomando o lado do Bolsonaro, era muito assustador.”

O diretor Di Giacomo, exibindo o filme no Festival de Málada, na Espanha, no qual ganhou uma menção honrosa
(Crédito: Divulgação)
O estopim para o filme, na verdade, veio antes disso, em 2018, numa entrevista do futuro presidente ao programa Roda Viva, na TV Cultura, na qual, entre outras coisas, ele exaltava, como é de seu costume, Ustra e suas práticas. “As pessoas, até mesmo muita gente de esquerda que conheço, relativizava isso. Diziam que era uma figura folclórica, e a mim parecia tudo muito absurdo o que ele dizia. Achei que era preciso fazer algo, nem que fosse para reforçar o óbvio dos horrores daquele período.”
Para Di Giacomo, é necessário que o país olhe para o seu passado e investigue e puna os criminosos. “Embora seja meio que um consenso a crítica ao regime, o país nunca acertou suas contas com o passado. Até hoje ninguém foi condenado, parece que não houve crimes.”
O diretor também assina a montagem do longa e ressalta que foi um processo difícil passar o dia todo assistindo a depoimentos e imagens sobre tortura e violência durante a ditadura civil-militar brasileira. “Foi quase um processo de curadoria, procurando criar uma narrativa, ligando ideias e fatos. A ideia era também traduzir isso numa linguagem ágil e acessível. O que não quer dizer superficial.”
Entre as descobertas do diretor também estão pequenas propagandas do governo veiculadas na televisão durante a ditadura – como também mostradas no documentário Os arrependidos, de Armando Antenore e Ricardo Calil. “Eu as usei como um comercial do Youtube mesmo, algo que entra no meio de um vídeo que você está assistindo. Mas o uso não é gratuito, há um contraponto dos depoimentos. A propaganda mostra um Brasil feliz, onde não há problemas, e a ela segue um depoimento de alguém que foi torturado.”
Memória Sufocada foi exibido em festivais nacionais – como a Mostra de São Paulo – e estrangeiros. No Festival de Málaga, no ano passado, o filme ganhou uma menção especial do júri. “As pessoas tinham muito interesse no tema, especialmente pelo Brasil estar em evidência. Além disso, muitos compararam a ditadura daqui com o franquismo espanhol.”
A partir de 8 de junho de 2023, o documentário pode ser assistido em VOD (video on demand) nos serviços ClaroTV+, Oi Play e Vivo Play, por meio do Canal Brasil.
