05/06/2026

Sérgio Tréfaut reavalia Revolução dos Cravos em documentário "Outro País"

No documentário "Outro País", de 1999, exibido em sessão especial gratuita nesta terça (25/4), no 49º aniversário da Revolução dos Cravos, que acabou com a ditadura em Portugal, o diretor brasileiro radicado naquele País fez um balanço através do material colhido no calor dos primeiros dias por cineastas e fotógrafos estrangeiros - inclusive o baiano Glauber Rocha.


Nascido em São Paulo mas radicado desde 1977 em Portugal, o cineasta Sérgio Tréfaut tem tido seus filmes exibidos e premiados em festivais internacionais, como Veneza e Sevilha no caso de A Noiva (2022), e brasileiros, como o É Tudo Verdade, no caso de Paraíso (2021). Nesta terça (25/4), seu documentário Outro País (1999) será apresentado em sessão especial gratuita às 20h na Cinemateca Brasileira, em S. Paulo, na data em que se comemoram os 49 anos da Revolução dos Cravos, que terminou com a ditadura salazarista, que havia durado mais de 40 anos naquele país. Após a sessão, o diretor participa de uma conversa com o público.

Nesta entrevista ao Cineweb, por e-mail, o diretor detalha as circunstâncias da realização de seu filme de 1999, que comenta a dispersão das imagens feitas nos primeiros tempos da Revolução, e também faz observações sobre o estado atual da conjuntura política da nação portuguesa.

Em seu filme, você assinala que a maior parte destas imagens e filmes feitos da Revolução não foram adquiridos por arquivos portugueses. Portanto, é de se supor que a maioria deles não tenha sido vista pelos próprios portugueses. Em que medida isto reflete uma omissão deliberada dos arquivos, ou de Portugal mesmo, de não querer rever aqueles primeiros tempos mais radicais de sua Revolução? Ou o problema teria sido outro?

Outro País é um filme de 1999. Nasceu da tentativa frustrada de uma grande exposição para comemorar os 20 anos da revolução que deveria ter lugar em 1994. Mas nenhuma instituição queria financiá-la. Portugal tinha então um primeiro-ministro de direita, Cavaco Silva, que desprezava ostensivamente os sonhos e valores da revolução e dos chamados “capitães de abril”. Apesar disso, outras instituições (como o Instituto de Cinema) funcionavam com independência e este documentário ficou pronto para o 25º aniversário. A pesquisa revelou um conjunto de filmes e um enorme acervo fotográfico de autores consagrados (das agências internacionais, Magnum, Gama, Sipa) sobre o período revolucionário português que não estavam em Portugal. Naquela época, os arquivos da Cinemateca ainda não se interessavam por este material histórico. Desde então, procuraram receber uma parte destes materiais, mas aconteceu de forma pontual e não sistemática. Com os arquivos fotográficos a situação é pior. Sempre que propus ao longo de mais de 30 anos uma exposição para reunir estas imagens a vários Ministros da Cultura (tive reuniões com muitos!), ainda que parecessem interessados, a proposta nunca avançou por falta de interesse político. Ainda agora esta exposição foi proposta às comemorações do cinquentenário, que receiam ser alto o valor da compra das fotografias e não avançam, mas gastavam rios de dinheiro em outras coisas, tantas vezes inúteis. O patrimônio, entretanto, desaparece.


Seu filme foi feito há 24 anos e promovia um balanço da Revolução dos Cravos. Às vésperas dos 50 anos da Revolução, o que você acredita que continua válido na revisão dos acontecimentos vista em “Outro País”?

Eu não creio que todas as vozes do filme falem da mesma maneira e nem que o tom seja derrotista, apenas melancólico. Tentei traçar um retrato da necessidade, da justiça, do entusiasmo e de alguma ingenuidade do processo revolucionário. Tentei retratar o desencanto resultante da castração dos sonhos, mas também sente-se no filme o reconhecimento das virtudes da estabilidade democrática.

Nas imagens feitas por diretores estrangeiros que retornaram a Portugal nos anos 1990, observa-se uma decepção por parte dos portugueses de algumas regiões, que viveram experiências de reforma agrária, por exemplo. Tudo isso foi perdido? Restou alguma parte daquelas mudanças em termos fundiários?

Os sonhos difusos da revolução não se concretizaram. Mas nenhuma das personagens do Sul de Portugal, onde teve lugar a reforma agrária, vive hoje miseravelmente. Antes da Revolução, passava-se fome, não havia ensino obrigatório para todos nem saúde para todos. Portugal é possivelmente hoje a social democracia mais pobre da Europa, mas ainda assim existe um estado de previdência que funciona. Por aderir à União Europeia, Portugal prescindiu de grandes capacidades da agricultura e da pesca. Arrancaram-se vinhas e queimaram-se barcos de pesca por imposição da Europa, que financiou estradas e deu origem a um país que hoje vive de turismo e pouco produz. Hoje, quem trabalha nos campos e nas estufas do Alentejo (onde aconteceu a Reforma Agrária) é
uma população de imigrantes do Bangladesh e do Paquistão em regime semi-escravagista. Há poucos anos atrás, eram ucranianos. As terras de cultivo ultra-intensivo de oliveira (prejudiciais ao campo) são dominadas por espanhois. Portugal segue o curso do mundo. Não faz sentido fazer uma comparação com 1974 ou com 1999 sem ter em consideração todos os parâmetros da história recente.

Pode-se dizer que hoje Portugal é um país plenamente democrático, integrado à Europa, e sem riscos de um retrocesso rumo à extrema-direita, como se observa em outros países europeus? A Revolução dos Cravos tem um papel nisso?

Nunca estamos livres de novos períodos de trevas após largos ou breves períodos de luz. Durante quatro décadas, Portugal podia se orgulhar de ser o único país da Europa sem extrema-direita no parlamento. Já não é o caso. O populismo ganha espaço em todos os discursos políticos. A xenofobia e o racismo ganham novos espaços, são cultivados por uma extrema-direita em ascensão, com um discurso nacionalista, populista, e cujo eleitorado, como aconteceu em quase toda a Europa, veio em grande parte dos eleitores menos instruídos do Partido Comunista.

Você prepara um outro filme para os 50 anos da Revolução no ano que vem?

Tenho vários projetos em curso. Todos ligados à América Latina e particularmente ao Brasil. Portugal está envolvido em cada um deles de forma diferente. Trata-se em parte de uma releitura da história colonial, da relação com o patrimônio histórico e natural, dos vários sonhos e projetos de independência: No Brasil, nas Guianas, nos territórios cuja independência esteve diretamente ligada a Simón Bolivar.