05/06/2026

Cineasta Marcos Yoshi investiga o fenômeno da imigração japonesa por viés pessoal

Em seu longa de estreia, “Bem-vindos de novo”, o diretor resgata a história de seus pais, que foram para o Japão e voltaram 13 anos depois



Marcos Yoshi e sua mãe, Yayoko Yoshisaki, nas filmagens do documentário
(Crédito: Divulgação)

Tudo começou quando o cineasta Marcos Yoshi pretendia fazer um documentário sobre famílias nipo-brasileiras que viveram a experiência de imigração, como aconteceu com sua própria, quando os pais se mudaram para o Japão, no começo dos anos 2000, e voltaram 13 anos depois. Durante sua pesquisa, conversando com diversas pessoas, ele notou que o tema era algo muito íntimo, um tabu na comunidade nipo-brasileira.

“Presenciei a primeira vez que pais e filhos conversavam sobre as feridas que a separação familiar havia causado. Eram questões muito íntimas das famílias. Foi nesse momento que percebi que talvez eu precisasse fazer um filme com minha própria família”, conta em entrevista ao Cineweb.

Seus pais,
foram viver no Japão, e os filhos ficaram no Brasil, com os avós. Bem-vindos de novo é o documentário que resgata essa história, e também o difícil reencontro quando, depois de mais de uma década de separação, a família precisa lidar com o passado. O longa acompanha esse momento complexo de forma particular, mas também, ao mesmo tempo, muito universal.

Yoshi sabia que o tema seria caro à comunidade nipo-brasileira, porque podia avaliar o quanto a imigração decasségui, ou seja, brasileiros descendentes de japoneses que foram para o Japão apenas para trabalhar por um tempo, faz parte das família nipo-descendentes. Nesse sentido, ele buscou a especificidade do contexto da imigração decasségui.

As filmagens foram feitas entre 2015 e 2019 e, nesse período, o projeto participou de um laboratório Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, no qual o cineasta trabalhou intensamente durante três meses.

Ele conta que no início das filmagens seus pais perguntavam qual a validade de um filme sobre eles. Os pais moravam em Três Lagoas, interior de São Paulo, e ele e a esposa, em São Paulo. As visitas à família serviam como pretexto para filmar a rotina do pai e da mãe.

“Minha mãe tentava minimizar e dizia para as pessoas que era para o meu mestrado, que eu fazia na época. Como a equipe era bem pequena, ela achava que era mesmo algo mais simples. Quando aumentou a equipe, meus pais perceberam que seria algo maior mesmo, um filme que seria visto pelas pessoas. Mas também ficaram muito orgulhosos.”

Yoshi conta que filmou bastante, tudo o que estava acontecendo, mas na hora da montagem, com Yuri Amaral, percebeu que algumas coisas deviam ficar de fora. “Havia momentos que fugiam do eixo central do filme, como o fim da sociedade num restaurante, que foi uma experiência bem difícil para meus pais.”

O diretor ressalta que a parceria com Amaral foi fundamental na construção do filme. Era importante ter alguém que não estivesse pessoalmente ligado ao material e à história contada. “Ele é um montador muito mais experiente do que eu como diretor, e isso me ajudou a encontrar o arco do filme, a concentrar a narrativa nos personagens. Além disso, ele me ajudou a encontrar o tom da narração, que faço no filme. No começo, estava um tom um tanto melancólico, um cacoete de documentários autobiográficos, e ele me ajudou a encontrar uma voz mais neutra”.

Com o filme pronto, os pais de Yoshi mostraram a mesma generosidade que durante as filmagens. Em 2020, durante a pandemia, ele viajou para Terra Roxa, também no interior de SP, onde os pais moravam então, e exibiu o filme à família pouco antes de chegar à versão final.

“Eles praticamente não mostraram desconforto. Apenas na cena em que meu pai se descontrola, ele se sentiu um pouco exposto. Mas minha mãe e minha irmã defenderam a cena. Era como se defendessem a possibilidade do meu pai expor suas emoções. Ele acabou aceitando que a cena ficasse no filme”, conta o diretor.

Agora, além de concluir seu doutorado sobre documentários autobiográficos, Yoshi planeja um novo filme, também documental e sobre sua família, sobre um tio chamado Toshi. “É uma história um tanto trágica, ele morreu no ano passado. Ele era uma figura meio opaca, que eu não conheci muito, mas havia nele algo de uma performatividade de uma masculinidade amarela. O filme será como um desdobramento de Bem-vindos de novo.”