05/06/2026

Paulo Henrique Fontenelle examina em série as lições do Caso Escola Base

Série documental resgata o episódio, destacando os erros da imprensa, da investigação policial e os trágicos efeitos sobre a vida dos acusados, que acabaram inocentados



Paulo Henrique Fontenelle, Paula Mihin, uma das donas da Escola Base, e a produtora Ariadne Mazetti (Crédito: Divulgação)


Paulo Henrique Fontenelle cursava jornalismo em 1994, quando aconteceu o caso da Escola Base em São Paulo, em que mães de dois alunos acusaram os donos da escola de pedofilia. Em poucas semanas, tudo ganhou dimensões nunca vistas antes. Os acusados, sem qualquer prova, tiveram de se esconder para salvar suas vidas, o prédio da escola foi vandalizado várias vezes, assim como a casa de uma das donas, Paula Mihin. A imprensa teve um papel preponderante na construção dessa narrativa noticiando, muitas vezes, de forma sensacionalista o caso, já condenando antecipadamente os acusados. Na televisão, por exemplo, um âncora exaltado dizia que essas pessoas tinham de morrer.

Desde então, Fontenelle, que na época nem pensava em fazer cinema, se interessou pelo caso. Foram 16 anos trabalhando no projeto que hoje resultou na série O Caso Escola Base. “A imprensa errou, mas o que aconteceu com as pessoas acusadas? Eu me lembro que o Icushiro [um dos donos da escola acusado do crime] deu uma entrevista ao Boris Casoy depois de inocentado, e aquilo ficou comigo. A figura dele me marcou muito”, conta Fontenelle em entrevista ao Cineweb.

Quando começou a fazer cinema, em 2007, o documentarista já pensava num filme sobre o caso. No entanto, outros projetos acabaram passando na frente, como os documentários Loki – Arnaldo Baptista e Cássia, sobre Cássia Eller, mas chegou um momento em sua carreira em que a história da Escola Base tinha de sair do papel. Foi mais de uma década e meia de pesquisa até poder realmente começar a rodar essa que se tornou a série.

“Foi em 2017, quando entraram no projeto a Ariadne Mazetti e o Marcelo Siqueira, da produtora Mistika, que consegui entrar em produção. Fiquei, então, três anos sem fazer mais nada, só me dedicando a essa série”, conta. O resultado é bastante abrangente, mostrando desde a participação da imprensa até depoimento da ex-dona da escola, Paula, seu ex-marido, Marcelo Monteiro de Alvarenga, que era motorista da perua escolar na época, e até Ricardo Shimada, filho de Icushiro e Maria Aparecida Shimada, os outros donos da escola, que já morreram.

O primeiro capítulo começa abordando a imprensa e seu papel decisivo na proporção que o caso tomou. Há depoimentos de repórteres que cobriram diretamente o caso, como Valmir Salaro, da Globo, Fátima Souza, repórter da Band na época; Marcela Mattos, do Jornal da Tarde, na época; e Antonio Carlos Silveira, que era do Diário Popular, um dos poucos jornais que se recusaram a publicar a matéria, pois um editor achou que havia algo de errado na acusação e seria eticamente incorreto publicar uma reportagem sem o lado dos acusados.

“Os repórteres se dispuseram a falar, e assumiram seus erros. Foi um episódio muito emblemático da imprensa brasileira, mas nem por isso muita coisa mudou. Hoje, com a internet e o whatsApp, a disseminação de notícias falsas se ampliou até, não apenas jornalistas fazem isso. Qualquer pessoa que encaminha uma notícia para outra pessoa sem checar ao menos a data, está fazendo algo parecido”, comenta o cineastas.

Das pessoas entrevistadas, a que mais impressionou Fontenelle foi Paula Mihin, que na época cursava pedagogia e tinha pouco mais de 20 anos. “Ela até hoje espera uma reparação financeira e vive com grande dificuldade. Os relatos dela sobre os fatos e, principalmente, sobre as consequências desse caso na vida dela, são muito fortes. Ela também compreendeu que eu queria fazer uma abordagem séria do assunto, sem sensacionalismo, deixar que ela contasse realmente a sua versão dos fatos.”

Outro entrevistado marcante é o americano Richard Pedicini, que morava a cerca de um quilômetro da escola e disponibilizava a piscina para crianças e adolescentes de sua rua. Ele foi acusado de fazer parte do esquema de pedofilia e ficou preso por nove dias, sendo que era, também, inocente. “Ele gravava tudo o que passava na televisão sobre ele, e me deu uma fita com muitas horas de material. Isso ajudou muito na construção do filme. Várias imagens vêm dessa fita, e mostram como o caso era tratado na televisão de maneira absurda.”

Outras pessoas se recusaram a dar entrevistas para a série, como as mães das duas crianças que diziam ter sofrido abuso sexual, e o primeiro delegado que conduziu o caso de forma bastante polêmica, Edélcio Lemos. “Eu entrei em contato com ele, até que ele parou de me atender, e disse que não iria falar sobre o caso. De qualquer forma, estamos abertos. Se ele resolver dar uma entrevista, podemos adicionar um adendo à série, pois o depoimento dele é importantíssimo.”

Outra figura importante no desenvolvimento do caso, e que marca uma reviravolta na série, é a psicóloga da polícia civil Marilyn Tatoon. Ela só entrou na investigação quando houve a troca de delegados, e seu relatório a partir de exames com as crianças foi fundamental para provar a inocência dos acusados. “Por alguns anos, ela era tinha de manter sua investigação em sigilo, não podia dar entrevistas. Nós fomos os primeiros a conversar com ela, e a participação dela é muito importante no filme, eu diria até comovente.”

Fontenelle teve acesso a boa parte do inquérito e conta que, ao contrário da imprensa na época, checava tudo neles. “Faz muito tempo, os entrevistados podiam se lembrar de maneira diferente de algo, ou se confundir. Fiz questão de comparar o que era dito no inquérito para não cometer o mesmo erro da cobertura na época.”

A série conta com quatro episódios e foi montada pelo próprio Fontenelle, a partir de um roteiro escrito por ele e Clarice Saliby, englobando os diversos aspectos em torno do caso. Mas o diretor não descarta a possibilidade de uma nova versão em forma de filme. “Seria algo mais enxuto, deixando de fora vários depoimentos e desdobramentos, mas seria interessante transformar em filme e o levar a festivais. Mas, de qualquer forma, a série ainda seria a versão mais completa.”

Em O Caso Escola Base, Fontenelle aponta que o episódio é extremamente importante não apenas para a história do jornalismo brasileiro, mas para a sociedade contemporânea como um todo. “Hoje, essa condenação que as pessoas sofreram, esse linchamento de suas vidas é muito mais fácil de se acontecer. A série mostra vários exemplos de pessoas que foram linchadas de verdade a partir de um rumor que surgiu na internet.”

A série está disponível para streaming na Globoplay, Now e no site do Canal Brasil. Além disso, também será exibida no Canal Brasil, nas seguintes datas:

Episódio 1:
3 de julho - segunda-feira - 20:50
4 de julho - - terça-feira - 08:00
8 de julho - sábado - 12:45

Episódio 2:
10 de julho - segunda-feira - 20:50
11 de julho - terça-feira - 08:00
15 de julho - sábado - 12:45

Episódio 3:
17 de julho - segunda-feira - 20:50
18 de julho - terça-feira - 08:00
22 de julho - sábado - 12:45

Episódio 4:
24 de julho - segunda-feira - 20:50
25 de julho - terça-feira - 08:00
29 de julho - sábado - 12:45

REEXIBIÇÃO EM SETEMBRO:
Episódio 1:
8 de setembro - sexta-feira - 19:00
Episódio 2:
15 de setembro - sexta-feira - 19:00
Episódio 3:
22 de setembro - sexta-feira - 19:00
Episódio 4:
29 de setembro - sexta-feira - 19:00