05/06/2026

João Pedro Rodrigues investiga a relação entre corpos em seu novo filme

Nessa entrevista, o diretor fala Fogo-Fátuo, que chega nos cinemas brasileiros nessa quinta (20), e a importância de filmar sem restrições




Mauro da Costa e André Cabral, em comos bombeiros que dançam em Fogo-Fátuo (Crédito: Divultgação)


Os filmes do português João Pedro Rodrigues, como O Fantasma, Morrer como um homem e O ornitólogo, podem ser faísca de pequenos escândalos, dado o potencial ainda um tanto conservador de boa parte do público de cinema. Mas esse nunca fui o real objetivo do cineasta, cuja obra mais recente, o média Fogo-Fátuo chega aos cinemas brasileiros nessa quinta (20).

Quem conhece sua obra sabe com o que irá se deparar: um filme repleto de qualidades artísticas, técnicas e com uma narrativa muito bem construída. Também irá encontrar corpos masculinos com pouca ou nenhuma roupa. Para ele, isso deveria ser – e, num mundo ideal, realmente é – comum nos cinemas, afinal, a nudez, assim como a sexualidade são temas inerentes à vida, ao cotidiano.

“Determinadas histórias para serem contadas da forma que acho certa é não tendo medo de mostrar os corpos”, diz em entrevista ao Cineweb, via Zoom, diretor de sua casa em Lisboa. “Eu sempre tento fazer os filmes de forma honesta, sempre achei estranho a ausência de relação com corpos no cinema.”

Fogo-Fátuo conta a história de um rei, que, em 2069, no seu leito de morte, se recorda da juventude, quando entrou para o Corpo de Bombeiros, e acabou se envolvendo amorosa e sexualmente com um colega. A nudez, como nas outras obras dele, aqui, não é gratuita, pelo contrário, é delicada e poética. Em determinado momento, jovens bombeiros, alguns nus, se colocam em posições representando quadros clássicos, para que o novo colega descubra quais são as pinturas.

“Nunca tive condicionamentos morais para fazer meus filmes. Felizmente, vivo num país onde posso ter essa liberdade. Há determinados países onde isso não é possível. Tenho consciência de que, nesse sentido, sou um cineasta privilegiado”.

Seu primeiro longa já chegou chamando a atenção. O Fantasma, de 2000, foi exibido em competição no Festival de Veneza, e premiado no NewFest: New York's LGBT Film Festival. O filme traz a história de um jovem lixeiro em Lisboa, que se apaixona por um motoqueiro, que pouco liga para ele, e, a partir disso, é levado para um caminho sombrio envolvendo sexo e morte.

Rodrigues, que também assina o roteiro, explica que desde esse trabalho, e por toda sua carreira, sempre houve divisão no público e na crítica – há quem ame seus filmes, e quem os odeie, na mesma medida. “Sei que não faço trabalho para multidões, e isso não é um problema, na verdade. Quero fazer filmes que turvam, que provoquem. Eu mesmo, como público de cinema, prefiro filmes assim.”

Como cinéfilo e cineasta, Rodrigues confessa que o que mais lhe interessa é encontrar a linguagem de cada diretor. O cinema de citação não lhe interessa, mesmo colocando em cena recriações de quadros de pintores clássicos, ele confessa que evita esse tipo de coisa, pois não lhe interessa. “Quero ver a linguagem própria que cada um tem a nos oferecer.”

E, nesse sentido, da busca de sua linguagem, ele conta que foi fundamental parceira com o diretor de fotografia Rui Poças, que começou em seu primeiro filme, e segue até hoje. “A gente trabalha junto há tantos anos, que nos conhecemos muito bem. Já escrevo o filme com a fotografia dele em mente.”

No caso de Fogo-Fátuo, aliás, o filme foi escrito antes da pandemia, mas ele acabou mexendo no roteiro, e incorporando-a na história. Já as filmagens, como é de costume em seu trabalho, explica, são muito bem preparadas antes, pois na hora de rodar ele não dá espaço para improvisação. “Fazemos muitos ensaios, muita preparação, e, nesse momento, sou aberto a todas as sugestões, do elenco, da equipe, mudamos as coisas, adaptamos como for necessário, mas quando chegamos o set, sou bem rigoroso.”

Esse rigor aparece de forma sutil, mas ainda assim perceptível em seus filmes. O cuidado técnico é sempre bem evidente, assim como as excelentes intepretações. No caso desse novo média, por exemplo, há um baile de bombeiros, milimetricamente coreografado. Não é algo que pudesse colocar a câmera e o elenco soltos, e deixar a cena correr. O resultado é bastante bonito.

No ano passado, o cineasta John Waters escolheu Fogo-Fátuo como um dos dez melhores filmes que viu em 2022. Perguntado sobre isso, Rodrigues sorri orgulhoso. “Eu gosto muito do trabalho dele, esse espírito de radicalidade dos filmes dele me inspira também. Ele é um iconoclasta que manteve sua radicalidade mesmo quando deixou de fazer filmes undergound e foi para algo mais mainstream. Ele é o tipo de autor cujo estilo me interessa.”