Longa “Puan” traz um retrato crítico da Argentina que elegeu a extrema-direita
- Por Alysson Oliveira
- 08/12/2023
- Tempo de leitura 2 minutos
Leonardo Sbaraglia e Marcelo Subiotto em cena de Puan (Crédito: Divulgação)
Puan é o nome de um bairro em Buenos Aires, e também como é conhecida a Facultad de Filosofía y Letras, da Universidade de Buenos Aires, que é o cenário do filme escrito e dirigido por María Alché e Benjamín Naishtat. Ao centro, está um professor de filosofia, Marcelo Pena (Marcelo Subiotto), há muito tempo docente na universidade, consciente e cansado do descaso com o ensino público, especialmente nas humanidades.
Tudo muda quando morre o professor titular de filosofia mais antigo da instituição. Ele também era o mentor de Marcelo, que o admira e respeita. Porém,
com a vaga aberta vaga, surge um concorrente, Rafael Sujarchuk (Leonardo Sbaraglia), ex-colega da faculdade do protagonista, que se tornou uma pequena estrela latina no mundo acadêmico europeu, morando e lecionando na Alemanha.
A disputa entre os dois se dá mais por visões de mundo e de ensino do que exclusivamente pela vaga.
Em entrevista ao Cineweb, Naishtat conta que conhece bem esse mundo, pois seu pai era professor de filosofia, e sua colega de roteiro e direção foi aluna do mesmo curso na Puan. “Mas também fizemos bastantes pesquisas com alunos e professores. Muito do que está no filme descobrimos nesse momento”.
Embora o projeto tenha começado a ser desenvolvido antes mesmo da pandemia,
Naishtat concorda que Puan expõe a Argentina desse momento, que acabou de eleger um presidente de extrema-direita, Javier Milei. A disputa entre os professores e o sucateamento das humanidades já são um indício do que estava por vir.
“Quando escrevemos o roteiro, era um momento bem distinto do atual. Ninguém imaginava que isso poderia acontecer. Acredito que o filme tenha captado um movimento mais ou menos consciente da energia no país.”
Naishtat confessa que ainda está em choque com o resultado das eleições, mas acredita que o filme é uma ferramenta que pode ajudar a pensar. “O ensino das humanidades está sendo destruído porque são disciplinas que incomodam o poder. É nelas que estão as vanguardas estéticas, políticas. No mundo todo estão sendo atacadas por questionar o sistema.”
O longa foi rodado na própria Puan, e Naishtat diz que não poderia ser diferente. Em cena, estão estudantes reais, pois não se tem como colocar atores para esses papeis, em salas de aula reais. Em uma delas, inclusive, chama a atenção um pôster com a imagem do presidente Lula na parede. “Há cartazes com ele por todo lado na Puan. Muitos de nós admiramos o Lula por sua dignidade e potência política.”
O próprio Subiotto, que interpreta o professor Marcelo, conta que participou de aulas na Puan e acompanhou professores da disciplina que ele iria lecionar no filme. “Era preciso entender como eles dão aulas, me apropriar do vocabulário deles. Era preciso falar de filosofia com propriedade”, conta, divertido.
