Cineasta leva às telas o universo de Adoniran Barbosa
- Por Alysson Oliveira
- 19/03/2024
- Tempo de leitura 4 minutos
O trio de moradores da Saudosa Maloca em cena no filme (Crédito: Divulgação)
Adoniran Barbosa entrou na vida do cineasta e roteirista Pedro Serrano muito cedo. Quando pequeno, na escola, na aula de música, descobriu o compositor e cantor paulistano. Algumas décadas se passaram e usou uma das músicas dele num curta. “Era uma espécie de vínculo afetivo, como se fosse um avô”, conta em entrevista ao Cineweb.
Sua aproximação maior foi com o curta Dá licença de contar, de 2015, no qual já mergulhava no universo de Saudosa Maloca. O filme acompanha um sambista narrador, Joca e Mato Grosso, os três amigos que são expulsos do cortiço que vai ser demolido, trazendo no elenco Paulo Miklos, Gustavo Machado e Gero Camilo nos respectivos papeis.
O curta fez tanto sucesso em festivais que Serrano sempre era indagado porque não fazia um longa. “Comecei a escrever e foi evoluindo, trouxe outros personagens de outras músicas, características de outros sambas para esse roteiro.” E assim surgiu uma espécie de Universo Expandido do Adoniran Barbosa em
Saudosa Maloca, que chega aos cinemas nessa quinta (21/3).
Estão lá o sambista-narrador, que é um alter ego de Adoniran, Joca e Mato Grosso, novamente interpretados pelos mesmos atores. E a eles se unem, por exemplo, Mané (Izak Dahora), em busca de sua Inês, e Iracema (Leilah Moreno), objeto do desejo de Joca e Mato Grosso. “Foram 10 anos entre o curta e o longa. Nesse meio tempo,
fiz um documentário, sem ele, não teria como fazer Saudosa Maloca.”
O documentário Adoniran: Meu nome é João Rubinato, de 2018, serviu como um mergulho profundo na obra do sambista. Além disso, Serrano aponta que também lhe abriu portas, como encontrar distribuidoras que lançariam os dois filmes.
A música Saudosa Maloca, explica, é a espinha dorsal do roteiro, que escreveu com
Rubens Marinelli e Guilherme Quintella. “Para mim, o que o Adoniran fazia eram crônicas musicadas da cidade de São Paulo. Ele falava da vida e das transformações sociais pelo seu ponto de vista.” Construir o Adoniran-personagem do filme foi um trabalho delicado que fez com Miklos desde o curta. “Era preciso encontrar o equilíbrio entre o Adoniran mítico, aquela figura que todo mundo conhece, e o nosso, o personagem-narrador do filme.”
Serrano conta que a presença de Miklos foi decisiva nesse trabalho, até porque ele queria um ator que pudesse cantar, para evitar a dublagem das músicas. As referências que buscaram para interpretação vieram do cinema mudo, em especial Buster Keaton e Charlie Chaplin.
Miklos, por sua vez, conta que mergulhou no universo do sambista, tentando encontrar aquilo a que chama de “adonirês”, a linguagem peculiar nas músicas dele. “Eu tinha que buscar a fluência e, ao mesmo tempo, criar o meu Adoniran. Tinha que trazer o personagens das canções, e até ele mesmo. Porque o próprio Adoniran era um personagem do João Rubinato.”
Ele diz que sentiu uma grande responsabilidade, desde o curta, no qual ainda não havia esse peso todo de dar vida ao músico. “Mas, quando fomos fazer o longa, apesar de o trabalho e a responsabilidade serem maiores, o processo já estava todo criado. Eu já tinha um glossário do Adoniran.”
Miklos aponta também a importância da obra do sambista e a maneira como ela é repleta de uma crítica social que reverbera até hoje, seja na resistência à modernidade desenfreada ou ao processo de gentrificação – um dos temas centrais ao filme. “Ele tinha uma empatia muito grande pelo povo, pela maneira como o povo fala. E a gente tentou trazer isso também no filme,” explica o músico.
Boa parte do longa foi filmada na Vila Itororó, em São Paulo, num antigo cortiço, na Bela Vista, construído na década de 1920, e que hoje se tornou um centro cultural. Um conjunto arquitetônico que combina, sem qualquer regra, estilos e épocas diferentes – por isso, o local parece um cenário perdido no tempo.
Miklos é enfático ao frisar a importância de fazer o filme ali. “O lugar trouxe uma atmosfera, especialmente para as rodas de samba. É um lugar muito especial, que nos recebeu muito bem. Foi importante estar naquele ambiente que sobreviveu desde aquela época. Ajudou muito a entrar no clima do personagem.”
Já Serrano comemorou poder fazer seu filme naquela a que chama de “nossa cidade cenográfica”. Ele mesmo confessa que não teria como construir aqueles cenários. “Há um desgaste temporal real ali, que não tem como copiar, como fazer cenograficamente. Foi trazer a história do passado para o nosso presente. A resistência da Vila Itororó tem tudo a ver com o tema do filme.”
